ARTE

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Novas bagagens

Companhias desbravam cidades brasileiras em busca de material para criações teatrais

GUSTAVO FIORATTI | ED. 219 | MAIO 2014

 

Tchekhov no sertão nordestino: ensaios de  O duelo em cidades do Ceará pela Mundana Companhia de Teatro, em 2013

Tchekhov no sertão nordestino: ensaios de O duelo em cidades do Ceará pela Mundana Companhia de Teatro, em 2013

Com 15 anos de experiência na bagagem, os curitibanos da Companhia Brasileira de Teatro resolveram levantar âncora e partir com o barco.

Desde o início deste ano o grupo navega distante dos limites de sua pequena sede situada em um velho imóvel no centro histórico da capital paranaense. Nas malas de seus integrantes vai junto o projeto Brasil, que tem por princípio criar um espetáculo a partir de viagens pelo país.

O histórico do grupo já prenunciava uma vontade de expansão territorial. Após as festejadas peças Vida (2009), Oxigênio (2010) e Isto te interessa? (2011), seus integrantes assumiram em 2012 no Rio de Janeiro uma parceria com a atriz Renata Sorrah e criaram Esta criança, com texto do francês Joël Pommerat. Nos últimos anos também se dedicaram a oficinas de criação no Nordeste.

O projeto Brasil, segundo Márcio Abreu, diretor da companhia, procura furar o escopo calcificado anteriormente. “É como passar um bloqueio criado pela própria história do grupo. Ao sair de nosso circuito, pretendemos criar novas cartografias”, explica, referindo-se à série de destinos visitados este ano, entre eles Manaus, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.

As viagens incluem atividades como a apresentação do repertório da companhia, oficinas, entrevistas com os moradores dessas cidades e trocas de informações e de metodologias com grupos sediados em cada uma delas. “Nós preferimos nos afastar de temas, não sabemos sobre o que será a peça”, afirma Abreu.

Embora a criação não tenha se definido pelo assunto, o diretor adianta que as discussões do grupo acabaram passando por pelo menos uma questão específica: as cidades visitadas podem ter identidades peculiares, e por suas vastas paisagens procura-se, sob o olhar do grupo, um elemento comum. “Não é uma peça sobre o Brasil, porque não damos conta de algo que estaria no campo da antropologia ou da sociologia. Mas é o nosso olhar sobre o país”, explica.

Documentação das viagens da Companhia Brasileira de Teatro será usada em trabalho com exibição prevista para 2015

Documentação das viagens da Companhia Brasileira de Teatro será usada em trabalho com exibição prevista para 2015

Pelo projeto, no Rio de Janeiro, a Companhia Brasileira de Teatro trabalhou com outros dois grupos, o Teatro de Extremos e o Favela Força, este último sediado em uma favela do Complexo do Alemão. São duas turmas que se debruçam sobre questões como multiculturalismo e cidadania e que frequentemente moldam seus trabalhos pela realidade mais próxima que os cerca.

Já em Brasília o grupo decidiu investigar a relação entre arquitetura e os moradores da cidade. Passaram por clichês, falando por exemplo sobre a questão de Brasília ser uma cidade planejada para incentivar o uso do automóvel. “Mas havia um outro lado que avançava para além dos clichês”, diz Abreu. “Entrevistamos uma garota que falou sobre o hábito de cruzar a cidade passando pelo meio das superquadras, e ela desmentiu quem dizia que Brasília impunha apenas uma relação entre os habitantes e a cidade”, diz.

A viagem da Companhia Brasileira de Teatro foi toda documentada, dando origem a diários de bordo, vídeos e fotografias. A partir de maio, numa segunda etapa, esse material será processado e revisto em sala de ensaio. Ainda sem título, o espetáculo está programado para fazer sua estreia daqui a um ano.

Outras viagens
Esse tipo de processo não é novo. Houve, por exemplo, o circuito feito pelo Teatro da Vertigem para a composição de BR-3 (2006), espetáculo encenado em lugares do rio Tietê, inclusive dentro de um barco que navegava sobre seu leito. O texto foi criado a partir de vivências dos integrantes do grupo em três lugares: o bairro paulistano Brasilândia, a capital do país, Brasília, e a cidade de Brasileia, no Acre.

No ano passado, a Mundana Companhia de Teatro também viajou pelo sertão nordestino para incorporar a cultura regional em uma adaptação da novela O duelo, de Tchekhov. Os ensaios do grupo percorreram três cidades cearenses: Iracema (14 mil habitantes), Arneiroz (com quase 8 mil habitantes) e Lavras da Mangabeira (31 mil habitantes). Nenhuma delas tem sequer um teatro, e os ensaios foram improvisados em galpões, sob direção de Georgette Fadel.

O enredo do livro O duelo, sobre um homem que conquista uma mulher casada e a leva para viver em uma cidade no interior do Cáucaso, passou a atravessar elementos estranhos à cultura de seu cenário original. “Mas o resultado da imersão não é exatamente uma transposição do argumento para a paisagem do Nordeste”, explica o ator Aury Porto, um dos fundadores da companhia.

Não é mesmo. A menção ao Cáucaso permanece no texto, e a passagem pelo sertão nordestino apenas impregna a encenação de elementos estéticos alheios ao original. Há, por exemplo, a recriação de uma crise do protagonista após ser convidado para um duelo. A cena passa a ocupar um bar cuja ambientação recorre a referências observadas em bares que a companhia visitou durante a viagem: há um globo de espelho girando e a música brega ao fundo.

A peça foi apresentada no Centro Cultural São Paulo no segundo semestre do ano passado e tinha Camila Pitanga em seu elenco. O mesmo grupo agora, diz Porto, vai reciclar esse tipo de criação teatral em uma viagem pela cidade de São Paulo para adaptar Na selva das cidades, de Bertolt Brecht. A expedição parte em outubro, em busca de uma vizinhança ainda inexplorada.


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