ARTE

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Na ponta da agulha

A busca obsessiva de um guitarrista mineiro por sonoridades e climas esquecidos após a revolução digital na música

GUSTAVO FIORATTI | ED. 220 | JUNHO 2014

 

Dependências do estúdio Bunker, focado em gravações de vinil

Dependências do estúdio Bunker, focado em gravações de vinil

Há cinco anos o guitarrista Anderson Guerra, um veterano no circuito artístico de Minas, decidiu lançar um disco com músicas engavetadas. Ele reitera que não é avesso ao modo de produção digital, hoje amplamente utilizado pelo mercado por sua rapidez e eficiência, mas escolheu um caminho mais antigo e trabalhoso.

Ao optar pelas metodologias do processo analógico, velho responsável pela produção de vinil e de fitas cassetes, Anderson abriu mão de uma série de benefícios, portanto. As vantagens dos novos sistemas digitais incluem eliminar erros, dar afinação a todas as vozes e sincopar gravações realizadas em lugares distantes.  O registro de uma canção hoje pode, com auxílio de softwares, juntar o som de uma guitarra dedilhada na Rússia a um teclado tocado nos EUA.

O processo digital transforma tudo em gráficos, a música vira desenho na tela do computador, e isso permite recortar, juntar, aparar qualquer aresta. “Tudo o que dá errado é apagado. Não tenho nada contra esse processo, mas há um excesso de resultados esterilizados”, critica Guerra. “Era isso que eu queria evitar, queria humanizar o processo e apresentar uma sonoridade que derivasse disto.”

Equalizadores, reverberadores e outros equipamentos antigos

Equalizadores, reverberadores e outros equipamentos antigos

Havia um preço a pagar, e ele sabia que era tempo e dedicação. Uma nota errada, nos anos que antecedem a revolução digital, muitas vezes significava ver a banda retomar a sessão desde o início. E, se um erro grave se repetisse na edição, todo mundo tinha que voltar para o estúdio mais uma vez. Guerra partiu em busca justamente desse clima que se perdera na revolução tecnológica.

No meio do caminho, no entanto, se deu conta de outra dificuldade: esse tipo de produção havia sumido do mapa no Brasil. “Encontrei muitos estúdios híbridos [que dão opção de gravar pelo processo analógico e digital], mas mesmo neles acho que a gente pode ficar tentada a utilizar uma ou outra ferramenta digital para resolver um problema específico. É muito difícil evitar.” Para garantir uma experiência pura, o músico decidiu então montar seu próprio estúdio.

Neste outono ainda, mais de cinco anos depois, o disco Mercúrio758 está enfim sendo lançado por ele com a participação de outros sete músicos. Também estão oficialmente abertas as dependências do Bunker, que é possivelmente o único modelo de estúdio totalmente analógico do país. O Bunker é dedicado à gravação de discos em vinil e fica nos arredores de Belo Horizonte, em uma área cercada por matas, no mesmo terreno onde Guerra reside.

Houve, no meio de sua pesquisa, uma caça ao tesouro. Montar um estúdio nos mesmos modelos de meados do século XX obrigou o músico a procurar pelas peças exatas, e muitas delas não são mais fabricadas. “Garimpei, comprei muita coisa sucateada. Consegui equipamentos que as pessoas não queriam mais.”

O disco Mercúrio758, que está sendo lançado com músicas compostas pelo guitarrista Anderson Guerra

O disco Mercúrio758, que está sendo lançado com músicas compostas pelo guitarrista Anderson Guerra

Boa parte do conjunto, ele prossegue, veio do extinto estúdio da Philips, que ficava no Rio de Janeiro. “Chico Buarque, Elis Regina, Raul Seixas gravaram lá, a MPB quase inteira passou por lá”, conta. “Quando a Polygram comprou a Philips, eles sucatearam esse equipamento. Eu encontrei isso com um amigo meu. Fiz três viagens de caminhonete para transportar tudo para Minas.”

Algumas peças foram encontradas com facilidade, outras não. “O microfone da Telefunken  (fabricante alemã) é super-raro, o último lote foi fabricado no fim da Segunda Guerra Mundial. Encontrei um e mandei para os Estados Unidos, para uma restauração. A discografia inteira dos Beatles foi gravada com esse modelo, e Frank Sinatra vivia dizendo ‘cadê meu tele’. É uma peça com características live-like, que capta um som detalhado. Arrisco dizer que soa melhor do que o real.”

O disco Mercúrio758 foi gravado no meio dessa busca, em 2011, e foi prensado em vinil pela Polysom, a única fábrica de disco de vinil da América Latina, diz o músico.

Anderson Guerra

Anderson Guerra

Para ele, o álbum Chet Baker sings, gravado pelo cantor e trompetista norte-americano nos anos 1950, “é onde o analógico chegou ao apogeu”. Esse disco, diz Guerra, “se tivesse sido gravado hoje, dentro da possibilidade do universo digital, não poderia ter algumas das características que o tornam especial”, defende.

O resgate das sonoridades do mundo analógico, prossegue, tem sedimentado um novo mercado nos EUA e na Europa. “De uns anos para cá houve um boom”, diz.

No Brasil, o retorno ainda engatinha. “As pessoas que faziam manutenção do equipamento que eu comprei não trabalham mais com isso. Elas agora vendem seguros”, ironiza o músico. “Percebi que vou ter que encarar a bronca. Comecei a pesquisar. Tenho conseguido com esforço fazer manutenção do equipamento.” Pode soar um pouco romântico, Guerra consente. Mas sua busca, de fato, é pelo resgate de uma sonoridade.


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