FICÇÃO

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Desaprendendo a ser humano

DANIELA LIMA | ED. 221 | JULHO 2014

 

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Você pensa sobre o seu trabalho, sobre os artigos que não escreveu, sobre os artigos que escreveu, sobre o livro que não continuou lendo, sobre as duas horas de intervalo entre as duas reuniões. Sobre como os seus dias são iguais. Sobre como todos os dias talvez sejam apenas um. Um dia que não acaba. Você pensa sobre como tudo isso parece natural. Sobre como a rotina produziu um calo que não te permite mais reconhecer o intolerável. Pensa cada vez mais rápido. Aquilo que vinha em frases inteiras – “o livro que não continuei lendo por ter encontrado uma pequena mancha de café sobre a frase ‘what Schlegel calls a philosophy for man’” – agora se apresenta em palavras soltas: lazer, modernidade, automação, banalizing, nature, destination, humanity, tudo cada vez mais rápido. Palavras condensadas. Sobrepostas. Se embaralhando cada vez mais rápido, se embaralhando, até você estar perto do chão, em queda. Um corpo que sempre pareceu estar em queda, agora finalmente encontrava o chão. Era um alívio. Finalmente, você tinha chegado a algum lugar: o chão. E as palavras eram: infinite, dialogue, hard-working. No chão. O espaço que o seu corpo ocupou no chão dividiu a multidão entre os que passavam pela esquerda do seu corpo e os que passavam pela direita do seu corpo. Ninguém parou. A multidão era como um fluido que precisava continuar escoando, independentemente do obstáculo. O obstáculo apenas representava uma bifurcação no caminho. Ninguém vai parar. A multidão precisa escoar. Escoar. Escoar. No momento, em que te restam algumas palavras em inglês e a visão dos sapatos gastos dos outros, você percebe que não sabe mais viver. Alguma coisa fraturou em você. Alguma coisa fraturou em você antes mesmo da queda. A sensação de pertencer a alguma coisa e de estar no mundo está falhando. As portas do trem se fecham, as pessoas desembarcam e falam cada vez mais alto… Sobre trabalho, sobre dinheiro, sobre lazer, sobre outras pessoas. Os sons parecem cada vez mais distantes, ainda que cada vez mais próximos, ainda que perguntando: “Você está bem?”. Nenhum daqueles sons se referia mais a você. Sobretudo, quando se referiam a você. Você está no chão. Você não sente nenhuma dor. Você não teria nenhum problema para se levantar. Mas você não se sente mais capaz de seguir, de agir, de fazer tudo como antes. Você só quer esperar, até não ter mais o que esperar. Você não quer mais avançar como antes. Você não quer mais avançar. Você chegou. Os artigos que você não escreveu, os artigos que você escreveu, o livro que você não continuou lendo, as duas horas de intervalo, a queda. Esta sensação seria consequência de uma combinação inoportuna de acontecimentos? Se você tivesse terminado de ler o livro alguma coisa mudaria? Por que alguma coisa se quebra assim? Por que alguma coisa se altera? Por que alguma coisa se desfaz? É triste e ridículo como usar um chapéu de burro: você não sabe. Você não sabe e é absolutamente incapaz de formular respostas. Você rompeu com o seu conhecimento anterior. Você é capaz apenas de formular perguntas. Perguntas que você não será capaz de responder. Se te perguntassem quem é você, antes da queda, você responderia automaticamente: sou professor. Mas agora você não faz mais nada, portanto você não é mais nada. Um grupo de homens te levanta do chão. Você não quer dar o próximo passo. Você chegou. Tenta balbuciar algumas palavras: fuzilamento, insatisfação, poetry, historical. Você está caminhando sem caminhar. Você está sendo conduzido. Você está sendo conduzido de novo. Eles dizem e você entende: e os que saquearam o hotel? E os que mataram o dono daquela fábrica? E os que envenenaram cavalos? E os que entraram em greve? Você ouve. Você é uma bifurcação. Você não é reacionário. Você não é subversivo. Ou é? Você gagueja. Você não é mais formado. Você não é mais formador. Você não é mais ético. Você é a deformação irredutível de você mesmo. Você ouve. Você vê. Você vê e ouve as coisas nuas. É obsceno. É obsceno ver as coisas nuas. É obsceno ver aquilo que você foi treinado para não ver durante a sua vida inteira. Você se lembra da primeira comunhão, do primeiro cigarro, da primeira mulher, da primeira… Você se lembra. Tudo aquilo, que agora parecia outro, sempre foi você. Sempre esteve lá. Mas agora a camada que fazia de você um homem comum foi descolada. Você segue. Você segue enquanto tudo se amplia, se dilata, escoa. Você segue enquanto a rigidez da matemática, da gramática e da lógica desaparece. Enquanto as leis da física desaparecem. Todo aquele universo invisível que parecia claro, quando você desenhava um vetor numa folha de papel, desaparece. Homem, fragments, morte, ambiguity. Tudo aquilo passa a incomodar. Tudo aquilo que não incomodava passa a incomodar. As fábricas, os bancos, as empresas de cartão de crédito: tudo incomoda. Tudo te atinge. Na cabeça. Tudo passa a existir demais. A existir absolutamente. Você, homem comum, treinado para não existir e para não notar a existência das coisas, agora existe. Existe demais. O seu novo modo de estar no mundo pode ser definido assim: demais. Você também é obsceno, você também está escoando. Você também gagueja. Gagueja segurando um pacote. Um pacote que foi dado a você. Um pacote que vai explodir. Você caminha pelas ruas e tudo continua existindo demais, como se finalmente os prédios estivessem fixos no chão e as pessoas caminhassem com os pés nas calçadas. Tudo parece ligado a alguma coisa. Tudo parece ligado a você. Tudo é uma massa só. Uma massa visível. Escoando. Existindo. O sangue, as pessoas, as nuvens, tudo continuava a escoar. Você é eles, agora que você não é mais como eles. No talent for science, but for philosophy. No talent for philosophy, but for poetry. No talent. Você seguia. Você seguia porque o seu sangue escoava. Você seguia sabendo que toda a massa interligada a você estava escoando. Você seguia sabendo que estava sendo aniquilado a cada passo. Você seguia sabendo que poderia correr em direção à aniquilação. Você corria por não precisar mais prolongar a sua existência. Modernidade, automação, banalizing, nature, destination, humanity. Agora que você fervilhava de existência, precisava correr em direção à aniquilação. Agora que você tinha visto as coisas nuas, precisava explodir. Seu sangue escoava. Seu sangue precisava parar de escoar. Tudo precisa parar. Explodir. Tudo precisa ver, como se fosse possível, a partir da sua morte, fazer surgir um olho, que seria o olho dessa massa interligada que escoava. Você pensa em tudo escoando. É repugnante. É repugnante demais. É intolerável. Você explodiria o pacote. Neste dia, como em todos os outros, seria o seu fim.

Daniela Lima é escritora e jornalista, autora de Anatomia (Multifoco, 2012) e Sem importância coletiva (e-Galáxia, 2014).


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