ARTE

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Palco italiano

Livro revê a herança dos diretores Ruggero Jacobbi, Adolfo Celi, Luciano Salce, Flaminio Bollini Cerri e Gianni Ratto ao teatro brasileiro

GUSTAVO FIORATTI | ED. 224 | OUTUBRO 2014

 

Os filhos de Eduardo, de M-Gilbert Sauvajon, TBC São Paulo, 1950, direção de Ruggero Jacobbi e Cacilda Becker

Os filhos de Eduardo, de M-Gilbert Sauvajon, TBC São Paulo, 1950, direção de Ruggero Jacobbi e Cacilda Becker

Livros de história do teatro frequentemente se referem ao extinto TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, como um palco fundamental para a renovação do cenário nacional no século XX, mas também essencialmente burguês. É possível, no entanto, que haja uma imprecisão nesse rótulo, e esta revisão torna o livro A missão italiana, de Alessandra Vannucci, um trabalho de valor crucial.

O TBC congregou no início de suas atividades nos anos 1940 no Bixiga um pequeno grupo de profissionais italianos que, com a economia recessiva da Itália do pós-guerra, havia deixado seu país de origem para desbravar novos palcos na América. É a trajetória desses italianos que o livro de Vannucci revê. “O TBC era o teatro das elites intelectuais de São Paulo, mas não era isso o que esses italianos queriam fazer ao chegar da Itália, e não foi esse o objetivo pelo qual de fato trabalharam”, diz a autora, sobre os diretores Ruggero Jacobbi (1920-1981), Adolfo Celi (1922-1986), Luciano Salce (1922-1989), Bollini Cerri (1924-1978) e Gianni Ratto (1916-2005).

Contribui para o espectro dessa correção, diz Vanucci, a informação de que o diretor Ruggero Jacobbi, por exemplo, era ligado ao pensamento marxista, tendo sido perseguido tanto no Brasil como na Itália fascista, e também de que o empresário e investidor Franco Zampari, produtor e principal financiador do TBC, empenhou-se em tatear caminhos para abrir o campo da cultura ao consumo de um público mais amplo possível, eventualmente visando às massas.

Houve um “certo elitismo” na trajetória do TBC, assume Vannucci, mas também a tentativa de atrair públicos de todas as classes, o que produzia uma oscilação no repertório, que exibia, ao lado de peças consideradas cultas, também “produtos de consumo popular”, diz, referindo-se a comediantes como Otello Zeloni. O revezamento integrava dois públicos até então dissociados um do outro e, assim, “houve no TBC uma tentativa de formação deste público”.

Acima, Luciano Salce e Cacilda Becker trabalhando na adaptação do Anjo de pedra, de  Tennessee Williams, TBC São Paulo, 1950

Acima, Luciano Salce e Cacilda Becker trabalhando na adaptação do Anjo de pedra, de Tennessee Williams, TBC São Paulo, 1950

Essa é apenas uma das inúmeras revisões históricas que o livro se propõe a fazer. Pela primeira vez também vem a público uma obra que se dedica a compreender as atividades e as heranças dos italianos, bem como o contexto em que eles trabalhavam e criavam, tomando-os como grupo e não individualmente.

Com estilo romanceado, o livro começa sua história ainda na Itália (onde também nasceu Vannucci), situando a difícil tarefa de ser artista na época da Segunda Guerra. O fascismo fomentava um tipo de teatro mais individualista, o teatro dos grandes atores, e não deu atenção às propostas de uma geração que se formava em território cultural antifascista, visando à reconstrução da cultura democrática e que tomava o teatro épico do alemão Bertolt Brecht como um de seus nortes.

Arte no pós-guerra
A recessão no pós-guerra da Itália também jogou um balde de água fria nessa turma, e muitos diretores passaram a enxergar a América como um lugar de plateias abertas para novas propostas. “Ao migrarem para cá, eles transferiram seus sonhos, expectativas, suas frustrações”, diz Vannucci. Ademais, São Paulo já havia se habituado às turnês internacionais das companhias italianas e já via crescer o consumo de entretenimento focado nos imigrantes, cuja população ganhava volume desde o fim do século XIX. “Na Itália, há padaria, igreja e teatro para todo canto. Os italianos são bons consumidores de espetáculos. E, além disso, era possível apresentar espetáculos em italiano por aqui porque muita gente compreendia a língua”, conta Vannucci.

Uma das grandes contribuições dos italianos ao cenário artístico paulistano foi a calcificação no imaginário brasileiro da figura do diretor. Até então, espetáculos teatrais tinham como foco a figura de atores célebres, quando muito se falava no autor do texto encenado, mas o crédito para aqueles que regiam os espetáculos permanecia em um canto obscuro do cartaz. No livro, Vannucci resume que esses artistas italianos foram “apóstolos da direção como instrumento de consciência civil”, atribuindo a eles também um papel social, consolidado a partir de suas visões sobre os diversos processos de redemocratização no mundo.

A contribuição dos italianos se deu ainda por meio da constituição de um repertório cujo olhar procurava valorizar a dramaturgia do novo século. Assim, entre as peças encenadas por Adolfo Celi, viram-se Our town (1938), de Thorthon Wilder, e Huis clos (1944), célebre texto de Jean-Paul Sartre. Também houve espaço para a florescente dramaturgia brasileira, em especial na obra de Gianni Ratto, que encenou A moratória, de Jorge Andrade, e O mambembe, de Arthur de Azevedo, ambas com Fernanda Montenegro.

Para Vannucci, nos anos 1950 e 1940, o grande público queria ser admitido no círculo da cultura, e o empresário Zampari “chocaria um outro ovo” para atender à demanda, criando assim a produtora cinematográfica Vera Cruz, cujo acervo privilegiou a produção de filmes nacionais, visando fazer concorrência às grandes distribuidoras. Os italianos passam a dividir suas atividades entre teatro e cinema, mas com diversos conflitos internos: “Eles queriam fazer um cinema autoral, no estilo neorrealista, o que foi uma tentativa um tanto fracassada. A Vera Cruz, então, passou a investir em filmes de sabor mais popularesco, embasados em temáticas brasileiras, em que o papel da direção ficou submetido a parâmetros de amplo consumo, caso de Tico-tico no fubá, que foi um grande sucesso”, analisa.

A pesquisa de Vannucci iniciou-se em 1997, com bolsa de intercâmbio italiana para pesquisar a obra do diretor Ruggero Jacobbi. Ela continuou interessada na presença de seus conterrâneos no Brasil e voltou alguns anos depois para fazer doutorado na PUC-Rio e recolher o que se tornou o material de A missão italiana, beneficiando-se dos ricos acervos deixados pelos artistas. “Os viajantes”, resume, “conservam tudo, quanto mais nômades, mais eles preservam as memórias de suas vidas, talvez para dar sentido ao impulso de uma perpétua reconstituição biográfica, mesmo que para uso pessoal”.

Esta pesquisa exigiu várias viagens transoceânicas da própria pesquisadora. As cartas mandadas por eles aos amigos que deixaram na Itália, e que lá se encontram até hoje, foram uma das grandes fontes dessa história inédita e repleta de boas surpresas.


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