ENTREVISTA

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Thomas Maack: Memórias de um ano que não terminou

MARCOS PIVETTA e NELDSON MARCOLIN | ED. 225 | NOVEMBRO 2014

 

O primeiro emprego do fisiologista Thomas Maack foi como office boy em uma loja que vendia produtos dentários, em São Paulo. Depois foi militante político, médico, pesquisador e reformador de currículos de faculdades de medicina. Vem se dedicando, nos últimos anos, a viajar, para falar em escolas médicas de outros países sobre os novos conceitos educacionais que podem melhorar a formação dos médicos. Aos 79 anos, porém, ele constata que o tema sobre o qual mais fala no Brasil é 1964, o ano marcado pelo golpe militar. “Cinquenta anos depois, parece que ninguém esquece minha antiga militância”, diz ele, sempre bem-humorado, em mais uma passagem por São Paulo.

Thomas Maack nasceu em Insterburg, na Alemanha, em 1935 e veio ainda bebê com os pais para São Paulo, em 1936, fugindo de Hitler. Quando estudante na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), militou por uns três anos no Partido Operário Revolucionário Trotskista. Formado em 1961, foi um dos discípulos de Michel Rabinovitch, conhecido por impulsionar jovens talentos na pesquisa científica. Como professor, era um dos críticos da antiga cátedra, nas mãos das tradicionais famílias de médicos paulistas na FM-USP. Não estava sozinho – docentes iniciantes como Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Erney Plessmann de Camargo e os já veteranos como Isaias Raw, Antonio Barros de Ulhôa Cintra, Alberto Carvalho da Silva, Rabinovitch, os casais Maria José e Leônidas Deane e Ruth e Victor Nussenzweig,  compartilhavam do mesmo desejo de reforma.

Para Maack, a violência com que o golpe atingiu a FM-USP com demissões e prisões foi provocada não apenas pela caça aos que eram de esquerda. “Ela foi especialmente incentivada pelos velhos catedráticos, que temiam perder poder com as reformas que viriam”, diz. Dos que foram presos em 1964, ele foi o que passou mais tempo encarcerado – sete meses – antes de conseguir um habeas corpus e ir para os Estados Unidos.

Primeiro na Faculdade de Medicina da Universidade do Estado de Nova York em Siracusa e depois na Faculdade de Medicina da Universidade Cornell, Maack teve uma carreira científica longa. Entre suas descobertas destacam-se o desvendamento dos mecanismos pelos quais o rim metaboliza proteínas e hormônios que circulam no sangue e a identificação da estrutura química e das funções do peptídeo natriurético atrial. Quando cansou do laboratório, dedicou-se à educação e foi um dos líderes da reforma do currículo médico em Cornell, que está entre as 10% melhores faculdades de medicina norte-americanas. Hoje vive com a esposa, Isa, em Nova York. Professor emérito, Maack usa sua expertise para dar consultoria sobre como montar um moderno curso de medicina. Em outubro, esteve mais uma vez na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) falando sobre o assunto. Antes, conversou com Pesquisa FAPESP.

Idade:
79 anos
Especialidade:
Fisiologia e biofísica
Formação:
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (graduação), Universidade Federal de São Paulo (doutorado)
Instituição:
Faculdade de Medicina da Universidade Cornell
Produção científica:
Mais de 100 artigos científicos com cerca de 7 mil citações

Vamos começar falando do golpe de 1964, que completou 50 anos em 2014. Além de pesquisador, o senhor era um ativo militante político. A qual organização pertencia?
Minha militância foi muito confusa porque a origem de minha consciência política vem do fato de ter estudado à noite no ginásio [ensino fundamental]. Durante o dia trabalhava como office boy. Fui um estudante vagabundo no primário, mas só tirava notas boas porque estudar era fácil para mim. Meu pai, um alemão, achava que eu tinha que aprender o que era a vida. Ele conseguiu um emprego para mim com um amigo que vendia instrumentos dentários. Estudei no ginásio à noite e me dei muito bem com meus colegas. Todos trabalhavam e alguns deles, inclusive o meu melhor amigo, eram muito pobres e moravam em favelas. Os professores eram fantásticos. A diversidade do meio em que eu estudava teve uma profunda influência na formação da minha consciência política e social. Todavia, minha participação política e militância ainda tiveram que esperar a entrada na FM-USP.

Por que seus pais emigraram?
Eles eram refugiados de Hitler. Minha mãe era judia, meu pai não. Eles perceberam cedo que tinham que sair de lá, no início de 1936, quando eu era bebê.  Eles não podiam trazer dinheiro da Alemanha, mas o piano sim. Trouxeram um piano de cauda e a primeira coisa que fizeram, quando desceram no porto de Santos, foi vender o instrumento para poder sobreviver. Meu pai tinha um talento para línguas inacreditável. Na travessia, em 15 dias aprendeu português. O primeiro emprego dele no Brasil foi de tradutor de alemão para português. Depois trabalhou como propagandista numa empresa farmacêutica. Foi subindo de cargo e acabou como diretor científico da companhia. Não foi por razões econômicas que me mandaram para uma escola pública noturna e me arrumaram um emprego durante o dia. Foi para me dar uma lição de vida. Sou muito grato por isso.

E por que saiu da escola pública?
Quando terminei o ginásio, meus pais decidiram que eu teria de me preparar para a universidade e me colocaram no Colégio Bandeirantes. Isso sim era um sacrifício econômico, custava caro. Contei tudo isso por causa da política, mas há uma boa razão. No curso científico [equivalente ao ensino médio atual] havia a Juventude Comunista, muito ativa, e era um caminho de muitos da minha geração passar pelo Partido Comunista [PC]. Mas eu tive um professor de biologia, Clemente Pereira, que era geneticista do Instituto Biológico e um mendelista estrito. E naquela época o PC propagava as ideias de Trofim Lisenko, o braço direito de Stalin para questões de ciências na União Soviética. Lisenko dizia que gene não existia, que era invenção da burguesia… Meu professor participava dos debates entre mendelistas e lisenkistas no Centro do Professorado Paulista. Ele nos levava para assistir e depois explicava o significado daquilo. Foi esse detalhe que impediu a minha entrada na Juventude Comunista e depois no PC.

Mendel o afastou dos comunistas…
Completamente. Não dava para ser do mesmo partido de Lisenko. Minhas primeiras experiências de ação política foram no movimento estudantil [UNE e UEE] em campanhas nacionalistas, como “O petróleo é nosso”. Depois fiquei muito insatisfeito com as limitações do movimento nacionalista e procurei uma associação com um movimento social mais amplo. Trabalhava então com Nelson Fausto no laboratório de Michel Rabinovitch. Nelson era trotskista e acabou me recrutando para o Partido Operário Revolucionário Trotskista. Ele também se radicou nos Estados Unidos e fez uma carreira brilhante.

Quanto tempo ficou nessa organização?
Do terceiro ao quinto ano de faculdade com militância ativa que, aos poucos, fui largando até o meu rompimento com a organização antes de 1964. Era uma pequena seita, com todos os defeitos inerentes ao culto da personalidade do líder e um centralismo democrático – que tinha muito centralismo e era nada democrático. Não me arrependo desse período. Portanto, durante o meu tempo de estudante da FM-USP, eu era um militante público muito ativo. Outros foram demitidos não por ativismo político, mas porque defendiam a reforma universitária.

O senhor atribui a violência pela qual passou a FM-USP à eliminação dos reformistas?
Não tenho dúvida. Todos os demitidos e indiciados eram professores de várias tendências que desejavam fazer reformas na universidade. O Ulhôa Cintra [ex-reitor da USP e presidente do primeiro Conselho Superior da FAPESP] não tinha nada de esquerdista. O professor Alberto Carvalho da Silva [fisiologista, ex-diretor científico e ex-diretor presidente da FAPESP] também não era um ativista político. O Isaias Raw era um reformista que eu até achava, talvez injustamente, ter tendências direitistas. O ódio que os catedráticos tinham de pessoas como eles era tremendo. A razão é que eles teriam mais poder do que nós, esquerdistas, para realizar a reforma dentro da FM-USP e mais ainda dentro da USP. Um dos objetivos dos reformistas era acabar com a cátedra vitalícia familiar. Na FM-USP, mais do que em qualquer outra faculdade, a cátedra era em muitos casos hereditária. Na FM-USP de São Paulo, eles se apegavam ao poder de forma muito mais forte que nas outras faculdades. Comparem o exemplo do diretor da FM-USP de Ribeirão Preto, Moura Gonçalves, com o João Alves Meira, da mesma faculdade em São Paulo. O pessoal do Exército queria fazer o IPM [inquérito policial militar] em Ribeirão Preto. Moura Gonçalves disse que naquela faculdade eles não entrariam; se quisessem, que fizessem fora, não lá dentro. Já o João Meira cedeu o próprio escritório para o coronel Ênio Pinheiro fazer o IPM na unidade paulistana. Este é o tipo de comparação que devemos fazer. Isso vai muito além do golpe militar em si ou do fato de ser de esquerda e de direita. Os militares inicialmente não queriam se envolver nas brigas internas da FM-USP e da USP, mas, ao mesmo tempo, se aproveitavam dessas disputas para obter denúncias e reprimir a esquerda. Em 1964, os militares ainda se gabavam de ter mais moralidade do que os nossos repressores universitários. Por exemplo, o coronel Sebastião Alvim, responsável por ter me mantido na prisão por sete meses, me disse com orgulho que o Exército nunca faria a crueldade que fizeram comigo, quando a FM-USP expulsou minha filha de 18 meses da creche da faculdade depois que fui preso.

A cátedra acabou durante a ditadura e o governo militar criou mais universidades, além da pós-graduação no país ter se sistematizado durante aquele período. Mas o senhor é crítico quanto a esses avanços.
Minha oposição ao fazer esse tipo de balanço não tem nada a ver com o que os militares fizeram ou deixaram de fazer. Quando visitei a Alemanha, me indicaram uma estrada feita por Hitler e me disseram: “Hitler também fez coisas boas”. Minha resposta a isso foi: “Deve ter sido a estrada mais cara do mundo, porque custou a vida de dezenas de milhões de pessoas”.

Foi depois de formado que o senhor trabalhou com Alberto Carvalho da Silva?
Foi. O Alberto tinha uma honestidade e uma força moral inacreditável. Fui preso, em junho de 1964, no Departamento de Fisiologia da faculdade, que era comandado por ele. Isso foi antes do decreto do governador Adhemar de Barros que demitiu os primeiros sete professores, eu entre eles, em outubro. Quando fui preso, o coronel Alvim se dirigiu diretamente ao professor Alberto pedindo-lhe para me demitir. Isso era fácil porque eu era apenas um instrutor de ensino, não tinha estabilidade e o cargo era o mais baixo de todos. Ele se negou e disse ao coronel: “Não farei isso, a menos que o senhor me dê uma boa razão profissional”. O professor Alberto, por essa e outras ações, pagou o preço mais tarde, quando, com base no AI-5, foi expurgado da USP.

O senhor ficou preso sete meses, quatro deles no navio-prisão Raul Soares. Teve medo de ser torturado ou morto?
Quando estive preso no quartel de Quitaúna, em Osasco, em um interrogatório no escritório do coronel Sebastião Alvim, um capitão mais nervoso apontou o revólver para mim e disse: “Ou você fala ou te mato”. Respondi: “Então atira”. Não foi um ato heroico. Tinha 100% de certeza de que ele não iria sujar o tapete grã-fino do escritório do coronel com o meu sangue. Esse episódio foi bem no começo da prisão, antes do navio. Meu maior medo era ir para o Dops [Departamento de Ordem Política e Social], onde ocorriam as torturas físicas mais brutais. O coronel dizia a toda hora: “O Exército não tortura”. Mas, a partir de 1968, o Exército foi quem fez as piores torturas. Ser mandado para o navio foi, de certa forma, um alívio para mim. A alternativa era o Dops. No navio, a maioria dos presos eram estivadores e sindicalistas de Santos. Um dos grandes orgulhos da minha vida é a minha relação com os trabalhadores do porto, que mantenho até hoje. Sempre digo que a esquerda só se une na prisão. Eles ajudavam uns aos outros, se organizavam para manter o moral, se arriscavam pelo bem comum. Fiquei numa cela isolada, que tinha até banheiro, um luxo. Os operários ficavam num porão imundo e minha única ida lá era quando um deles ficava doente. Não havia um oficial médico para atender aos prisioneiros que adoeciam.  Essa função recaiu sobre mim, pois eu era o único médico. Quando as coisas complicavam, eu dizia para o capitão que não me responsabilizaria: ou mandava o doente para a Santa Casa de Misericórdia de Santos ou ele poderia morrer.

Vamos falar um pouco sobre sua vida científica. Seus primeiros trabalhos foram feitos na FM-USP?
Minha carreira de pesquisador começou com o Rabinovitch na FM-USP. Esse grupo compreendia cerca de 10 estudantes de medicina que estavam interessados em seguir uma carreira acadêmica. Publiquei dois artigos como estudante.

Sobre o quê?
Em um dos trabalhos, descrevemos como as células do rim captavam uma proteína circulante, a lisozima, e também aumentavam os níveis de uma enzima, a ribonuclease alcalina. Esse saiu publicado na Nature. O outro descrevia o aumento dessa enzima após a administração de corantes teratogênicos. Com esses estudos, aprendemos como fazer pesquisa. Depois, já como instrutor de ensino, como eu sempre tive interesse em fisiologia, fiz o estudo da reabsorção de proteínas de baixo peso celular no rim. Esse trabalho foi praticamente terminado no início de 1964 e foi o meu primeiro como pesquisador independente, financiado pela então récem-criada FAPESP. O artigo referente a esse estudo saiu muito mais tarde no Journal of Cell Biology, quando eu estava nos Estados Unidos. A razão do atraso foi o golpe militar. Todas as anotações que realizei foram perdidas porque os militares tinham levado os meus cadernos de laboratório à procura de algum código secreto da resistência contra a ditadura. Contei essa história para o William Kinter, meu chefe no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Siracusa, e ele disse: “Vai ficar se lamentando ou vai repetir tudo para completar o trabalho?”. Ele me deu seis meses para isso, com dinheiro de sua pesquisa. Kinter era generoso: me deixou trabalhar num assunto que não era o dele. Refiz tudo e publiquei.

E esse artigo era sobre o quê?
Mostrava como se dava o manuseio de uma proteína circulante, no caso a lisozima, no animal intacto, e o que acontecia no rim. Foi o primeiro artigo que mostrou isso. Ninguém acreditava que as proteínas, filtradas no glomérulo renal, fossem reabsorvidas, hidrolizadas em lisossomos e os aminoácidos resultantes voltassem para a circulação.

A família foi junto para o exílio?
Minha esposa, Isa, e minha filha Marisa foram comigo. Minha segunda filha, Márcia, nasceu lá em outubro de 1965. Isa aproveitou e fez pós-graduação em história na Universidade de Siracusa. Ela conseguiu bolsa e moradia.

Por que não fez pós-graduação lá?
Achei desnecessário. Meus trabalhos estavam tão adiantados que eu não precisaria do título de ph.D. O próprio Kinter achava não ser necessário. Meu único título até 1980 foi o de graduação em medicina. Em 1979, quando eu passei um ano em São Paulo, meus colegas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, me convenceram a escrever uma tese e me deram um título de doutorado.

Quanto tempo ficou em Siracusa?
Quatro anos. Dois anos como pós-doc e dois anos como professor-assistente. Pouco depois que cheguei, Kinter ficou muito doente, com problemas no coração. Quando piorou, me pediu para substituí-lo em algumas atividades. Ele era editor-associado do American Journal of Physiology na parte de rim. Então passei a ler os artigos submetidos para publicação, escolher e distribuir os textos para especialistas que entendessem do assunto para revisão. Com isso tive contato intensivo com a comunidade de fisiologia renal de todo o mundo. Já muito doente, Kinter foi trabalhar em tempo integral num laboratório de biologia marinha no Maine. Antes, ele soube que abriria uma vaga na Faculdade de Medicina da Cornell, em Nova York, e sugeriu que eu deveria me candidatar. Em 1969 fui contratado pela Cornell. Até 1980 trabalhei na mesma temática de como o rim manipulava as proteínas circulantes. Depois passei a centrar mais em hormônios: como o rim lida com insulina, hormônio paratireoidiano, hormônio de crescimento e pequenas imunoproteínas. Continuei publicando, com bom impacto. Uma parte desses trabalhos foi realizada com fellows brasileiros que trabalharam no meu laboratório. Com um deles, Daniel Sigulem, fiz um rim funcionar fora do corpo de um rato. A vantagem dessa técnica é que se pode fazer a experiência de forma bem controlada. O trabalho foi bem-sucedido e auxiliou muito nas minhas pesquisas futuras e promoções acadêmicas. Nos Estados Unidos, se o pesquisador não é promovido em cinco ou seis anos, muitas vezes ele tem de sair e procurar uma posição em outra universidade. Ou seja, fica na universidade se o trabalho dele se tornar importante e tiver visibilidade. Isso faz com que a mobilidade seja muito grande, ao contrário do Brasil. Na Cornell, depois de dois anos, fui promovido a associate professor.

O senhor conseguiu as promoções em um tempo menor.
Bem menor. Virei professor titular, ou full professor, aos 40 anos. Essa preparação do rim isolado também abriu caminho para a etapa seguinte, que foi estudar peptídeos natriuréticos. Tinha esgotado minha imaginação do que fazer com o manuseio renal de proteínas e hormônios. Nesse período, foi descoberto que quando se distende o átrio, que é a câmara superior do coração, aumenta a excreção de sódio pelo rim. O pesquisador Adolfo de Bold, um argentino radicado no Canadá, fez um extrato do átrio e injetou num animal intacto. Havia dúvida de se a excreção do sódio era um efeito direto ou indireto. Com o rim isolado essa dúvida acabou: mostrei que o extrato de átrio continha uma substância que aumentava diretamente a excreção de sódio pelo rim. E, também devido à preparação do rim isolado, foi fácil isolar a substância que provocava esse efeito.

E isso mudou o rumo de suas pesquisas.
Exato. Li o resumo do trabalho de De Bold, publicado em 1980, e pensei: “É isso!”. Vou ver se o efeito é direto ou indireto. Trabalhei com uma fellow brasileira, Maria José Camargo, da Unifesp. Usamos o rim isolado para purificar a substância do extrato. Precisei da colaboração de uma companhia de biotecnologia para determinar qual era a estrutura química da substância. Com isso, fomos o primeiro grupo a ter o peptídeo sintético e descobrimos diversas funções desse novo hormônio, inclusive seus efeitos sobre a filtração glomerular, a pressão arterial, o volume plasmático e o sistema renina-angiotensina-aldosterona. Descobrimos um novo receptor de peptídeos natriuréticos, cuja função principal é remover os peptídeos da circulação e, dessa maneira, regular os seus níveis plasmáticos. Os trabalhos do meu laboratório sobre peptídeos natriuréticos e seus receptores receberam mais de 5 mil citações na literatura científica. Em 1984, havia apenas cinco artigos publicados sobre peptídeos natriuréticos, inclusive um dos nossos, e três laboratórios trabalhando no tema. Hoje, no meu database tem mais de 25 mil artigos publicados sobre esse assunto.

Quais são as implicações clínicas?
A descoberta de que a pressão arterial é regulada por uma combinação de hormônios. Alguns aumentam a pressão: renina, catecolaminas, ativação  do sistema simpático. Os peptídeos natriuréticos fazem o oposto. A implicação clínica imediata é que, para manter uma pressão arterial normal e outras funções cardiovasculares e renais, é necessário um equilíbrio entre esses hormônios. Qualquer desequilíbrio vai aumentar ou diminuir a pressão arterial e outras funções cardiorrenais. No arsenal terapêutico temos diversos medicamentos que, por exemplo, diminuem a atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Infelizmente, ainda não existe uma terapia efetiva baseada nos efeitos dos peptídeos natriuréticos, que são muito difíceis de usar porque precisam ser injetados. Se tomados pela boca, são destruídos no estômago e intestino.

Até quando o senhor trabalhou como pesquisador?
Larguei o laboratório em 2010. Decidi que queria mais liberdade e resolvi parar por conta própria. Saí da Cornell como professor emérito. Ainda tenho um escritório lá e faço algumas coisas. Vou ensinar, por exemplo, em escolas médicas da Tanzânia e Qatar. Nos últimos 10 anos, me dediquei mesmo à educação médica. Vi que o aprendizado passivo não é bom. Dar aula é um método muito ineficiente de aprendizado. Primeiro, porque o estudante estuda a aula naquele dia e meses depois faz o exame. O conhecimento é inicialmente recordado, mas desaparece rapidamente. Em segundo lugar, porque o conhecimento em ciências biomédicas é tão grande e avança tão rapidamente que ninguém sabe o que ensinar. Todos os dias um conceito velho é superado por um novo. Me propus a ajudar a reformar o ensino de ciências básicas na Cornell. O centro da reforma é o autoaprendizado, baseado principalmente em casos clínicos. No estudo da fisiologia do coração, por exemplo, o estudante começa com um caso real de enfarte e tenta saber por que aquilo ocorreu em vez de ir para um livro-texto, no qual um autor explica como funciona o coração. Outro conceito que tentamos introduzir é o das chamadas áreas verdes, isto é, dar tempo ao estudante para o autoestudo, para se aprofundar em tópicos de sua escolha. Trata-se de parte da grade escolar em que não são exigidas atividades formais do aluno. Isso, claro, é um problema maior no Brasil, onde o estudante de medicina tem aula e atividades entre as 8h e as 18h.

E funciona deixar o aluno solto?
Desenvolvemos o projeto em 1997 na Cornell e funcionou. O conceito de área verde significa ter confiança em que o estudante vai aproveitar o tempo livre para, em primeiro lugar, ter certeza de que adquiriu o conhecimento da parte formal do curso. Sem isso, nada adianta. Em segundo, começar a explorar o que lhe interessa. Por exemplo, aqui o aluno poderia fazer iniciação científica. No Brasil, os estudantes de medicina são muito mais jovens do que nos Estados Unidos. Portanto, precisam ter tempo –inclusive para namorar, jogar futebol. A área verde no Brasil é criticada porque dizem que o estudante só vai fazer isso. A minha resposta é: testem o aluno. O sistema de testes de aprendizado é absurdo aqui. Eles são feitos uma vez por semestre ou duas, no máximo. O aluno estuda apenas uma semana antes do exame. Eu fiz isso, sei como é. Esse é um sistema em que o conhecimento desaparece rapidamente.

Como funciona nos Estados Unidos?
Em primeiro lugar, os estudantes fazem college, um curso universitário pré-profissional com quatro anos de ciências gerais, que fornece a base para várias carreiras. Depois fazem efetivamente o curso profissional que desejam, como o de medicina. No Brasil, por melhor que seja, o ensino médio não prepara bem o estudante. Os professores de ciências básicas aqui têm que dedicar muito tempo para explicar noções elementares, que nos Estados Unidos são ministradas no college. Lá o curso de medicina dura quatro anos. Os primeiros dois anos são centrados em ciências básicas, mas já com uma direção clínica. O estudante vê o paciente, vai num consultório, observa o médico atendendo. Começamos com a aprendizagem baseada em problemas, em que grupos de 10 estudantes se reúnem com tutores por uma hora e meia três vezes por semana. Os estudantes avaliam um caso clínico e veem o que ainda não sabem de ciência básica. Aí estudam, voltam, fazem apresentações uns para os outros e, na sexta-feira, último dia da semana, chegam a uma conclusão. Temos aulas de conceitos gerais: laboratórios de anatomia, dissecção etc. Às 13 h toda atividade formal acaba – menos nas tardes de quintas-feiras, em que os estudantes vão obrigatoriamente a consultórios médicos ou postos de saúde. E o que eles fazem nas áreas verdes? Depende do nível do aluno. O que aprende fácil vai procurar cursos que quer fazer. Nossa única imposição é que, ao fim de duas semanas, ele faça um teste sobre o conhecimento que adquiriu na parte formal do curso. Não dá para vagabundear. No Brasil algumas escolas médicas estão começando a sua reforma curricular nesse sentido

Como vê a formação dos médicos no Brasil?
A maioria vem de escolas desastrosas, que não seriam reconhecidas no mundo desenvolvido. Tem mais faculdade de medicina aqui – cerca de 300 – do que nos Estados Unidos – 120. As daqui, com as exceções conhecidas, são completamente desaparelhadas, sem hospital-escola. Escola médica de qualidade não dá lucro e diversas no Brasil têm fins lucrativos. Nos Estados Unidos, não conheço nenhuma. A formação do médico no Brasil também ganharia muito se houvesse um curso universitário pré-profissional de dois anos antes da escola médica. Assim o aluno teria uma base melhor de ciências e poderia testar a sua motivação para a medicina, o que não é possível hoje.

Como é sua vida em Nova York nesses 50 anos de Estados Unidos?
É uma vida boa. Vamos muito a concertos e ao teatro. Leio bastante e gosto de ficar com minha esposa, filhas e netos. Minha esposa também teve uma carreira universitária muito satisfatória, sendo professora titular de história no Essex Community College em Newark, New Jersey.  Minha filha Marisa é chefe de gabinete de uma vereadora de Nova York. A caçula, Márcia, é advogada em Washington, diretora do programa de atendimento gratuito em um escritório de advogados. Os netos são filhos da Marisa, aquela mesma que foi expulsa da creche quando fui preso.


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