MEMÓRIA

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Com os pés na terra

Os chamados padres matemáticos fizeram mapas detalhados sobre os sertões do Brasil

CARLOS FIORAVANTI | ED. 226 | DEZEMBRO 2014

 

Mappa corographico da capitania do Rio de Janeiro, atribuído a Domingos Capassi

Mappa corographico da capitania do Rio de Janeiro, atribuído a Domingos Capassi

Os padres jesuítas tinham uma formação científica privilegiada, que contemplava principalmente a matemática e a astronomia. Em Roma, acompanhavam passo a passo as descobertas feitas com um novo aparelho, o telescópio, e dialogavam com Galileu. Como os especialistas nessas áreas eram escassos, os monarcas os requisitavam para tarefas inesperadas em territórios distantes. Em 1729, João V, rei de Portugal, contratou dois dos já chamados padres matemáticos, que eram também astrônomos e cartógrafos, o português Diogo Soares e o italiano Domingos Capassi, para “fazerem-se mapas das terras do dito Estado, não só pela marinha, mas também pelos sertões, com toda distinção, para melhor se assinalem e conheçam os distritos de cada bispado, governo, capitania, comarca e doação”, como determinava o alvará de nomeação dos dois como cartógrafos do rei. Como professor de matemática no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, Soares já tinha escrito sobre o Brasil em seu Novo atlas lusitano ou teatro universal do mundo todo, de 1721: “É país fertilíssimo e saudável, tem o melhor ouro da América, muito tabaco, e açúcar”.

Mapa da região do ribeirão do Carmo, rio das Velhas e rio Paraopeba, em Minas Gerais, atribuído a Diogo Soares

Mapa da região do ribeirão do Carmo, rio das Velhas e rio Paraopeba, em Minas Gerais, atribuído a Diogo Soares

O trabalho de Soares e Capassi no Brasil, concluído em 1748, ganhou o nome de Novo atlas da América portuguesa, um conjunto de 31 mapas cobrindo toda a costa sul e sudeste até Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, e boa parte do interior, além de relatos e roteiros de sertanistas. Um dos mapas, a Carta 9ª da costa do Brazil desde a barra de Santos até à da Marambaya, elaborado por volta de 1737, “representa, pela primeira vez, a rede urbana, fluvial e viária do planalto paulista e suas articulações com o litoral”, comentou Beatriz Bueno, professora da Universidade de São Paulo (USP), em um artigo publicado na Anais do Museu Paulista. Os mapas ajudaram Portugal a defender seus territórios nas negociações com a Espanha, que resultaram no Tratado de Madri, de 1750, eliminando o Tratado de Tordesilhas, estabelecendo novos limites entre as possessões dos dois países na América e permitindo a Portugal tomar posse oficial de terras já ocupadas na Amazônia e nas regiões Centro-Oeste e Sul.

Um cartógrafo anônimo português tinha feito em 1502 o primeiro mapa incluindo o Brasil, em 1509 outros cartógrafos fizeram mapas melhores, mas os concorrentes europeus – alemães, italianos e franceses – também faziam seus mapas, de que dependiam as ações dos países para ocupar, manter, explorar ou defender seus territórios. No Mapa da maior parte da costa e sertão do Brazil, produzido por volta de 1700, o padre Jaques Cocleo, jesuíta francês, professor de matemática e astronomia em Lisboa até 1660, quando se mudou para o Brasil, já tinha descrito rios, montanhas, vilas, caminhos e áreas de mineração do interior do país, mas ele morreu por volta de 1710 e o trabalho parou. O rei de Portugal, porém, precisava de mais informações para continuar a explorar sua principal colônia.

Morro do Castelo, no Rio, com o Colégio dos Jesuítas à direita. Trecho da gravura de Victor Meirelles

Morro do Castelo, no Rio, com o Colégio dos Jesuítas à direita. Trecho da gravura de Victor Meirelles

Soares e Capassi chegaram ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1730, montaram um observatório astronômico no Colégio dos Jesuítas no morro do Castelo e começaram a fazer suas medições. “Não havia observações contínuas. O trabalho deles serviu basicamente para determinar a longitude do Rio com relação a Paris”, concluiu Jorge Pimentel Cintra, professor da USP que, com sua equipe, tem examinado as anotações e os mapas dos padres. Em 1732 Soares e Capassi viajaram por Minas Gerais, recolhendo relatos de sertanistas sobre minas de ouro e diamantes, localizando-as em mapas que produziam, cobrindo desde o sul de Minas até a atual Região Metropolitana de Belo Horizonte. Depois, fizeram levantamentos das coordenadas geográficas dos principais portos da capitania do Rio Grande de São Pedro. Capassi morreu em 1736. Soares continuou sozinho e elaborou outros mapas e plantas de fortificações para a defesa da cidade do Rio de Janeiro até ele também morrer, em 1748, em Goiás.


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