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Oceanografia

De volta ao mar

Novo navio oceanográfico impulsiona a pesquisa sobre clima, correntes marinhas, sedimentos e biodiversidade do litoral brasileiro

Reforço duplo: o Alpha Delphini (menor) ao lado do Alpha-Crucis, ancorados no porto de Santos

Eduardo CesarReforço duplo: o Alpha Delphini (menor) ao lado do Alpha-Crucis, ancorados no porto de SantosEduardo Cesar

O dia 30 de maio de 2012 no porto de Santos, litoral paulista, marcou o início de uma nova etapa da pesquisa oceanográfica paulista. Nesse dia foi apresentado publicamente e inaugurado o navio oceanográfico Alpha-Crucis, adquirido pela FAPESP para o Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo (USP). O novo navio substituirá o Professor W. Besnard, o primeiro navio oceanográfico da USP, que realizou dezenas de viagens, incluindo seis à Antártida nos anos 1980, de 1967 até 2008, quando foi desativado.

A história da compra do Alpha-Crucis começou em 2009, quando Michel Mahiques assumiu a direção do IO e encontrou um cenário desanimador: o Prof. Besnard tinha sofrido um incêndio e estava fora de operação. Como reformá-lo não era viável e não havia dinheiro para comprar um navio novo, Mahiques optou por comprar um navio usado e adaptá-lo para uso em pesquisa oceanográfica. Na 19ª visita a navios de pesquisa à venda em vários países, ele encontrou o Moana Wave, que havia servido à Universidade do Havaí, fora comprado por um estaleiro em Seattle, Estados Unidos, e alugado para a NOAA, agência federal norte-americana para meteorologia, oceanos, atmosfera e clima. O preço era razoável, US$ 4 milhões. Um grupo de engenheiros e tripulantes do IO visitou o navio quando estava ancorado no litoral do Chile e gostou do que viu. A FAPESP aprovou o pedido de compra, com a contrapartida de a USP assegurar a tripulação e a manutenção. O custo final do navio foi de US$ 11 milhões, entre recursos da FAPESP e da USP.

Antes de partir: equipe prepara cilindros de coleta de água

Eduardo CesarAntes de partir: equipe prepara cilindros de coleta de águaEduardo Cesar

Com 64 metros de comprimento por 11 metros de largura, o navio foi rebatizado de Alpha-Crucis – a estrela que representa o estado de São Paulo na bandeira do Brasil –; reformado, ganhou equipamentos novos e teve de vencer uma burocracia inimaginável antes de zarpar de Seattle. “Às vezes, eu pensava que não conseguiríamos retirar o navio dos Estados Unidos, tantos foram os obstáculos que tivemos de vencer”, recorda Mahiques. O IO, criado em 1946 como Instituto Paulista de Oceanografia, incorporado à USP em 1951 como unidade de pesquisa e transformado em unidade universitária em 1972, ganhou novo fôlego com o navio, usado por sua próprias equipes, de dois programas da FAPESP, o de Mudanças Climáticas Globais e o Biota-FAPESP, e de outras instituições paulistas (ver Pesquisa FAPESP nº 195).

O Alpha-Crucis partiu para seu primeiro cruzeiro internacional na tarde do dia 1º de dezembro de 2012. A bordo estavam 20 pesquisadores, liderados por Edmo Campos, do IO, e 19 tripulantes. A viagem integrava um programa internacional chamado Samoc (South Atlantic Meridional Overturning Circulation), cujo propósito principal era desenvolver e implantar um sistema de monitoramento das variações do transporte meridional de massa e calor – e do clima em geral – no Atlântico Sul. “Qualquer variação na quantidade de calor no oceano, ainda que ínfima, tem uma grande influência sobre o clima do planeta”, disse Campos, pouco antes de partir para a expedição.

“Finalmente vamos medir a variabilidade da corrente, em um projeto financiado por três países [Brasil, Argentina e Estados Unidos] em um navio adequado”, comentou a pesquisadora argentina Silvia Garzoli, cientista-chefe do laboratório oceânico e meteorológico da NOAA. Era também a primeira viagem do Alpha-Crucis para coleta de amostras de água e de medições de temperatura em águas profundas, com até seis quilômetros abaixo da superfície (ver Pesquisa FAPESP nº 203).

Mahiques liderou uma das expedições, em fevereiro de 2013, para coletar sedimentos do fundo marinho, ao longo do litoral paulista, para resgatar a história climática, ambiental e evolutiva da região. Ele e pesquisadores da Alemanha e do Uruguai verificaram que os grãos finos de areia, a lama e o material orgânico, carregados pelo rio da Prata e embalados pelas correntes marinhas, viajam quase 2 mil quilômetros e chegam até o litoral de São Sebastião (ver Pesquisa FAPESP nos 206 e 215).

Um ano depois de entrar em operação, o Alpha-Crucis ganhou o reforço do barco oceanográfico Alpha Delphini, construído inteiramente no estaleiro Indústria Naval do Ceará (Inace), também com apoio da FAPESP, para aumentar a capacidade de pesquisa em oceanografia no estado. Em julho de 2013, um mês antes de chegar a São Paulo, o Alpha Delphini fez sua primeira expedição científica no litoral de Pernambuco, entre a ilha de Itamaracá e o arquipélago de Fernando de Noronha, passando pela zona costeira de Recife. O objetivo da expedição foi avaliar o papel das regiões oceânica e costeira de Pernambuco como absorvedoras ou liberadoras de carbono e identificar quais zonas atuam de uma forma ou de outra.

As equipes do Instituto Oceanográfico investigaram, ainda, outros temas, como as correntes marítimas, a evolução geológica e os impactos da poluição nas águas da ilha de São Sebastião, a origem e as consequências da erosão das praias e a diversidade de baleias e golfinhos ao longo do litoral paulista (ver Pesquisa FAPESP s 51, 92 e 218).