Literatura

Entre mestres e aprendizes

A contribuição da universidade em áreas como teoria literária e crítica de cinema permanece atual

Imagem: Léo RamosWalnice Nogueira Galvão foi sua primeira assistente e ainda hoje se lembra de detalhes de anos de convívio, como quando aprendeu que uma aula bem dada deveria estar contida em quatro páginas datilografadas. Celso Lafer recorda com carinho do empenho com o qual sempre cuidou da formação dos que com ele estudaram. Maria Augusta Bernardes Fonseca o reverencia como um conversador brilhante e que consegue acolher a fala de seu interlocutor com respeito e atenção. O personagem é Antonio Candido, crítico e ensaísta, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP ). Ou apenas “mestre”, como preferem chamar Walnice, Lafer, Maria Augusta e tantos outros que conviveram com um dos pensadores fundamentais para o país.

Maria Augusta obteve a sua livre-docência em teoria literária pela USP em 2006 e no ano seguinte passou a coordenar projetos de pesquisa sobre o legado da obra de Antonio Candido. Foram três até agora, o primeiro sobre seus ensaios, o segundo focando nas entrevistas e o terceiro e atual investiga os prefácios escritos por ele. “Como se vê, são facetas e objetos diferentes, cada qual contendo o húmus de sua criatividade e versatilidade crítica”, explica a pesquisadora.

Desde o primeiro projeto, vem coletando também verbetes a partir de conceitos do “mestre” sobre a arte literária. O primeiro contato da jovem foi com Formação da literatura brasileira, obra seminal de Candido, publicada pela primeira vez em 1959 e até hoje uma reflexão fundamental para a criação de uma consciência sobre o país. Foi durante seu mestrado, nos anos 1970, com foco em Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, que Maria Augusta teve a oportunidade de assistir às suas aulas expositivas, “longas, mas incansáveis para os 200 alunos que lotavam a sala”. A pesquisadora passou a vê-lo como um “manancial crítico”, dada a variedade e pluralidade dos aspectos que aborda em seus ensaios. E isso serve de lição também para os orientandos de Maria Augusta que querem estudar o modernismo brasileiro. “Impossível não ler Antonio Candido quando temos pela frente obras de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado e outros mais”, afirma.

Walnice Nogueira Galvão: Antonio Candido foi seu melhor professor “em cinco continentes”

Imagem: Eduardo CesarWalnice Nogueira Galvão: Antonio Candido foi seu melhor professor “em cinco continentes”Imagem: Eduardo Cesar

Literatura e sociedade
O atual corpo docente de teoria literária e literatura comparada da FFLCH já não é composto por professores formados na mesma linhagem crítica e voltada para as relações entre literatura e sociedade, como até hoje defende o “mestre”. Mas não faltam pesquisadores, como Joaquim Alves de Aguiar, Betina Bischof e Ana Paula Pacheco, que se dedicam ou privilegiam de algum modo o estudo da obra de Antonio Candido em seus trabalhos.

Foi da disciplina de graduação Teoria e Análise do Romance, criada por Candido nos anos 1960, que se originou o Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH e a sua revista Literatura e sociedade. O presidente da FAPESP, Celso Lafer, foi um dos alunos desse curso. “A sua autoridade intelectual é a de um grande mestre que, no correr dos anos, tornou-se um ponto de referência da cultura brasileira”, afirmou Lafer, em artigo publicado na edição comemorativa dos 90 anos de Candido em Literatura e sociedade, em 2009. Nele, discorre sobre o papel da Faculdade de Direito na trajetória de Antonio Candido. Sim, o “mestre” fez e passou, em 1939, nos exames vestibulares das faculdades de Filosofia e de Direito, formando-se em ciências sociais na primeira e não concluindo a segunda, embora tenha estudado até o quinto ano.

“Somos filhos do nosso tempo e de nossa formação”, diz Alfredo Bosi, professor emérito de literatura brasileira da USP, referindo-se ao eclético ambiente universitário que conheceu no final dos anos 1950. “O curso de letras nos dava a dupla dimensão histórica e estética dos textos literários, aliada ao respeito pela erudição filológica, o que era um bem, pois não ficávamos aprisionados em nenhum sistema prévio. Mas à medida que o clima político dos anos 1960, ainda antes do golpe militar, se aquecia alimentando projetos de reformismo à esquerda, também a nossa concepção de literatura e de cultura ia transitando de uma fusão de existencialismo e idealismo para uma visada em que a consideração das determinações sociais passava a pesar e a ocupar o primeiro plano da reflexão sobre a natureza e a função da literatura.”

Bosi estudara algum tempo em Florença, entre 1961 e 1962, e, segundo conta, assistira à passagem da influência de Benedetto Croce (1866-1952), “um historicista hegeliano de fôlego”, para a de Antonio Gramsci (1891-1937), “um marxista profundamente interessado na complexidade da cultura, sobretudo literária”. “De regresso ao Brasil, e retomando a leitura assídua de Otto Maria Carpeaux e Antonio Candido, também fiz essa passagem, sem perder de vista as riquezas do culturalismo e das leituras estilísticas de texto. Talvez tenha ficado desse momento sincrético, sensível à multiplicidade dos olhares críticos, um desejo de abertura à riqueza de perspectivas diferenciadas, que procurei transmitir aos alunos, inicialmente como professor de literatura italiana”, afirma Bosi, que formulou essa abordagem em O ser e o tempo da poesia, obra publicada em 1977.

Roberto Schwarz: crítico da obra de Machado de Assis e influência presente nos departamentos de Teoria Literária, Literatura Brasileira e Letras Modernas

Imagem: miguel boyayanRoberto Schwarz: crítico da obra de Machado de Assis e influência presente nos departamentos de Teoria Literária, Literatura Brasileira e Letras ModernasImagem: miguel boyayan

A professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão, referência obrigatória para os estudos das obras de Euclides da Cunha (1866-1909) e Guimarães Rosa (1908-1967), afirma que Antonio Candido foi o melhor professor que já teve em “cinco continentes”, de quem se tornou amiga. Tem a preocupação de visitá-lo semanalmente e quando viaja ao exterior faz questão de vê-lo tanto na ida quanto na volta. Com 40 livros publicados, Walnice lembra-se da época de sua tese de livre-docência, em 1972, quando Candido, mesmo sem ser especialista no autor, se empenhou em ajudá-la na busca de referências sobre Euclides da Cunha. “Antonio Candido sempre se preocupou em formar gente, e fazia isso passando o amor que tinha pela literatura.”

Crítica dialética
Embora tenha orientado inúmeros discípulos de expressivo reconhecimento no meio intelectual, como a própria Walnice, Davi Arrigucci, João Luiz Lafetá e José Miguel Wisnik, Antonio Candido teve em Roberto Schwarz o seu mais reconhecido herdeiro. Professor de teoria literária e literatura comparada na USP (até 1968) e de teoria literária na Unicamp (1978-1992), ele absorveu do “mestre” o método de crítica que procura apreender as complexas relações entre forma literária e processo social. Foi seu aluno ainda na graduação em ciências sociais, em 1958, mesmo ano em que participou do icônico grupo do seminário de O capital, de Karl Marx, constituído pelos intelectuais Ruth e Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Fernando Novais, Paul Singer e José Arthur Giannotti. Roberto Schwarz, ao lado de Leôncio Martins Rodrigues, Francisco Weffort, Gabriel Bollaffi, Michael Löwy e Bento Prado Júnior, estava entre os alunos mais assíduos. Em entrevista à revista Pesquisa FAPESP, em abril de 2004, Schwarz afirmou que o seminário de Marx foi decisivo para a sua formação por “apostar na reflexão crítica sobre a sociedade contemporânea” e, ao mesmo tempo, se distanciava da “compreensão bisonha” que os partidos comunistas da época faziam de Marx. Maria Elisa Cevasco, professora titular do Departamento de Letras Modernas da USP, lembra da importância que a crítica dialética de Schwarz exercia sobre os jovens estudantes já nos anos 1970, contribuição que permanece até hoje para o pensamento uspiano. “Sua obra continua a nos ensinar a construir uma crítica que nos ajude a decifrar o movimento real da história como escrito na produção cultural”, afirma.

Maria Elisa explica que a obra de Schwarz, um dos maiores críticos de Machado de Assis, ainda se faz presente nos departamentos de Teoria Literária, Literatura Brasileira e de Letras Modernas da USP . A professora já publicou artigos em francês e inglês, capítulos de livros e organizou um livro de reflexão sobre Um mestre na periferia do capitalismo, de 1990, um dos ensaios mais emblemáticos de Schwarz. “Seu modo de ler tem a capacidade de demonstrar que a forma literária se configura como uma abstração das relações sociais efetivamente existentes”, explica Maria Elisa. “Esse tipo de análise permite verificar que a forma artística é uma síntese que nos permite uma compreensão intuitiva do todo social, dando-nos assim os elementos necessários para julgá-lo.”