FICÇÃO

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Manteiga com margarina

EURICO C. DE OLIVEIRA | ED. 226 | DEZEMBRO 2014

 

ilusalta_silviaAlvarão tirou o durindana da algibeira, alisou as duas faces da palha de milho com carinho, dobrou–a ao meio e prendeu entre os dedos da mão esquerda. Com rara habilidade e seu canivete afiado picou um pedaço de fumo, bem fininho, desfiou as rodelas e enrolou um paieiro caprichado. Deslizou pelo nariz antecipando prazeres, lambeu devidamente, e protegendo a chama com a concha da mão esquerda acendeu o cigarro. Uma bela tragada e o cheiro do Tietê recendeu por toda a varanda. Encheu um copinho, jogou um pouco pro santo, deu uma golada e fez humm, satisfeito. Esticou as pernas, colocou as mãos por trás da cabeça e continuou o papo:

– Pois é cumpadi (tinha essa mania de se pretender caipira), como tava dizendo, meu nono comia na pura banha de porco, temperava salada com banha derretida e pitava como uma chaminé. Morreu com saúde aos 89 anos. Naquele tempo gordura não dava infarto, pitar não dava câncer.

– Calma aí, você não pode generalizar…

– Qué isso? Não se usava fogão a gás e nem panela de alumínio, lenha e barro. Tô achando que essas doença moderna têm que ver com o gás – sempre vaza um pouco. Ou seria o alumínio?

Ao perceber minha cara de quem não concorda, emendou antes que eu pudesse falar:

– Uai, num foi ocê mermo que me disse que o alumínio é um metal pesado? Outro dia li na Seleções, tá provado, metal pesado faz um mal danado. Vai engolindo alumínio, uma titica por dia, no fim endurece as veia. Não consigo convencer a patroa a voltar à moda antiga – tem jeito não. Mas parei de tomar cerveja em latinha. Agora só em garrafa de vidro, casco escuro. Deu uma risadinha e completou – bão, se não tiver em garrafa…

Após ouvir tanta “ciência” argumentei que as coisas não eram tão simples, que Seleções não era a fonte mais confiável de informações científicas, e acrescentei:

– Tá provado cientificamente que o infarto do miocárdio está fortemente correlacionado com o nível de colesterol no sangue e que banha, ovos e manteiga são ricos em colesterol. Até os capiaus sabem disso, e você comendo torresminho e omeletes todo dia!

Alvarão não era fácil e retrucou:

– Tá bom, t á bom, mas ocê, tão estudado, não sabia que quem inventou essa estória de colesterol foram os produtores de óleo de soja?

– Pera aí, como assim?

– Escuita, o cultivo de soja acabou com o cerradão e, de tabela, com os tamanduá-bandera e o lobo guaraná, como fala meu neto. Com tanta lavoura o que fazê com as tonelada de soja? Brasileiro gosta é de feijão. Mas soja dá óleo, né? Se brasileiro não come soja, tinha que aumentar o consumo de óleo, e ponha consumo nisso.

– Mas Alvarão…

– Deixa eu terminá, inventaram a tal margarina, um óleo engrossado. Diga aí, quem trocaria uma boa manteiga, daquelas bem amarelinhas, por esta banha vegetal? Ainda se tivesse uma crise de leite, vá lá. Tão jogando fora, preço de banana.

– Não é bem assim…

– Mais é! A gauchada produzindo soja no Goiás e Mato Grosso, tanta, preço caindo, transformaram em margarina. E o povo? Comia essa bosta? Espalhar mais fácil nessa porcaria de pão de fôrma não basta. Manteiga deve fazer mal pralguma coisa, olha a ideia. Imagine besteira dessas. O home vem comendo manteiga desde o tempo que os bicho falava! Pra vendê margarina tinha que convencê o povo que manteiga fazia mal; coisa braba, câncer, doença do coração, ou atacar essa tal de próstata, tão falada mas que ninguém sabe pra que serve. Veja, se ocê pensá bem, é claro que manteiga faz mal, tudo faz, até açúcar. É o mesmo que dizê que muita água dá barriga-d’água, ou afoga – e riu gostoso de sua esperteza. –Velhacos, isso sim. Pagaram cientistas, entupiro uns ratinho de manteiga, desses que morrem facinho, pronto, noves fora tava provado que manteiga tem o tar do colesterol, o que, aliás, até eu sabia, li nas Seleções. Daí a mostrar que os infartado tinha as veia entupida foi tiro e queda.

– Mas Alvarão…

– Espera, usaro como exemplo até um cano de pia de cozinha entupido de gordura, mostraro que planta não tem colesterol, tá nas Seleções, soja é planta, os criadô de gado foram pro brejo.

– Vá lá, seu raciocínio não deixa de ter uma certa lógica…

Alvarão franziu a testa, vaidoso, emendou:

– Claro que tem. Dizem que se ocê come muito torresmo, ovo, pele de galinha suas veia entope, cê estica as canelas. Tá bão. Agora as galinha e os porco come o quê? Milho, farelo de soja, tudo vegetal, zero de colesterol. E comé que estão cheias de colesterol? Isso não entendo. Explica essa sabichão!

– É, Alvarão, tá complicando, dá mais uma cangibrina aí, e vamos mudar de assunto. E a criação de galo de briga? Conseguiu tirar algum filho daquele galo puva marombeiro do Zé da Bica? Eita galo bom, sô!

– Afinou.

– Aquele galo?

– Não, ocê, que é todo estudado e num sabe de nada.

Eurico Cabral de Oliveira foi professor do Instituto de Biociências da USP. Especialista em algas, publicou cerca de 200 artigos científicos. Continua um estudioso apaixonado pela natureza.


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