OBITUÁRIO 

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O maestro do bisturi

Adib Jatene foi responsável por marcos da medicina experimental e conquistas para a saúde pública

FABRÍCIO MARQUES | ED. 226 | DEZEMBRO 2014

 

A biografia do cirurgião cardiovascular Adib Jatene, que morreu de infarto, aos 85 anos, no dia 14 de novembro, reúne uma coleção de marcos da medicina experimental brasileira e de conquistas no campo da saúde pública. Autor de mais de 700 trabalhos científicos, comandou ou fez com as próprias mãos cerca de 20 mil cirurgias cardíacas – e deixou várias contribuições no campo da cirurgia de revascularização do miocárdio e da cirurgia de doenças congênitas do coração. Nos anos 1950, organizou um laboratório, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), precursor da atual Divisão de Bioengenharia do Instituto do Coração (InCor), no qual desenvolveu o primeiro aparelho coração-pulmão artificial do mundo. Em 1968 implantou a primeira ponte de safena no país. Em 1985 criou uma técnica de correção de uma cardiopatia congênita em bebês, a transposição dos grandes vasos, que se tornou conhecida como Operação de Jatene. Também nos anos 1980, já como professor titular da FM-USP e diretor científico do InCor, foi um dos principais artífices da realização de transplantes de coração no país, retomando as experiências feitas pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993) no final dos anos 1960.

A vida de homem público ganhou destaque em 1979, quando se tornou Secretário da Saúde do Estado de São Paulo do governador Paulo Maluf. Jatene criou, na época, um plano metropolitano de saúde para garantir um patamar mínimo de atendimento à população de baixa renda em todas as regiões da cidade. Boa parte dos hospitais construídos na periferia paulistana nos últimos anos resultou desse plano. E foi ministro da Saúde de dois presidentes. Permaneceu oito meses no cargo no governo Fernando Collor. Em 1995, com Fernando Henrique Cardoso, ganhou notoriedade pela batalha pela criação do imposto da saúde, que se transformaria na Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) – extinta em 2007. Não se cansava de repetir que a saúde necessita de recursos vinculados do orçamento mais do que outras áreas. “Quando você constrói uma hidrelétrica, é preciso esperar ela ficar pronta para começar a ter receita. Mas quando você entrega um hospital público, gasta-se por ano com sua manutenção duas vezes o que foi destinado à obra. Por isso é preciso ter dinheiro vinculado”, disse em 2006, quando recebeu o Prêmio da Fundação Conrado Wessel, na categoria Medicina.

Armarinho
Adib Domingos Jatene nasceu em Xapuri, no Acre. Perdeu o pai, um comerciante libanês, para a febre amarela, quando tinha apenas dois anos de idade. Passou a adolescência em Uberlândia, onde a mãe viúva foi viver, abrindo um armarinho. Trocou Uberlândia por São Paulo para fazer o ensino médio e se formou, aos 23 anos de idade, pela Faculdade de Medicina da USP. Ali também fez sua pós-graduação, orientado por Zerbini, com quem começou a trabalhar em 1951. Em 1955 tornou-se professor de uma faculdade de medicina em Uberaba, mas voltou a São Paulo dois anos mais tarde, como cirurgião do Hospital das Clínicas de São Paulo e do Instituto Dante Pazzanese. Em 1983, sucedeu Zerbini na cadeira de professor titular de cirurgia cardiovascular da FM-USP e ajudou a  desenvolver o InCor, que se tornou um paradigma internacional de atendimento e pesquisa, e inaugurou um modelo de gestão hospitalar no qual o atendimento a pacientes particulares e de convênios hospitalares ajuda a financiar os leitos destinados aos pacientes do Sistema Único de Saúde.

Aposentou-se na USP e no Incor em 1999, e seguiu operando no Hospital do Coração (HCor), instituição privada que também dirigia, embora já não fosse tão requisitado como antigamente – e achasse isso ótimo. “A vida inteira eu lutei para que houvesse equipes de excelência espalhadas por todo o Brasil e hoje isso é uma realidade. E muitas dessas equipes têm grandes cirurgiões que eu ajudei a formar”, afirmou, também na entrevista de 2006. Manteve múltiplas atividades. Seguiu liderando o Programa da Saúde de Família, coordenado pela Fundação Zerbini, responsável pela gestão do InCor, que construiu módulos de saúde nos bairros de Sapopemba e Vila Nova Cachoeirinha. E, no Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, em São Paulo, continuou a se dedicar à bioengenharia, desenvolvendo próteses, equipamentos cirúrgicos e de diagnósticos para suporte a operações cardíacas, como um ventrículo cardíaco implantável eletromecânico destinado a pacientes na fila de espera por um transplante cardíaco. Encontrava tempo, ainda, para supervisionar suas fazendas de gado e, até recentemente, desempenhar as funções de presidente do Conselho Deliberativo do Museu de Arte de São Paulo (Masp), instituição da qual se tornou presidente de honra. Em 2012, Jatene sofreu um primeiro infarto – ele próprio diagnosticou o problema e convocou um colega de confiança para implantar um stent. Mas seguiu trabalhando. No ano passado, presidiu uma comissão de especialistas que ajudou o governo federal na formulação de projeto para mudanças no ensino médico no país. Deixou a mulher, Aurice, com quem se casou em 1954, quatro filhos — os médicos Ieda, Marcelo e Fabio e a arquiteta Iara – e 10 netos.


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