Comunicações e Artes

Referência histórica

Paulo Emilio Salles Gomes segue como um nome central na trajetória da universidade

O crítico Paulo Emílio com seus gatos, em 1972

Imagem: SERGIO ARAKI / AGêNCIA ESTADO / AEO crítico Paulo Emílio com seus gatos, em 1972Imagem: SERGIO ARAKI / AGêNCIA ESTADO / AE

O escritor, crítico e professor de cinema da USP Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) é um nome central na cultura e na formação de novas gerações da universidade desde o fim dos anos 1950. “Admirava a consciência aguda de seu lugar de fala, que expressava uma preocupação muito grande de fazer reflexão sobre a cultura em conexão com a realidade social”, diz Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Por meio da provocação, ele me fez vencer a timidez e a inibição, e em um momento em que eu nem sabia escrever em português”, lembra Jean-Claude Bernardet, crítico, cineasta e professor aposentado da ECA.

Paulo Emilio é considerado pelo professor Antonio Candido como o responsável por levá-lo à militância política, segundo entrevista dada por este último em 2001 para a Revista Brasileira de Ciências Sociais. Alinhado aos comunistas na década de 1930, Paulo Emilio deles se afastou por conta do stalinismo; sempre foi um militante de esquerda. Em 1941, aos 23 anos, estreou como crítico literário na revista Clima, um marco acadêmico da crítica paulistana que reuniu nomes de referência na intelectualidade brasileira. “Uma esplêndida constelação que marcaria duradouramente o panorama cultural do país”, lembrou Walnice Nogueira Galvão, em uma das homenagens pelos 90 anos de Candido, em 2008. Além de Paulo Emilio e Antonio Candido, faziam parte desse grupo de amigos da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP Décio de Almeida Prado (que enveredou para o teatro), Lourival Gomes Machado (artes plásticas), Ruy Coelho (antropologia) e Gilda de Moraes Rocha (estética), que se casou com Candido.

Essa geração da revista Clima tinha uma conexão muito forte com o modernismo brasileiro no plano da reflexão, dos ensaios, da visão histórica e da crítica em geral. E eram educadores, no sentido exato da palavra, sempre preocupados em formar as novas gerações de pensadores do país. “Na crítica cinematográfica nunca apareceu alguém que tivesse a extensão da cultura de Paulo Emilio”, lembra Walnice. Bernardet atribui a Paulo Emilio a mudança de rumo em sua vida, quando em 1958 participou de um curso do crítico em que ele dizia que “o cinema não existe, existem os filmes”. Até então havia um jeito dogmático de se pensar a sétima arte por meio de seu enquadramento em uma narrativa predominantemente norte-americana. “Ele abria uma liberdade de pensamento sobre os filmes e isso mudou a minha forma de refletir”, diz Bernardet. Aproximou-se do “mestre”, trabalhando na Cinemateca Brasileira, dirigida por Paulo Emilio, o que gerou frutos, como o de se tornar crítico de cinema de jornais como A Gazeta e O Estado de S.Paulo.

Neste último, Paulo Emilio já era um dos mais respeitados críticos e colunistas do renomado Suplemento Literário. Bernardet foi convidado por ele a formar o primeiro quadro de docentes do curso de cinema da Universidade de Brasília, em 1965. Dois anos depois, começou na ECA, atividade interrompida pelo Ato Institucional nº 5. Na ocasião, e como forma de driblar o decreto baixado pelo governo militar em dezembro de 1968, o “mestre” passou a organizar seminários em sua casa, com alunos e pesquisadores de pós-graduação. Ismail Xavier fazia parte desse grupo e lembra que uma geração de críticos cinematográficos nasceu dali.

Paulo Emilio continua sendo objeto de estudos e publicações, como no livro que deverá ser publicado em 2015 na França com a colaboração de Ismail Xavier. A obra é uma coletânea dos artigos de Paulo Emilio no suplemento do Estadão e textos inéditos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Outro professor que tem uma grande afinidade com o “mestre” é Carlos Augusto Calil, também da ECA, que trabalhou com ele na Cinemateca. Calil foi organizador das obras completas do crítico, que saiu primeiro pela Cosac Naify, e depois teve os direitos adquiridos pela Companhia das Letras. Bernardet e Xavier lamentam que, na área cinematográfica, Paulo Emilio venha se tornando uma referência apenas histórica para as gerações mais novas. Isso porque sua forte marca nacionalista vem perdendo espaço na atualidade. “O pensamento está ligado ao momento histórico, e a questão do subdesenvolvimento não é mais referência nessa época de globalização”, afirma Bernardet. “E hoje há uma diferença muito grande, porque o professor acadêmico tem menos possibilidades de se projetar na esfera pública da mídia”, diz Xavier. O pensamento crítico, tão caro a Paulo Emilio, tem se tornado rarefeito.

Jornalismo e Telenovela
A Escola de Comunicações e Artes da USP foi criada em 1966 com o nome de Escola de Comunicações Culturais. “A Faculdade de Filosofia deveria ter recebido essa nova área do conhecimento, mas havia um grupo que não queria isso”, lembrou, em entrevista à Pesquisa FAPESP em 2012, o professor José Marques de Mello, um dos primeiros diretores da escola, responsável pela implantação do Departamento de Jornalismo e Editoração. Marques de Mello trabalhara em Recife nos anos 1960 com Luiz Beltrão, pioneiro na pesquisa em comunicação, e trouxe essa experiência para São Paulo – uma das missões que recebeu foi criar um jornal-laboratório na ECA. Também ajudou a instalar um Centro de Pesquisa em Jornalismo, com o objetivo de analisar a produção de veículos de imprensa.

Em 1992, observou Marques de Mello, uma lacuna na pesquisa da ECA foi preenchida, com a criação do Centro de Estudos de Telenovela, liderado pela professora Ana Maria Fadul. “Quando fui diretor da Escola, verifiquei que o curso de rádio e televisão ensinava tudo, menos telenovela, o principal produto de exportação de nossa indústria cultural”, diz ele. A ECA, hoje, é uma referência nessa linha de pesquisa. Em 1995, um grupo de 10 pesquisadores iniciaram o projeto temático Ficção e realidade: A telenovela no Brasil, o Brasil na telenovela, constituído de nove diferentes estudos. Coube a Maria Immacolata Vassallo de Lopes, professora titular da ECA, coordenar um dos estudos, cujo objetivo era pesquisar a recepção da telenovela num universo de quatro famílias de condições sociais diferentes. Anos mais tarde, Maria Immacolata tornou-se coordenadora da rede de pesquisa internacional Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva (Obitel), criado com a participação de nove países, envolvendo instituições acadêmicas e braços ligados ao mundo da pesquisa de empresas de comunicação, como a Rede Globo e a mexicana Televisa.

Os novos rumos da telenovela no Brasil também foram analisados no âmbito do projeto temático Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo, coordenado por Sergio Miceli, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – e resultaram no livro O Brasil antenado, de Esther Hamburger, professora da ECA. Uma das conclusões é que a telenovela já não ocupa na sociedade brasileira o lugar que tinha nos anos 1970 e 1980. Esther Hamburger também está à frente de um projeto no âmbito do Programa de Infraestrutura da FAPESP, para a digitalização, preservação e organização de arquivos da teledramaturgia da extinta TV Tupi. A digitalização das 100 horas de material já rendeu estudos acadêmicos – um deles aborda a importância da novela Beto Rockfeller, de Bráulio Pedroso, que renovou o gênero em 1968.

Um tema de pesquisa que entrou recentemente no campo de interesse da ECA é o chamado net-ativismo, termo que reúne novos modelos de participação utilizando os meios digitais. O sociólogo italiano Massimo Di Felice, coordenador do Centro de Pesquisa Atopos da escola, liderou um estudo sobre o tema apoiado pela FAPESP, em que identificou três momentos distintos para o ativismo digital. O primeiro, na década de 1990, relacionou-se a movimentos internacionais temáticos, por exemplo na Austrália e na Índia, cuja atuação se dava nas artes e na política. No segundo momento encontrou expressão na luta zapatista, no México, e inspirou o Fórum Social Mundial. Assim despontaram práticas de protesto internacional, em cidades como Seattle (em 1999) e Davos (em 2001). O terceiro momento começou em 2000 e está em curso. Nele, o pesquisador destaca um novo ativismo, que, em muitos casos, provocou processos radicais de transformação – caso da Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e as jornadas de junho, no Brasil (2013). Para Di Felice, a chave para a evolução do movimento está na passagem da web 1.0 para a web 2.0. Antes, a internet era uma rede de computadores conectados por modems e linhas telefônicas, permitindo apenas a troca de textos e de imagens. Agora, tornou-se uma plataforma com muito mais mobilidade e agilidade.

Música e artes plásticas
Na área de música, um destaque recente é o projeto temático Móbile, concluído no ano passado e coordenado pelo professor Fernando Iazzetta. A ideia foi reunir pesquisadores das áreas de música, artes visuais, artes cênicas, ciência da computação e engenharias para o desenvolvimento de novos processos musicais centrados na interação entre esses vários setores aparentemente desconectados. Em especial, o projeto buscou questionar o fetiche da tecnologia, após os modelos iniciais de experimentalismo focados nos estúdios e nos equipamentos de ponta. “Muitas vezes, muita tecnologia pode até atrapalhar(…) A articulação mais complexa tem que ser o pensamento artístico e não a engenharia”, disse Iazzetta em entrevista à Pesquisa FAPESP. Os pesquisadores de Móbile fizeram uma turnê internacional que exibiu os resultados do projeto. O espetáculo era composto por seis cenas em que se misturavam obras “tradicionais”, com instrumentos e partituras, outras que usavam improvisação e três baseadas nas buscas pela interação entre música, tecnologia e outras artes.

Já no campo das artes plásticas, um dos destaques da ECA é o trabalho da professora Regina Silveira, hoje aposentada. Artista plástica intermídia, seu trabalho circula por meios artísticos diversos, da fotografia à pintura, passando pela arte postal e pela intervenção sobre a arquitetura das cidades. Nos anos 1960, estudou pintura com Iberê Camargo em Porto Alegre. Na década de 1980, como parte de seu projeto de doutorado em artes na USP, produziu a série de gravuras e desenhos Anamorfas, sobre as distorções da perspectiva. “Pode parecer paradoxal, mas ser da academia e ser uma artista transgressora não foram para mim termos (ou atitudes) incompatíveis, em qualquer momento”, disse Regina em 2010. “A academia, pelo contrário, foi um bom ‘nicho’ para exercer minha liberdade de experimentar e transgredir. Em primeiro lugar, pude produzir muitas obras e projetos que foram realmente novos e experimentais, graças ao respaldo de bolsas de pesquisa, obtidas de órgãos de fomento à pesquisa, como a FAPESP e o CNPq. Eu não teria tido a chance de arriscar, como fiz, se essas obras precisassem entrar nos canais do mercado de arte que, pelo menos no período, era incipiente e conservador”, disse.