HUMANIDADES

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Ideias em movimento

Pesquisadores estudam manuscritos da fase intermediária entre as duas obras mais conhecidas de Wittgenstein

MÁRCIO FERRARI | ED. 229 | MARÇO 2015

 

Sobre o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) não costuma haver dúvida de que foi autor de uma obra com duas fases bem distintas. O “primeiro Wittgenstein” se encontra no Tractatus logico-philosophicus, publicado em 1921, e o “segundo” é representado pelas Investigações filosóficas, publicadas postumamente em 1953. Apesar das três décadas que separam os dois momentos, “a passagem do Tractatus para as Investigações filosóficas era tratada, até o fim dos anos 1990, quase como a conversão de São Paulo ao cristianismo”, diz João Vergílio Gallerani Cuter, professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Era como se o filósofo tivesse repentinamente, sem razões muito claras, passado a produzir uma filosofia oposta à primeira. “Isso é insustentável do ponto de vista biográfico e inadequado do ponto de vista conceitual”, afirma Cuter.

A abordagem começou a mudar no fim dos anos 1990 porque foi nessa época que passaram a ser publicados os manuscritos de Wittgenstein no período entre suas duas obras mais conhecidas. Esse é o material que constitui as fontes primárias utilizadas no projeto temático “Wittgenstein em transição”, coordenado por Cuter na FFLCH-USP, desde junho de 2012 e com data de conclusão prevista para o dia 31 de maio próximo. Um dos aspectos interessantes do projeto é que ele se origina de debates iniciados na própria época da publicação dos manuscritos, em diálogo com os estudos que se desenvolviam simultaneamente em outras regiões do Brasil e no exterior.

“Já temos no país uma quantidade farta e boa de estudos sobre o período intermediário de Wittgenstein, variada e espalhada por várias regiões”, diz Bento Prado Neto, professor do Departamento de Filosofia e Metodologia das Ciências do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que assumiu a coordenação do projeto em sua última fase e vem participando dos debates com Cuter desde suas origens. O primeiro passo foi o colóquio The Middle Wittgenstein, que propiciou a interação com pesquisadores estrangeiros e de outros estados, como André Porto, da Universidade Federal de Goiás, e Luiz Carlos Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio, a PUC-Rio, que coorganizaram as últimas edições do colóquio. “Era um colóquio regular, e a transformação no projeto temático foi o resultado natural de um projeto já estabelecido, agora com a vantagem de uma estrutura institucionalizada”, diz Prado Neto.

Vendo o projeto temático em retrospecto, os dois pesquisadores concordam que o ganho mais importante foi a possibilidade de, a partir do estudo sistemático dos textos intermediários, iluminar aspectos da obra dos “dois” Wittgenstein. Segundo Prado Neto, tradicionalmente havia um “consenso razoável sobre os significados dos aforismos do Tractatus” e também sobre sua filiação, importância no campo da lógica e origem das questões discutidas (encontradas em pensadores como Gottlob Frege e Bertrand Russell); mas sobre esse consenso de base se erigiram interpretações diametralmente opostas. A divergência é ainda mais acentuada nas leituras das Investigações filosóficas.

Diz Prado Neto que a leitura dos escritos intermediários permite colocar em novas bases o debate entre as diferentes tendências interpretativas. Quanto ao trabalho dos pesquisadores reunidos em torno dos colóquios e do projeto temático nascidos na FFLCH, “conseguimos, num grupo de pessoas com formação bastante diferente, obter um mínimo de concordância que permitiu uma leitura conjunta extremamente proveitosa, sem prejuízo das diferenças de abordagem”, diz Prado Neto. “Em filosofia, um consenso mínimo nunca impede a variedade de interpretações; pelo contrário, qualifica o debate.”

Para Cuter, os textos do período intermediário deixam clara a necessidade de um estudo do estatuto dos fenômenos no Tractatus logico-philosophicus. Segundo ele, no início dos anos 1930, Wittgenstein começou a operar uma reforma na análise dos fenômenos preconizada pela obra, “mas ainda era no campo privado que a linguagem deveria encontrar sua base”. Porém, por volta de 1936, isso começou a cair por terra, e o filósofo “desenvolveu uma crítica sistemática do próprio pensamento com argumentos contra a possibilidade lógica de uma linguagem privada”, devendo-se entender aqui por “linguagem privada” aquela cujo sentido seria logicamente inacessível a qualquer outra pessoa que não o falante.

Como se vê, mesmo o período intermediário de Wittgenstein está longe de ser homogêneo. O filósofo austríaco, que se mudou para a Inglaterra para ser aluno de Bertrand Russell em Cambridge, doou sua parte da herança de família, uma das mais ricas da Áustria, às irmãs, mais ou menos à mesma época da publicação do Tractatus. Passou então a dar aulas para crianças, renunciando à atividade filosófica. Mas, em 1929, com 40 anos, voltou a Cambridge, onde, em 1937, sucederia G. E. Moore na cátedra de filosofia. Renunciou à cátedra em 1947, quatro anos antes de morrer.

O projeto “Wittgenstein em Transição” se debruçou sobre os documentos do período que vai de 1929 até 1933, que incluem cerca de 3 mil páginas manuscritas, mais as notas das conversações com o Círculo de Viena, as notas tomadas por seus alunos durante os cursos dados entre 1930 e 1933, as anotações feitas por Moore (que serão publicadas este ano nos Estados Unidos), duas conferências e a parte da correspondência de Wittgenstein relativa ao período. “Wittgenstein foi um filósofo no sentido tradicional da palavra, e não um filósofo universitário, ocupado com a solução de problemas específicos para publicar mais um artigo”, diz Cuter. Ele acrescenta não existir, apesar disso, “nenhuma pretensão de sistematização em sua filosofia, a não ser no Tractatus, e mesmo assim num sentido muito especial”.

Todo o material intermediário amplia uma trajetória de questionamentos radicais. O impacto do pensamento de Wittgenstein – que levou seu mestre Russell a repensar as próprias conclusões no campo da filosofia da lógica – se deve em grande parte ao que Cuter qualifica de “uma ambição de tratar os problemas filosóficos tradicionais em bloco”. Segundo explica o pesquisador, do começo até o fim de seu percurso filosófico, Wittgenstein sempre acreditou que os problemas filosóficos repousam num mau entendimento da “gramática” da linguagem. “Para o primeiro Wittgenstein, essa ‘gramática’ deveria ser buscada por intermédio de uma análise que nos levaria à exibição de um conjunto de proposições elementares, a partir das quais toda e qualquer proposição da linguagem poderia ser construída por meio de expedientes verifuncionais.” Sendo assim, a análise das proposições da linguagem poderia levar a três resultados: uma função de verdade usual das proposições elementares, dotada de bipolaridade e inscrita, por isso, no domínio descritivo; uma tautologia ou contradição, que nada dizem; ou ainda a constatação de que o processo de análise da suposta proposição nos conduz a um “beco sem saída”, o que revelaria que a suposta proposição de que partimos era, na verdade, um contrassenso.

No período maduro, não existe mais esse caminho único e predeterminado de análise nem a noção de uma linguagem ‘universal’ expressando um campo de sentido”, diz Cuter. “O único constrangimento lógico dado de antemão é o caráter necessariamente público dos critérios que utilizamos para aferir a correção ou incorreção de uma sentença.” Isso vale para a avaliação do sentido e do valor de verdade das sentenças de uma linguagem e também para qualquer coisa que envolva a noção de “regra”. O importante, do ponto de vista de Wittgenstein, seria preservar a distinção entre as ocasiões em que uma regra estaria sendo seguida e aquelas outras em que ela foi apenas aparentemente seguida. “Sempre que chamamos alguma coisa de regra, admitimos a possibilidade de alguém achar que a está seguindo sem estar. É exatamente isso que estaria excluído, por princípio, de um suposto domínio estritamente privado que só eu tenho a possibilidade lógica de acessar.”

“O projeto do Tractatus tem como escopo a clarificação lógica da linguagem”, diz Prado Neto. “Mantendo-se estritamente focado no esclarecimento da lógica – isto é, no esclarecimento da ‘forma geral’ da proposição, excluindo seu ‘conteúdo’ – , a primeira obra parece reduzir a isso toda a reflexão filosófica digna desse nome e afastar temas como tempo, espaço, fenômeno etc.” Ao voltar para Cambridge em 1929, Wittgenstein irá se dedicar à “aplicação da lógica”, isto é, à análise lógica das proposições de nossa linguagem, e, a partir desse momento, o esclarecimento da linguagem, que continuava a ser o trabalho essencial da filosofia, já não poderia ser indiferente a esses conteúdos. “Essa recuperação de temas clássicos é um dos aspectos interessantes do período intermediário, na medida em que permite um confronto um pouco menos simplista da filosofia de Wittgenstein com a tradição.”

Longe de esgotar – se é que isso é possível – as possibilidades de estudo e interpretação do Wittgenstein intermediário, o projeto dos pesquisadores se prolonga pela criação de um núcleo que já se incluía entre seus objetivos iniciais, com a participação, além dos pesquisadores brasileiros, de nomes consagrados como David Stern, da Universidade de Iowa, e Mathieu Marion, da Universidade de Quebec. Um dos pesquisadores estrangeiros que fizeram parte desde o início dos colóquios organizados por Cuter e Prado Neto, o francês Ludovic Soutif, mudou-se para o Brasil – fez um pós-doutorado na USP e hoje é professor da PUC-Rio.

A rede internacional de estudos propiciou a realização de quatro colóquios internacionais, um deles na Universidade de Bordeaux, com aportes financeiros de agências francesas, e a publicação de um número especial da revista canadense Philosophiques. Um livro ainda sem título escrito a oito mãos – por Cuter, Prado Neto, Marcelo Carvalho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Mauro Engelmann, da Universidade Federal de Minas Gerais – com comentários analíticos às Philosophische Bemerkungen (observações filosóficas), está prestes a ser lançado pela editora da Unifesp. Um segundo volume, exclusivamente sobre os capítulos de filosofia da matemática da mesma obra, encontra-se em preparação. Esse trabalho, segundo Cuter, está sendo feito por jovens pesquisadores que possuem uma boa formação em matemática e podem levar a pesquisa nessa área a bom termo. “Agora, temos resultados palpáveis que seriam impensáveis quando começamos a trabalhar sozinhos, no Brasil, isolados do restante do mundo”, diz ele.

Projeto
Wittgenstein em transição (nº 2012/50005-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Bento Prado de Almeida Ferraz Neto (UFSCar); Investimento R$ 100.403,46 (FAPESP).


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