RESENHAS

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Humor é coisa séria

A forma e o sentimento do mundo – Jogo, humor e arte de viver na filosofia do século XVIII | Márcio Suzuki | Editora 34 / FAPESP RS 63,00 | 560 páginas

VINICIUS DE FIGUEIREDO | ED. 230 | ABRIL 2015

 

Resenha_A FormaUm meio promissor de apresentar o novo livro de Márcio Suzuki é atentar ao subtítulo: “Jogo, humor e arte de viver na filosofia do século XVIII”. Como esses temas se articulam no século do Esclarecimento?

Comecemos pela “arte de viver” – uma ideia antiga, conforme a qual a filosofia é uma arte para atingirmos a tranquilidade da alma. Se a filosofia representou uma alternativa à religião, foi por nos assegurar contra os males deste mundo. Marco Aurélio dizia que participamos de um todo ordenado, o “cosmos”, cujas razões devemos ter em mente para desfrutar da vida com serenidade, haja o que houver. A “natureza”, vista como organismo, deveria guiar a vida prática. Essa “arte de viver” irá reaparecer no século XVIII, só que com outra feição. Agora, a filosofia será útil aos homens, desde que os distraia de si mesmos. Com acuidade, Suzuki mostra que o “divertimento”, tematizado por Pascal como fuga de nossa miséria, reaparece de modo atenuado, mas central, no pensamento moral britânico setecentista (o protagonista do livro). O “jogo” do subtítulo torna-se metáfora da atividade filosófica, concebida como elemento lúdico que a emancipa de qualquer intuito salvífico como o da religião. A filosofia evita o tédio, é útil socialmente e apraz. Torna-se entretenimento.

Embora possamos entreter-nos a sós, é mais comum fazê-lo em grupo. Pensar, então, solicita o convívio social e dele toma sua medida. Examinando D. Hume (1711-1776), Suzuki explica por que o pensamento britânico setecentista fez tanto ensaísmo. É que o ensaio toma por modelo a conversação. Já no plano de sua forma expositiva, pensar consiste no diálogo com os outros.

Outra implicação da ancoragem social da filosofia é o elogio à mediania. O diálogo requer que os interlocutores possuam afinidades e interesses comuns que vão além da promoção de sua mútua segurança (Hobbes). Imagine alguém que, admitido numa mesa de pôquer, perde uma mão após outra, sem que isso o aborreça – ele tem dinheiro de sobra. Fácil adivinhar o que sucede: a mesa desanda, pois o jogo, assim como o bom convívio, não admite assimetrias excessivas. Sua presença inviabilizaria não apenas a conversação, como também o comércio e o bem comum. Nessa chave, F. Hutcheson (1694-1747) estende os prós da mediania para além do social; no âmbito psicológico-cognitivo, a mente que se mantém em um estado intermediário contorna todo tipo de uneasiness. A mediania traz benefícios não só para o indivíduo, como para o conjunto. Foi tendo isso em vista que Hutcheson concebeu nossa felicidade como resultado do cálculo entre bens e malefícios, cujo êxito requer a administração das expectativas e da satisfação individual que leve em conta o bem comum. Se a ars vivendi requer autocontrole, é menos a título de usura que de equanimidade.

Conversação, mediania, acumulação e bem comum: essas ideias não seriam expressões do capitalismo em formação, especialmente no Reino Unido do século XVIII? A reconstrução que Suzuki faz dos temas que vão de Shaftesbury (1671-1713) a A. Smith (1723-1790), passando por Hume, Hutcheson e Kames (1696-1782), levanta pistas nessa direção. Segui-las nos levaria à órbita em torno do clássico de Weber sobre o espírito do capitalismo, com a diferença de que, nos autores examinados aqui, a ascese intramundana já foi atenuada a ponto de incorporar, no ideal do gentleman, humor e crítica. O Deus transcendente dos reformados dá vez ao moral sense que guia nossas atitudes e admite o refinamento.

O que Kant, cuja presença atravessa todo o livro, tem que ver com isso, logo ele que fomos habituados a opor a Hume? Seguindo seus cursos de antropologia, Suzuki reconstrói a apropriação genuína que Kant fez dos britânicos, dos quais foi um leitor arguto e penetrante. E fornece, assim, uma tese original e instigante quanto à gênese do juízo estético e do “livre jogo” entre as faculdades da mente que, na Crítica do juízo, caracteriza a eminência da atividade filosófica. Mas logo nisso Kant teria sido tributário dos “empiristas”? Quem aprendeu filosofia apoiando-se em oposições rígidas, especialmente se for um kantiano, não deve ler este livro. A não ser que saiba rir de si mesmo. O que não seria pouco; como ensina Suzuki, o humor é coisa séria.

Vinicius de Figueiredo é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


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