ARTE

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Teatro do real

Grupo Vertigem retrata a vida urbana em encenações na rua e prédios públicos

ORLANDO MARGARIDO | ED. 235 | SETEMBRO 2015

 

Encenação no rio Tietê (BR-3)…

Poderia ter sido uma sessão maldita, daquelas à meia-noite. A intenção dos fiéis reunidos na Igreja Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, não era assistir, mas impedir um espetáculo considerado blasfemo. Enfim, cansados, retiraram-se. Foi então, à 1 hora da manhã de 5 de novembro de 1992, que O paraíso perdido estreou, marcando o início da trajetória do Teatro da Vertigem. “Em certo momento, acreditei que só mesmo o espírito santo faria a peça estrear”, brinca o diretor artístico da companhia, Antonio Araújo.

Na época, um apoio determinante à realização veio do arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns. Araújo chegou a receber telefonemas anônimos com ameaças de morte. Desde então, alguma polêmica sempre acompanha a trajetória de um dos coletivos teatrais mais bem-sucedidos da cena contemporânea, quase sempre em razão da ocupação de espaços urbanos não convencionais e pelo fator físico, elementos essenciais do grupo. Na segunda peça da trilogia bíblica do Vertigem, O livro de Jó (1995), de Luís Alberto de Abreu, o intérprete se debatia nu em macas e aparelhos cirúrgicos no abandonado Hospital Umberto Primo, na zona sul paulistana. O público, perturbado, caminhava pelos corredores com cheiro de éter.

...em hospital abandonado (O livro de Jó)...

…em hospital abandonado (O livro de Jó)…

Esses desafios aos sentidos encerrariam uma primeira fase da companhia no desativado presídio do Hipódromo, na zona Leste da capital. Tratava-se de encenar a evocação do massacre de presos do Carandiru no projeto Apocalipse 1,11 (1999). A ousadia de encenação prosseguiu nos anos 2000. Em BR-3, a plateia navegava pelo rio Tietê à mercê da visão e dos odores que tal experiência implica e os atores encenavam em alguns pontos da margem, quando o barco parava. “É quando o Vertigem deixa uma noção metafísica e idealizada para enfiar o pé na lama”, diz Silvia Fernandes, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) especializada na produção teatral brasileira dos anos 1990. “O grupo passa então a uma ação contundente e por isso o classifico como um teatro político, se lembrarmos a alusão às torturas contidas em , e um teatro do real, isto é, ligado à realidade no sentido de trabalhar com temas urbanos, fazer encenações nas ruas e em prédios públicos.”

Araújo, mineiro de Uberaba, é egresso do curso de artes cênicas da ECA-USP, do qual hoje é professor. Com sete outros colegas da universidade iniciou uma pesquisa de linguagem aplicada aos movimentos dos atores influenciado pelos estudos de mecânica clássica do matemático irlandês William Hamilton (1805-1865). O passo seguinte foi imaginar esses movimentos realizados em espaços simbólicos. “Pensamos primeiro no sentido mítico do Paraíso e da queda do homem, dos corpos, a partir de obras como Paraíso perdido, de John Milton [1608-1674]”, explica o diretor. “Daí surgiu um jogo às avessas com o espectador em um lugar sagrado como a igreja.” Veio dessa experiência o batismo da companhia. Em 2011, Araújo lançou A gênese da Vertigem (editora Perspectiva com o apoio da FAPESP). Trata-se da dissertação de mestrado em que o diretor esmiúça o processo de criação de O paraíso perdido.

... e em igreja no centro de São Paulo  (O paraíso perdido): temas urbanos  sempre presentes

… e em igreja no centro de São Paulo (O paraíso perdido): temas urbanos sempre presentes

A prática do lugar ideal para a encenação, diz Araújo, sempre vem depois da dramaturgia. No grupo, o ofício pode ser dividido com autores e escritores convidados, como Sérgio de Carvalho, da Cia. do Latão, e Fernando Bonassi. A concepção de BR-3, por exemplo, foi ambiciosa. Partiu de uma busca da identidade nacional fundamentada em três “brasis”, o bairro paulistano Vila Brasilândia, a capital Brasília e Brasileia, cidade do Acre. O grupo viajou de ônibus ao Norte com o escritor Bernardo Carvalho. “Nessa viagem, vimos uma modernização predatória, desde lixo no córrego até florestas devastadas”, diz Araújo. O rio Tietê veio a calhar como cenário da montagem de BR-3, que teve coordenação de dramaturgia da professora Silvia Fernandes.

Vez ou outra, o Vertigem abre mão da paisagem urbana, como ocorre agora com O filho, baseado na Carta ao pai, de Franz Kafka, com direção de Eliana Monteiro, assistente de Araújo desde Apocalipse. Ela utilizou o galpão do Sesc Pompeia, em São Paulo, e o recheou de objetos domésticos descartados, além de criar mezaninos. A peça rendeu elogios generosos ao veterano ator Antonio Petrin, de 77 anos.

A marca registrada do grupo, no entanto, é o estranhamento e a provocação a uma realidade urbana, o que já chamou a atenção no exterior. Bom Retiro 958 metros (2012), uma deambulação noturna pelo bairro de comércio paulistano, recebeu recentemente uma adaptação chilena para uma zona equivalente de Santiago do Chile.


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