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Carreiras

Transição para o mercado

Dificuldades e objetivos que uma empresa spin-off acadêmica deve ter para alcançar o sucesso

Carreiras 2 jpgdaniel buenoUma ferramenta gerencial para auxiliar os criadores de spin-off acadêmica. Esse é o resultado prático do artigo “Inovação como transição: uma abordagem para o planejamento e desenvolvimento de spin-offs acadêmicas”, publicado em fevereiro na revista Production. A rota traçada por pesquisadores do Laboratório de Gestão da Inovação (LGI), da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), pode ajudar os novos empreendedores a construir uma estratégia para planejar o negócio e lidar com as incertezas do mercado e da tecnologia, tanto internas da empresa quanto as coletivas do setor em que vão atuar.

Criadas normalmente por pesquisadores e alunos ou egressos de cursos superiores que desejam transformar determinado trabalho científico em produto comercial, as spin-offs têm de superar uma série de dificuldades antes de se consolidar e ter sucesso no mercado. Segundo o engenheiro de produção Leonardo Augusto de Vasconcelos Gomes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP), à época doutorando da Poli-USP e autor principal do artigo, a ferramenta gerencial proposta no trabalho fornece um conjunto de passos para que o empreendedor planeje e gerencie o seu negócio, auxiliando no complexo caminho de transformar um resultado de uma pesquisa acadêmica em um negócio bem-sucedido. Aborda simultaneamente o desenvolvimento do produto e da empresa, inclusive a parte administrativa e financeira.

O primeiro passo é compreender quais são as grandes tendências ou pressões tecnológicas e mercadológicas que podem criar uma janela de oportunidades para a inovação concebida ou a ser explorada pela spin-off. O segundo é identificar os direcionadores existentes, que podem ser novos requisitos técnicos dos produtos atuais ou as necessidades atendidas ou não. E o terceiro é verificar o que a inovação vai mudar, por exemplo, no mercado. “O primeiro e o segundo passo explicam como o mercado e a cadeia produtiva estão funcionando”, diz Gomes.“O terceiro aponta o que a spin-off e a tecnologia em desenvolvimento vão alterar em relação aos produtos que já existem.”

O quarto passo é verificar que soluções emergentes concorrem com a proposta da empresa, porque pode haver outras tecnologias ou modelos de negócio que estão disputando o mesmo mercado. “O passo cinco consiste em determinar o ecossistema, ou seja, a rede de fornecedores e clientes, por exemplo, necessária para conseguir desenvolver e comercializar o novo produto”, explica Gomes. “E o último constitui-se basicamente de entender a agenda de cada um dos atores e estruturar um plano de ação para a gestão de uma spin-off acadêmica.”

Em relação às incertezas, Mario Sergio Salerno, coordenador do LGI e coautor do artigo, diz que há quatro categorias. Uma delas é a tecnológica, porque não há como saber se ela vai dar certo. Outra é a de mercado, se o produto vai ser aceito ou não, a que preço e em quais condições. Há ainda a incerteza de recursos – haverá dinheiro ou competências para desenvolver o produto e o negócio? – e a organizacional, em que a companhia pode não ter um bom sistema de decisão, ou haver mudanças de orientação estratégica, por exemplo.“Uma empresa iniciante de base tecnológica só vai dar certo se ela conseguir diminuir essas incertezas”, diz Salerno.

Fabíola Spiandorello, gerente de Propriedade Intelectual da Agência Unesp de Inovação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lembra outro obstáculo que pode surgir para as spin-offs. “Muitas vezes o produto é tão inovador que ainda não existe mercado para ele”, afirma. Nesse caso, Salerno diz que é necessário desenvolver todo um “ecossistema” envolvendo outras empresas, fornecedores, financiadores e órgãos reguladores. “A invenção da lâmpada elétrica é um exemplo histórico”, lembra. “Ela exigiu não apenas a produção de lâmpadas, mas o aumento da infraestrutura de produção e distribuição de energia, o desenvolvimento de mecanismo de medição e controle do consumo de eletricidade.”

Além da necessidade de se ter um bom produto a preço razoável, não há uma fórmula ou receita para que uma spin-off faça com sucesso a transição da academia para o mercado e se firme nele. Fabíola cita, no entanto, algumas estratégias que podem ajudar. “Primeiro, o empreendedor precisa mudar sua mentalidade”, sugere. “Ele não é mais um pesquisador de laboratório cujo foco está nos resultados que saem da bancada. O objetivo agora deve estar em fazer a empresa sobreviver. Precisa entender também que há necessidade de agregar diversos tipos de conhecimento para isso, como administrativo, financeiro, legal e captação de recursos.”

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