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Arqueologia

Pesquisadores encontram crânio decapitado em Minas Gerais

Sua disposição junto às mãos amputadas estaria relacionada a cerimônia funerária há 9 mil anos

André Strauss
     
Um crânio muito bem preservado encontrado no sítio arqueológico Lapa do Santo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, está ajudando um grupo de pesquisadores a entender melhor a liturgia relacionada aos rituais funerários de culturas que habitaram o país há cerca de 9 mil anos. Em um estudo publicado nesta quarta-feira, 23, na revista PLoS One, eles relatam terem identificado um crânio articulado, com mandíbula e as seis primeiras vértebras cervicais. O surpreendente é que o crânio separado do corpo parece ser resultado de um processo de decapitação, e não da desarticulação gradual que acontece normalmente em corpos sepultados. As duas mãos, que também foram decepadas, foram arrumadas cobrindo o rosto, uma com os dedos para cima e a outra, para baixo.

Análises mais detalhadas do material identificaram marcas de corte em forma de “V” no crânio, mãos e vértebras, o que sugere que o indivíduo — possivelmente um homem de meia idade — foi desmembrado poucas horas depois de morto. “Não se tratava de uma punição, mas de um ritual de sepultamento próprio daquela cultura”, diz o arqueólogo brasileiro André Strauss, atualmente no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, e coordenador do trabalho, que contou com a participação do bioantropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).

O crânio foi achado em 2007 em uma área cheia de sepulturas há muito estudada por esse grupo de pesquisadores. Eles já haviam exumado outros cadáveres, mas nunca sem a cabeça. “Houve casos de esqueletos sem as pernas ou um dos braços”, explica Strauss. “Acreditamos que por meio da manipulação do corpo do falecido e da amputação de partes anatômicas os povos daquele tempo encontravam formas de expressar seus conceitos cosmológicos sobre a morte”, diz. De acordo com a datação por carbono-14 feito sobre o colágeno extraído do crânio, os pesquisadores estimam que a decapitação aconteceu há aproximadamente 9 mil anos. A evidência mais antiga de decapitação na América do Sul remete a um crânio de cerca de 3 mil anos encontrado no Peru.

Projeto
Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica (nº 2004/01321-6) Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Walter Alves Neves (IB-USP); Investimento R$ 1.555.670,00.

Artigo científico
STRAUSS, André et alThe Oldest Case of Decapitation in the New World (Lapa do Santo, East-Central Brazil). PLoS One. set. 2015.