RESENHAS

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A produção indígena de conceitos

Metafísicas canibais | Eduardo Viveiros de Castro | Cosac Naify | 320 páginas | R$ 45,00

OSCAR CALAVIA SÁEZ | ED. 237 | NOVEMBRO 2015

 

Resenha_MetafísicaMetafísicas canibais é um volume denso cuja leitura exige familiaridade com as duas disciplinas que ele cruza: a antropologia e a filosofia. Mas nele se destaca uma questão prévia, que traz à tona um interlocutor prévio: o que pode a filosofia fazer com o pensamento do outro, ou seja, desses povos outrora chamados “selvagens”, dos quais a antropologia nos dá notícia? Por muito tempo a resposta foi: nada. No pensamento dos outros nada podia se detectar além de erro; ou, no melhor dos casos, noções rudimentares cuja versão desenvolvida nos pertence. Mais tarde, o tom mudou: reconheceram-se formas diferentes de uma racionalidade humana comum, e a paleopsiquiatria ou a paleoecologia tornaram-se etnopsicologia e etnoecologia, aptas para ser incluídas dentro de uma razão ampliada, que, no entanto, continuava sendo a nossa. O autor Eduardo Viveiros de Castro denuncia uma inclinação narcisista da nossa cultura, que o pensamento pós-colonial, longe de interromper, tem levado ao seu máximo vigor: a todo pensamento “outro” cabe ser uma versão precária ou uma projeção do pensamento do Ocidente.

Sem tal narcisismo, seria possível reconhecer que os “outros” trazem a esse pensamento elementos que não estão na sua tradição, ou que só aparecem nela quando as ideias dos outros os ativam. O autor postula que “todas as teorias antropológicas não triviais são versões das práticas de conhecimento indígenas”. O pensamento do outro nos fornece conceitos com os quais é possível pensar.

O canibalismo pode ser um bom exemplo, ou mesmo um modelo, desses conceitos. É uma tese provocativa, porque nos nossos dicionários o canibalismo não passa de um modo bárbaro de alimentação, que reduz um semelhante a comida. Bem outra era a concepção dos Tupinambá, os “canibais” por excelência: matar o inimigo não era para eles assimilá-lo, mas assumir o seu nome, tornar-se o inimigo, tornar-se outro. A prática canibal acontecia dentro de uma filosofia do devir; e filosofias do devir já houve muitas, mas essa, adaptando uma expressão de Tim Ingold citada no livro, é uma filosofia do devir com seus sujeitos (e os hábitos desses sujeitos) dentro. Em contraste com a tradição do Velho Mundo que pensa mediante similitudes e generalizações, e cujas metáforas estão tomadas da consanguinidade (da paternidade como modelo da produção à fraternidade como modelo do social), a dos “selvagens” toma como paradigma o outro (um inimigo) e a “alteração”. O resultado é uma versão perspectivista e desunificada disso que nós chamamos “a grande cadeia do ser”.

Uma metafísica canibal é uma metafísica que deixa de lado as constantes e as invariantes e foca a diferença e a produção da diferença. As sínteses que nela interessam são as que criam e multiplicam: sínteses disjuntivas – um termo que, como muitas outras inspirações do livro, procede da filosofia de Gilles Deleuze, não em vão eivada de leituras etnológicas.

O objetivo do livro não é definir uma etnofilosofia com sua área demarcada dentro de um mapa multicultural do pensamento. Há, de fato, muitas afinidades entre essas ideias e correntes da ciência atual que têm deixado de lado a taxonomia e a busca de teorias unificadas para explorar uma proliferação de relações horizontais. Veja-se, por exemplo, a mudança de ênfase da semântica para a pragmática, do combinatório para o fractal ou diferencial. Talvez não haja melhor ilustração dessa afinidade do que as descobertas recentes a respeito da troca de informação genética entre microorganismos: uma troca, ou uma captura à margem da reprodução, que altera os seus protagonistas e revela uma agência inesperada em níveis do ser muito longe do humano – quem sabe o velho animismo de volta, agora pela porta da biologia.

Falar de multiplicidade e horizontalidade e recusar totalidades e hierarquias leva o argumento para a política, pois a ordem hegemônica está baseada numa ontologia unitária, que define objetivos comuns, necessidades universais. Metafísicas canibais reivindica aquele Manifesto antropofágico da vanguarda de 22, designando para a antropologia uma tarefa de “descolonização permanente do pensamento”: afirmar perspectivas outras – múltiplas, portanto – contra essas figuras do Todo expressas nas ideologias totalitárias, mas de um modo quiçá mais efetivo no credo global.

Oscar Calavia Sáez é professor adjunto do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador do CNPq.


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