RESENHAS

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Para compreender fenômenos complexos

Messianismo e milenarismo no Brasil | João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz (organizadores) | Edusp | 280 páginas | R$ 52,00

RICARDO BITUN | ED. 237 | NOVEMBRO 2015

 

Resenha_ MessianismoOs movimentos messiânicos e milenaristas ocorridos no Brasil em meados dos séculos XIX e XX são tão diversos em suas configurações e situações histórico-sociais que, por vezes, os conceitos analíticos são insuficientes para classificá-los. Não é para menos: a realidade tal como ela é, de fato, não pode ser apreendida em sua totalidade, apenas problematizada conceitualmente. É nesse sentido que o conjunto de artigos que compõe a coletânea Messianismo e milenarismo no Brasil – organizada pelos antropólogos João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz – pretende contribuir para um tema já clássico. Publicada originalmente numa edição especial da Revista USP (no 82, de 2009), a coletânea conta com 11 artigos escritos por especialistas, sendo um inédito.

Apesar da diversidade das abordagens, é possível apontar um ponto de convergência entre os artigos: trata-se de demonstrar que os diferentes movimentos sertanejos e suas utopias escatológicas tendiam a ser interpretados por seus observadores contemporâneos (e ainda hoje) como irracionalidade ou obstáculo aos ideais modernos (a República, a ciência etc.). Além disso, na maioria dos casos, as revoltas sertanejas tiveram fins trágicos. No caso de Canudos, como bem retrata Walnice Galvão, uma série de ambiguidades marcou a leitura desse movimento, começando pela cobertura jornalística (e literária) do próprio Euclides da Cunha. Sua obra Os sertões pode ser tomada como exemplo: ora denuncia os exageros da civilização em relação aos sertanejos, ora simpatiza com aqueles a quem descreve como “fanáticos”.

Além disso, há por parte dos autores um esforço elogiável em não tomar um tema clássico como esgotado. A propósito, Lísias Negrão faz um excelente inventário bibliográfico do estado atual das pesquisas, privilegiando três movimentos específicos: o de Juazeiro, Canudos e Contestado. Com exceção do artigo de Rodrigo de Sousa que abre a coletânea e cujo objetivo é traçar um quadro histórico do messianismo judaico primitivo (e seus desdobramentos), os demais textos fazem uma releitura dos principais estudos acerca dos movimentos messiânicos no Brasil. Marcio de Godoy aponta para a apropriação dos ideais bíblicos por parte dos portugueses e as trovas proféticas de Gonçalo Bandarra em momentos de crise da corte que permitiram a construção mítica de dom Sebastião, cuja figura faria ecos também no Brasil Colônia. Por sua vez, Renato Queiroz analisa o episódio que ficou conhecido como “a aparição do demônio de Catulé”, protagonizado por membros da Igreja Adventista da Promessa em Minas Gerais, em 1955.

Outro eixo analítico que coloca em nova perspectiva os estudos dos movimentos messiânicos são os referenciais teóricos da psicanálise tal como articulados por Antonio Máspoli na análise do conflito do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (movimento ocorrido no estado do Ceará entre 1894 e 1937) e por Heloisa Módolo, que investiga o aspecto psicológico dos “delírios religiosos” (o caso de Jacobina e seus liderados, os Mucker). Apesar dos “riscos” de tal abordagem, a proposta rende reflexões interessantes.

Por fim, do ponto de vista da construção das memórias em torno de fenômenos fixados num passado histórico, são interessantes os artigos de Celso Menezes e de Julio Cesar Melatti. Nessa direção, o artigo inédito de Gladson da Cunha trata de explorar um movimento messiânico que ficou conhecido como Estado União de Jeová. Cabe ainda mencionar a reconstituição histórica que Cristina Pompa faz do “movimento de Pau de Colher” a partir de seus protagonistas, argumentando que o movimento ressignificou os símbolos de devoção do catolicismo sertanejo: o festejo de santo, a romaria e a procissão-penitência. Em todos esses casos, mitos e ritos se entrelaçam com a história.

O livro reacende, pois, um debate clássico e articula diferentes elementos analíticos: tão diversos quanto o objeto em questão são também as abordagens e os referenciais teóricos cujo quadro interdisciplinar é sempre bem-vindo para a compreensão de um fenômeno complexo e multifacetado. Sua leitura (não apenas obrigatória, mas também agradável) é indispensável para especialistas e interessados.

Ricardo Bitun é coordenador do curso de pós-graduação do Programa de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie.


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