RESENHAS

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A química e suas origens no Brasil

Origens da química no Brasil | Carlos Alberto Lombardi Filgueiras| Editora Unicamp / SBQ / CLE-Unicamp | 504 páginas | R$ 120,00

HELOISA BERALDO | ED. 238 | DEZEMBRO 2015

 

Resenha_QuímicaSegundo Carlos Alberto Lombardi Filgueiras: “O sortilégio da musa Clio é universal, pois não há homem sem história, mas ele se revela particularmente agudo entre homens de ciência”. Em Origens da química no Brasil, Filgueiras descreve não somente as origens da química, mas também as origens das ciências e das técnicas em nosso país. Fruto de cuidadoso trabalho de pesquisa em história da ciência empreendido pelo autor, o livro é ricamente ilustrado com figuras que coletou em museus e bibliotecas no Brasil e em Portugal, ou com material de sua própria coleção.

Começando com uma introdução sobre a natureza da história da ciência, o autor passa em seguida a um capítulo sobre a mundialização do conhecimento ocorrida nos séculos XVI e XVII, em que descreve as trocas de ideias, livros, plantas, animais e mercadorias, como resultado das grandes navegações e da exploração de novas terras. Descreve também o impacto da mundialização no acúmulo do conhecimento e na revolução científica, que a partir de então não pôde mais ser considerada um fenômeno puramente europeu, em razão das influências trazidas da América, da Ásia e da África à Europa. O autor menciona o efeito dos novos conhecimentos sobre os princípios da ciência existentes até então e comenta o papel fundamental que a periferia – o mundo extraeuropeu – exerceu sobre o fenômeno maior da história da ciência, a revolução científica.

Segue-se uma seção sobre o Brasil colonial e a química, que descreve as técnicas envolvidas na produção da cana-de-açúcar e de aguardente. O autor aborda ainda a terceira fase econômica colonial, a partir do final do século XVII, com os ciclos do ouro e dos diamantes, na qual serão necessários conhecimentos científicos de mineralogia e geologia. Há também uma análise da influência dos jesuítas na educação no Brasil Colônia e finalmente é discutida a contribuição científica dos holandeses durante seu domínio no Nordeste (1637-1644).

Um capítulo dedicado à ciência e às técnicas no século XVIII compreende a descrição de técnicas militares na produção de pólvora, de conhecimentos metalúrgicos e químicos relacionados à mineração e uma abordagem da medicina praticada no Brasil no mesmo período.

As contribuições de Vicente Coelho de Seabra Silva Telles (1764-1804), o primeiro químico moderno brasileiro, são tema de um capítulo, que se refere inicialmente à sua primeira obra, Dissertação sobre a fermentação (1787). Nesse trabalho, Seabra introduz a teoria do oxigênio de Lavoisier na literatura química portuguesa. A seguir o autor analisa duas obras publicadas por Seabra em 1788, um ano antes da publicação do Traité élémentaire de chimie, de Lavoisier: Dissertação sobre o calor e Elementos de química. Nelas, as interpretações da natureza da combustão e da redução alinham-se com as ideias do químico francês.

Um capítulo é dedicado às contribuições científicas de José Bonifácio de Andrada e Silva, os trabalhos publicados por ele e suas descobertas de novos minerais, entre os quais a petalita, um mineral de lítio. José Bonifácio tornou-se o único brasileiro diretamente envolvido nos eventos que levaram à descoberta de um novo elemento químico – o lítio.

Há um capítulo que trata das implicações da vinda da Corte portuguesa para o Brasil, tais como a institucionalização do ensino de ciências e o início da siderurgia no país. O gosto de dom Pedro II pela ciência é matéria de um outro capítulo, que contém informações sobre a formação científica que o imperador deu às suas filhas, e sobre o interesse da princesa Isabel pela química.

Um capítulo aborda as origens da universidade brasileira desde a vinda dos jesuítas, a fundação das primeiras faculdades de medicina depois da chegada da Corte portuguesa e o início das atividades de ensino superior, sem interrupção, com a criação da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho (1792), núcleo do que viria a constituir a atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O autor optou por enfatizar o período compreendido entre os séculos XVI e XIX, reservando o capítulo final para nos dar sua visão da história da química e da modernização científica do país no século XX.

O texto, de leitura agradável, interessa não exclusivamente a químicos, mas também a cientistas de outras áreas e a historiadores.

Heloisa Beraldo é professora do Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


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