ARTE

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Diálogo com um passado remoto

Exposição reúne arqueologia e artistas contemporâneos

MARIA HIRSZMAN | ED. 238 | DEZEMBRO 2015

 

Esculturas em pedra de tempos anteriores a Cristo...

Esculturas em pedra de tempos anteriores a Cristo…

Pensar a produção contemporânea a partir de nossa arte mais ancestral. Esse é o enigma proposto pela 34ª edição do Panorama da Arte Brasileira, em cartaz até 18 de dezembro no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). O núcleo central da exposição, intitulada Da pedra da terra daqui, é um conjunto representativo de 60 esculturas em pedra polida, realizadas entre 4 mil e 1 mil anos antes de Cristo, na região costeira que hoje corresponde ao sul do Brasil e norte do Uruguai. A maioria delas foi encontrada em escavações feitas nos sambaquis, como são chamados os grandes acúmulos de conchas, com múltiplos usos (de residência a monumento funerário), dispersos ao longo desse litoral. Para dialogar com a síntese formal das peças indígenas, foram convidados seis artistas contemporâneos: Cildo Meireles, Cao Guimarães, Miguel Rio Branco, Berna Reale, Erika Verzutti e Pitágoras Lopes.

“Para mim, essa exposição fala do artista que observa seu ambiente, seja há 6 mil anos ou nos dias de hoje”, explica a curadora Aracy Amaral, professora titular de História da Arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Há mais de 20 anos ela busca dar visibilidade à coesão, beleza e unidade estilística que caracterizam as peças arqueológicas agora em exposição. O público interessado em arte no Brasil que conhece bem a obra do romeno Constantin Brancusi (1876-1957), por exemplo, dificilmente teve a possibilidade de ver de perto essas esculturas de pedra polida, em sua maioria representando animais (zoólitos), que tanto lembram a elegância das formas do mestre modernista. “O fascinante é o enigma que rodeia essas peças que resistiram à depredação dos séculos”, diz Aracy. “Sua presença em locais de túmulos assinala igualmente a religiosidade que rodeia esses povos milenares, desaparecidos séculos antes da chegada dos europeus.”

... e obra da artista contemporânea paraense Berna Reale: reflexão sobre os desafios atuais

… e obra da artista contemporânea paraense Berna Reale: reflexão sobre os desafios atuais

O interesse da historiadora em divulgar o acervo em pedra remonta aos anos 1980, quando visitou quase todos os museus que abrigam essas peças em seus acervos. Em 1981, no texto “A escultura brasileira”, ela afirmou que a produção indígena em pedra “alcança elevado nível de solução plástico-visual, ao mesmo tempo que harmoniosamente vinculada ao contexto local, por sua inspiração e material”. Desde o início dos anos 2000, quando o desejo de reuni-las numa exposição se transformou em projeto, a historiadora buscou a assessoria do arqueólogo André Prous, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro O Brasil antes dos brasileiros (Jorge Zahar Editor, 2007).

A decisão de convidar, entre os artistas contemporâneos, apenas um pequeno grupo, e sem a obrigatoriedade de contemplar artistas jovens, interrompe a tendência seguida pelo Panorama da Arte Brasileira nas últimas décadas de alinhavar um número grande de artistas em torno de uma tese curatorial. Os participantes foram escolhidos por Aracy Amaral e seu curador adjunto, Paulo Miyada, de maneira intuitiva, mas também por serem presenças fortes no cenário atual. Cada um celebra, de algum modo, o resgate de um passado distante e as implicações estéticas de pensar criticamente a cultura nacional a partir de uma base muito mais ampla do que a da costumeira cronologia a partir do descobrimento.

Vestígios de uma cultura que não deu certo na obra de Miguel Rio Branco

Vestígios de uma cultura que não deu certo na obra de Miguel Rio Branco

Cao Guimarães, em um vídeo-ensaio de 15 minutos, cria um tempo dilatado e descobre em peregrinação pela região onde existiam sambaquis, em Santa Catarina, algo como o elo perdido com as tradições e costumes dos povos que criaram esses tesouros pré-cabralinos. Hoje, como ontem, há pessoas que sobrevivem da pesca e separam moluscos das valvas (conchas). Já Berna Reale fala não do tempo pregresso, mas dos desafios e encruzilhadas do mundo atual. Tanto na instalação O tema da festa quanto no vídeo Habitus, a artista e perita criminal de Belém (PA) expõe a naturalização da violência na sociedade brasileira.

Pessimista, Miguel Rio Branco reconstrói uma representação do mundo pós-humanidade, na qual a natureza toma conta dos vestígios de uma cultura que não deu certo, representada por carcaças de televisões e restos de material retorcido. Erika Verzutti e Pitágoras Lopes trazem os trabalhos que lidam de forma mais literal com o universo dos homens que criaram os zoólitos.

A obra mais ousada e complexa da exposição é a de Cildo Meireles. O artista concretizou um projeto idealizado em 1969, Elevar a estatura do Brasil, acrescentando no topo do pico da Neblina, montanha mais alta do território nacional, uma pedra tirada do fundo da terra. O projeto demandou parcerias, sobretudo a com o fotógrafo Edouard Fraipont, incumbido de realizar a ação, e uma intensa negociação com os índios Ianomâmi, que consideram o pico da Neblina, ou Yaripo (como o chamam), território sagrado.


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