HUMANIDADES

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A redescoberta da filologia

Pesquisadores discutem questões teóricas para construir subsídios e embasar os estudos clássicos da área

MÁRCIO FERRARI | ED. 239 | JANEIRO 2016

 

Reprodução de painéis do museu da língua portuguesa

Reprodução de painéis do Museu da Língua Portuguesa

Historicamente, a filologia pode ser considerada uma espécie de ciência-tronco da qual se desenvolveram não apenas estudos como o da etimologia, mas também ciências modernas como a linguística e os estudos literários. De um ponto de vista estrito, a filologia é o estudo do texto, incluindo sua linguagem e seus aspectos literários, por meio da análise histórica de documentos escritos. Mas, à medida que aqueles ramos do conhecimento foram se tornando independentes, seu campo foi deixando de ter contornos claros. Em alguns casos, o próprio termo parou de ser usado. Em lugar de “filologia clássica” (que trabalha com textos da Antiguidade grega e romana), costuma-se usar no Brasil as expressões “letras clássicas” ou “estudos clássicos”. Hoje, em âmbito mundial, observa-se um esforço acadêmico de fortalecer os estudos filológicos repensando seu terreno teórico. No país, o principal polo dessas atividades está na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“A teoria da filologia ainda é pouco conhecida aqui, mas está em pleno desenvolvimento em países como a Alemanha”, diz a professora Isabella Tardin Cardoso, da área de estudos clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, que desde 2006 é pesquisadora e docente convidada do Seminário de Filologia Clássica da Universidade de Heidelberg (Alemanha), onde vem conduzindo estudos, cursos, palestras e workshops conjuntos e em intercâmbio com o professor alemão Jürgen Paul Schwindt. Várias dessas atividades receberam apoio da FAPESP em forma de auxílio para organização de colóquios e para trazer pesquisadores do exterior.

“É interessante observar que os estudos clássicos costumam ser vistos como uma área extremamente prática, até resistente à teoria”, diz Isabella. Seriam atividades “quase artesanais e desprovidas de princípios interpretativos”. Ela cita como exemplos de tarefas atribuídas à filologia clássica a identificação e colação de fragmentos textuais, a comparação e edição de textos antigos contidos em manuscritos, a suposição e identificação de lacunas, a contextualização das informações encontradas nesses documentos e sua tradução. “Essas práticas são bastante valorizadas também entre profissionais brasileiros.”

Fragmentos
Uma observação um pouco mais profunda, no entanto, desfaz a ideia de que essas atividades são desprovidas de intencionalidade ou subjetividade, como se pode inferir da escolha dos manuscritos a serem estudados ou no próprio processo de pesquisa ou tradução, quando o estudioso pondera o que privilegiar e o que deixar de lado. Entre os documentos escritos da Antiguidade, há um grande número de obras que chegaram aos dias de hoje incompletas ou em diferentes versões. Isabella cita, como exemplo, a tragédia Atreu, do dramaturgo e poeta latino Lúcio Ácio (170 a.C.-86 a.C.). “A ordem em que um estudioso edita os fragmentos segue certos princípios, conscientes ou não”, diz Isabella, que vem trabalhando com os fragmentos de Ácio e do orador e filósofo Cícero (106 a.C.-43 a.C.), também latino.

O latinista e professor do IEL-Unicamp Paulo Sérgio de Vasconcellos observa que não é só no Brasil que se dá pouca atenção à discussão de pressupostos teóricos da filologia clássica. “Um ilustre classicista, o escocês David West [1926-2013], pregava a seus alunos o abandono da teoria para ir diretamente aos textos, como se fosse possível tratar deles sem uma teoria, explícita ou implícita”, diz Vasconcellos. “Nos últimos tempos, assistimos a uma mudança na área: há um interesse cada vez maior em discutir as questões teóricas que embasam o trabalho dos classicistas, e o projeto ‘Teoria da filologia’, no caso brasileiro, é fundamental nesse processo.” O projeto, que propiciou em 2014 a fundação do Centro de Estudos de Teoria da Filologia, com sedes na Unicamp e em Heidelberg, tem Isabella e Vasconcellos como coordenadores no Brasil, e Schwindt e Melanie Möller (Freie Universität Berlin), na Alemanha. Participam ainda pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e  da  Universidade de Budapeste (Hungria).

A identificação, o estudo e o questionamento dos pressupostos envolvidos nas práticas usuais dos filólogos são o campo da teoria da filologia, que pode ser considerada uma epistemologia desse campo do saber. “A perspectiva epistemológica é indispensável se não quisermos ficar de fora de toda narrativa moderna nas artes e humanidades”, afirma Schwindt, um dos pioneiros dessa área na Alemanha. “A teoria da filologia examina o modo como nos relacionamos com os textos, e a ênfase das minhas pesquisas está em como encontramos neles algo que é similar àquilo que nos leva, como primeiro impulso, a conhecê-los.”

A fim de explorar e desenvolver a teoria da filologia, os grupos de intercâmbio pensaram num possível dicionário de conceitos importantes na área, mas não os mais óbvios, como “texto” e “autor”. Passou-se em seguida à ideia de tematizar não mais tais conceitos e sim palavras que “normalmente são apresentadas como tendo significado evidente”. Entre muitos outros, foram estudados os termos “clássico”, “conhecimento” e a própria palavra “filologia”. Nasceu daí o projeto bilíngue e binacional “Palavras para uma teoria da filologia”, com financiamento de instituições de fomento alemãs, como a DFG e Alexander von Humboldt, em andamento desde 2013. Um livro bilíngue homônimo deverá ser lançado em 2016 pela editora Winter Universitätsverlag, de Heidelberg.

Schwindt vê o projeto como o pontapé inicial de um trabalho de mapeamento e até de redefinição, quando necessário, dos conceitos e termos que podem se relacionar à filologia. “Nesses estudos, fenômenos que tradicionalmente não estão associados à seara da filologia, como temporalidade, reconhecimento, ordem e subversão, são colocados num vínculo  substancial com o trabalho filológico”, observa o professor alemão. Isabella ficou responsável pelo estudo da palavra “efemeridade”. “Reflito sobre como esse termo está presente no vocabulário filológico e de que modo se conjuga com a própria efemeridade do conhecimento, sem a qual não se pode pensar, por exemplo, a noção de progresso, um princípio das ciências modernas”, diz a pesquisadora.

Imitação
O projeto foi precedido de outros, a começar pelo ensaio de Isabella intitulado “Teatro do mundo: filologia e imitação”, incluído no livro Was ist eine philolo-gische Frage? (O que é uma questão filológica?), que Schwindt organizou para a editora alemã Suhrkamp, uma das mais tradicionais da Europa. “No capítulo, trato de um conceito importante para os estudos filológicos antigos e modernos, o de imitação”, conta Isabella. “Recorri à obra teatral A vida de Galileu, de Bertolt Brecht, e utilizo a metáfora do ‘teatro do mundo’ para observar mais de perto a imitação e o fazer de conta que ela envolve, como parte das ciências em geral e da filologia em particular.”

A metáfora do teatro como representação do mundo ou da vida tem presença recorrente na literatura e na filosofia ocidentais e, na visão de Isabella, é um recurso necessário à ciência para suas formulações e desenvolvimentos, como se o texto científico fosse “uma imitação do próprio objeto de estudo”. Dando continuidade à comparação entre ciência e arte, Isabella escreveu um texto sobre o termo “ilusão”, editado em forma de livro para a Universidade de Viena (Áustria), Trompe l’oeil: Philologie und Illusion (Trompe l’oeil: Filologia e ilusão), título referente à expressão francesa que identifica a técnica de pintura que dá impressão de profundidade em imagens bidimensionais.

Intertextualidade
A pesquisadora observa que, ao contrário do que costumava ocorrer nos estudos clássicos entre os séculos XIX e XX, a imitação, na Antiguidade e no Renascimento, era um procedimento aceito e enaltecido na literatura, e funcionava como numa espécie de competição. Ela exemplifica com a descrição de um “mundo dos mortos” em Homero, Virgílio, Dante e Boccaccio. Uma referência moderna e autoirônica a esse hábito foi a definição dada por Ariano Suassuna a sua comédia O santo e a porca (1957) como uma “imitação nordestina de Plauto”. Outro aspecto revelador do estudo da imitação é o hábito, entre pesquisadores, de procurar “imitar a intenção do autor”. Para isso, até meados do século XX, na falta de informações históricas, costumavam-se admitir “dados” sobre a vida de escritores que foram deduzidos a partir do estilo. Assim, “Plauto era pobre e se dirigia para um público mais simples” ou “Catulo escrevia seus poemas para uma namorada”. Isabella ressalta que hoje as metodologias questionam tal foco no “autor”, mas não deixam de lado a imitação de seu objeto de estudo, quer do texto (seu estilo e lógica), quer do público que o texto teria na época em que foi produzido.

Estudos aparentados e pioneiros vêm sendo realizados por Vasconcellos no campo da intertextualidade, a análise de dois ou mais textos, de modo a revelar novos aspectos sobre eles. “Todo latinista sabe que a literatura da antiga Roma mantém um diálogo constante e complexo com a literatura grega e também internamente”, relata o pesquisador. “No passado, o filólogo simplesmente se contentava em mencionar as passagens dos outros autores. A teoria intertextual veio sofisticar esse estudo comparativo, mostrando um processo de geração de sentidos.” Vasconcellos, ao lado de Patricia Prata, também professora do IEL-Unicamp, coordena uma equipe que está traduzindo para o português “textos fundamentais sobre intertextualidade nos estudos clássicos”, entre eles Arte alusiva, do italiano Giorgio Pasquali, e Nos ombros de gigantes: Intertextualidade e estudos clássicos, do inglês Don Fowler.

Para Isabella, a repercussão obtida por todos esses trabalhos comprova a necessidade de refletir sobre a prática da filologia. Segundo ela, o projeto “Palavras para uma teoria da filologia” estimulou um grupo binacional de especialistas a se reunir em torno de algumas das questões centrais que cercam essas práticas. Schwindt descobriu vantagens na parceria com pesquisadores brasileiros. “Ficou claro para mim que a perspectiva científica no estudo das estruturas da filologia podem desenvolver-se muito melhor num contexto acadêmico não exposto à carga de influências ideológicas que moldou nosso trabalho na Europa”, avalia. Para ele, a intensidade das viagens de estudiosos dos dois países motivadas pelo interesse na teoria da filologia é prova de que há um terreno fértil para ambos os lados.


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