RESENHAS

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Etnologia francesa no Brasil e na África

A viagem como vocação | Fernanda Arêas Peixoto | Edusp | 288 páginas | R$ 45,00

GUILHERME SIMÕES GOMES JÚNIOR | ED. 239 | JANEIRO 2016

 

Resenhas_A viagemHá um desenho explícito na disposição dos capítulos de A viagem como vocação, livro de Fernanda Arêas Peixoto que apresenta seis estudos: dois que tratam exclusivamente de Roger Bastide, dois de Gilberto Freyre, um que mescla roteiros de Pierre Verger e Bastide e, por fim, um dedicado a Michel Leiris.

Nesse quadro, o último parece destoar. De um lado, porque trata de uma viagem por acontecer, isto é, de um artigo – “L’oeil de l’ethnographe” – que Leiris escreve na França antes de partir para a Missão Dakar-Djibouti; de outro, porque o Brasil está ausente, enquanto nos cinco estudos que o precedem é o território visado e percorrido ou o lugar de onde se parte para, em outros quadrantes, ser reencontrado.

Mas há um desenho oculto no qual o ensaio sobre Leiris passa a fazer sentido (o leitor poderia começar por ele). Porque na linha do tempo trata da experiência mais recuada e diz respeito ao momento decisivo (1930) no qual a etnologia francesa começa a sair de seus gabinetes e passa a ter por base etnografias de pesquisadores também franceses. Os outros ensaios tratam de viagens posteriores.

As fontes no livro – literatura científica, mapas, artigos de jornais, cartas, desenhos, fotografias – são examinadas com senso de detalhe. Que o etnógrafo seja também um fotógrafo é fato recorrente, mas cabe observar que são profissões com fins distintos. Mas há uma borda na qual se embaralham, trata-se do encontro que se dá no gênero híbrido que é a narrativa de viagem. A serviço de uma revista ilustrada, o fotógrafo anda mais rápido e tem a segurança de quem quer e sabe fazer boas fotografias para encantar um público leigo; já o etnólogo sabe que boas fotografias não são suficientes para convencer uma comunidade científica. Verger, o fotógrafo, aproxima-se da etnologia por meio de escritos de Bastide; enquanto este renova a sua perspectiva etnológica aceitando os desafios propostos pelo fotógrafo para encontrar o Brasil na África.

Numa observação pessoal de Bastide para Verger, o etnólogo diz ao fotógrafo que ele “se mantém ao nível dos documentos, é preciso se valer deles”, como a afirmar que o documento é pouco sem o recurso ao rigor da ciência.

Já a relação de Leiris com o fotógrafo e viajante William Seabrook é distinta. Primeiro, porque Leiris não era ainda etnólogo, mas apenas um letrado que viu na etnologia a possibilidade de escapar de suas crises e desorientação naquele ambiente francês que misturava vanguarda surrealista, psicanálise, arte negra e frequentação dos cursos de Marcel Mauss. A intuição de Leiris anterior à viagem e confirmada no retorno é de que o olho do etnógrafo não é o mesmo do fotógrafo, porque é preciso superar as “visões equivocadas construídas pelas ‘lentes deformadoras’ da cultura europeia”. Se essa perspectiva crítica, que parece ser comum a Leiris e Alfred Metraux (que frequentou os mesmos círculos), levou o último para o rigor da ciência, em Leiris a etnologia tem forte carga reflexiva. Ao mesmo tempo que é capaz de dissipar fantasmagorias, é um empreendimento de reconstrução de si. Se Seabrook foi fundamental no deslanchar do projeto africano, no retorno Leiris afasta-se dele.

Vistos pela chave interpretativa do último estudo, aqueles que no início são dedicados a Bastide (sobre as cidades e o candomblé barroco) ganham nova luz. Não é possível entender as escolhas interpretativas de Bastide sem levar em conta o trânsito entre etnologia e vanguardas estéticas na França, sobretudo porque a visão do barroco que elabora é em grande parte filtrada pelas lentes do surrealismo.

Nesse segundo desenho, no qual a escola francesa de sociologia e etnologia é uma espécie de sujeito oculto, é Gilberto Freyre quem destoa. Há pouco espaço para tratar dele, mas cabe uma palavra. Enquanto as viagens de Leiris, Bastide e Verger são carregadas de reflexividade e desejo de descoberta, a viagem à África de Freyre não passa de um périplo de autoafirmação, suas fotos entre monumentos e nativos estão carregadas de uma perspectiva imperial. Freyre, no auge de sua consagração, confirma o que já sabia.

Com o artigo “Lévi-Strauss no Brasil: a formação do etnólogo” (1998) e o livro Diálogos brasileiros (2000), A viagem como vocação (2015) forma um conjunto incontornável de excelentes estudos sobre a escola francesa no Brasil e na África.

Guilherme Simões Gomes Júnior é professor do Departamento de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


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