Biologia

Lagartos teiú regulam temperatura corporal em períodos de acasalamento

Característica pode ter evoluído como estratégia para aumentar o sucesso reprodutivo

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Imagem: Glenn tattersall Lagartos teiú são capazes de manter seu sangue mais quente do que a temperatura ambiente durante o período de acasalamentoImagem: Glenn tattersall

Animais conhecidos tradicionalmente por precisarem de fontes externas de calor, os lagartos teiú parecem ser capazes de manter seu sangue mais quente do que a temperatura ambiente durante o período de acasalamento. A conclusão é de um grupo de pesquisadores brasileiros e canadenses. Diferentemente dos mamíferos, que conseguem manter a temperatura corporal estável à custa de uma alta atividade metabólica, os lagartos, por terem sangue frio, costumam se refugiar em tocas no chão ou debaixo de pedras para evitar a perda de calor para o ambiente. Para os teiús, não parece ser bem assim, de acordo com um grupo de pesquisadores de várias instituições, entre eles o biólogo Cléo Leite, do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), interior paulista, e o canadense Glenn Tattersall, da Universidade de Brock.

Em artigo publicado nesta sexta-feira, 22, na revista Science Advances, eles revelam que esses animais conseguem produzir e manter sua temperatura corporal a partir de uma fonte própria de calor. Há algum tempo Tattersall colabora com pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro (SP). Em 2012, ao estudar tucanos da espécie Ramphastos toco, ele e outros pesquisadores verificaram que o animal aumentava o fluxo de sangue para o bico, que se responsabilizava por dispersar o calor excessivo para o ambiente (ver Pesquisa FAPESP especial 50 anos).

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Imagem: Glenn tattersall Fotos dos lagartos no ninho tiradas por máquinas termográficas sugerem que o animal consegue manter sua temperatura estávelImagem: Glenn tattersall

No estudo, desenvolvido no âmbito do Instituto Nacional de Pesquisas em Fisiologia Comparada, os pesquisadores primeiro monitoraram lagartos adultos da espécie Salvator merianae em ambientes ao ar livre por aproximadamente um ano. Lá, eles podiam tomar sol, se abrigar à sombra ou em tocas no chão. Os pesquisadores analisaram a frequência cardíaca e a temperatura corporal desses animais por meio de máquinas termográficas, que fotografava os lagartos e produzia imagens em espectros de cor que variavam do amarelo (mais quente) ao azul (mais frio) em diferentes períodos do dia. Verificaram que durante o período reprodutivo os animais não perdiam calor.

Eles, então, montaram um novo experimento. Dessa vez, em uma câmara fechada com temperatura controlada. Agora, também por meio de máquinas termográficas, eles verificaram que os lagartos mantinham sua temperatura corporal mesmo sem ter uma fonte externa. Concluíram que a capacidade desses animais de produzir calor está ligada ao aumento da atividade metabólica durante o período de reprodução. “Essa alteração metabólica poderia ser causada por mudanças em hormônios reprodutivos”, explica Leite. Os resultados, segundo ele, reforçam a hipótese de que a endotermia — característica que lhes permite manter sua temperatura corporal relativamente constante a partir de uma fonte interna de calor — poderia ter evoluído como parte de uma estratégia reprodutiva.

Projeto
1. Instituto Nacional de Pesquisas em Fisiologia Comparada (nº 2008/57712-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Augusto Shinya Abe (IB-UNESP); Investimento R$ 1.305.530,00 (FAPESP) e R$ 482.439,91 (CNPq).
2. Ecofisiologia de Bokermannohyla alvarengai (Bokermann 1956): uma espécie endêmica de campos rupestres (nº 2010/05473-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Denis Otavio Vieira de Andrade (IB-UNESP); Investimento R$ 246.117,00 (FAPESP).
3. Fisiologia termal e balanço de água em anfíbios anuros ao longo de um gradiente altitudinal da Floresta Atlântica (nº 2013/04190-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Denis Otavio Vieira de Andrade (IB-UNESP); Investimento R$ 227.629,00 (FAPESP).

Artigo científico
Tattersall, G. J. et al. Seasonal reproductive endothermy in tegu lizards. Science Advances. 22 jan. 2016