ARTE

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Um teatro de muitas linguagens

Companhia Balagan conjuga a prática pedagógica e a pesquisa multidisciplinar da encenadora Maria Thaís

ORLANDO MARGARIDO | ED. 240 | FEVEREIRO 2016

 

Cena do espetáculo Recusa, premiada  síntese das orientações da companhia

Cena do espetáculo Recusa, premiada síntese das orientações da companhia

Cedo a encenadora Maria Thaís aprendeu a olhar o outro a partir das próprias diferenças e a questionar contextos deterministas. Baiana da pequena Piritiba, na chapada Diamantina, a diretora, cujo nome completo é Maria Thaís Santos Lima, prefere se referir a si mesma como sertaneja. Quando já dedicada ao teatro, nos anos 1980, optou por não praticar um teatro de militância política. Essa postura não arrefeceu durante sua estadia na Rússia, onde desenvolveu os elementos para a pesquisa de doutorado sobre o encenador Vsevolod Meierhold (1874-1940), sua referência e modelo. O aprendizado se tornou a razão de ser da Cia Teatro Balagan, fundada em 2000 por Maria Thaís com o objetivo primordial de pesquisa, desdobrada em espetáculos e ação pedagógica.

As duas vertentes, artística e educacional, desde então correm juntas. Nesse período, o núcleo de atores e colaboradores da Balagan (palavra que em russo significa teatro de feira) levou ao palco sete peças, entre elas a premiada Recusa (2012), espécie de síntese das orientações da companhia. A mais nova empreitada é Cabras – Cabeças que voam, cabeças que rolam, com temporada prevista para este mês e parte de março no Centro Cultural São Paulo. Com a guerra como eixo central, a montagem renova os fundamentos esboçados na estreia, Sacromaquia (2000), e enfatizados a partir de Tauromaquia (2004).

Tauromaquia e...

Tauromaquia e…

Na Balagan, articulam-se narrativas em variações de todos os elementos cênicos, como linguagem corporal, voz, música e cenário, e requer-se do público uma postura participativa. “Trata-se de discutir e entender por que nós temos tanta dificuldade em aceitar o outro, se afinal ele nos integra”, diz Maria Thaís, também professora do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Exemplo maior desse questionamento, Recusa o representa a partir da cultura indígena, baseando-se em fato real ocorrido em 2008, quando foram descobertos dois índios da etnia Piripkura, julgada extinta. Esse fato chegou ao conhecimento da companhia no momento em que a trajetória de Maria Thaís se transformava. Envolvida desde os anos 1970 com tarefas pedagógicas, ela sempre esteve próxima da vocação artística, fosse dança, canto ou mesmo cinema. “A prática me ensinaria que o teatro não deveria se constituir como arte pura, mas influenciada por outras linguagens”, diz.

Nos anos 1980, atuou como professora no Centro de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio, e foi preparadora corporal em diversos espetáculos. Na época, a formação de atores era fortemente influenciada pelo italiano Eugenio Barba, com sua “antropologia teatral”, que coloca o ator em primeiro plano. “A mim interessava mais estudar as relações entre cena e atuação a partir de outras práticas artísticas, sem tentar encontrar unidade na universalidade”, afirma Maria Thaís. Em seguida ela se estabeleceu em São Paulo, também para dar início a seu mestrado com o crítico e professor Sábato Magaldi na ECA-USP.

...Cabras, o mais recente espetáculo: consolidação da perspectiva espacial que caracteriza a Balagan

Cabras, o mais recente espetáculo: consolidação da perspectiva espacial que caracteriza a Balagan

Nessa fase, a professora ainda relutava em dirigir. Participou da concepção e coordenação da inovadora Escola Livre de Teatro, em Santo André (SP), onde conheceu o dramaturgo Luis Alberto de Abreu, autor habitual dos trabalhos da Balagan, como o atual Cabras. No final dos anos 1990, Maria Thaís fez sua viagem a Moscou para uma bolsa de “doutorado sanduíche” com a qual realizou a pesquisa sobre Meierhold e, a convite do diretor russo Anatoli Vassiliev, uma residência artística no Teatro Escola de Arte Dramática de Moscou. A prática na Rússia alicerçou o nascimento da Balagan, formada por atores e outros artistas de diversas procedências, entre eles o músico Fernando Carvalhaes e o cenógrafo e figurinista Márcio Medina, que responde por todos os espetáculos da companhia desde então.

Da parceria entre diretora e cenógrafo, surgiu uma perspectiva espacial que caracteriza os espetáculos da companhia, começando por Sacromaquia, primeira parte de uma trilogia sobre a clausura, cujos personagens são freiras. Tauromaquia trata do cotidiano de vaqueiros. A Západ (2007), seguiu-se um período de exaustiva pesquisa. Somente quatro anos depois, em 2011, surgiu um novo espetáculo. Prometheus – A tragédia do fogo era o vértice trágico de um estudo que prosseguiu com Recusa e termina com Cabras.

As múltiplas linguagens da Balagan exigem colaborações especializadas e ligações com diferentes ciências, entre elas semiótica e antropologia. “Impressiona a imersão que os espetáculos da Balagan provocam”, diz Alexandre Mate, professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-Unesp). “É um rigor conquistado com uma pesquisa singular que une os elementos de composição do teatro numa sinestesia.” Para Cassiano Sydow Quilici, professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trata-se não só de pesquisar temas polêmicos, como em Recusa, mas também de aproximar-se de um outro modo de sentir e pensar.

 


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