RESENHAS

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Balanço crítico da produção de um mestre

Professor Oliveiros S. Ferreira – Brasil, teoria política e relações internacionais com sua obra | Carlos Enrique Ruiz Ferreira (org.) | Edusp | 282 páginas | R$ 44

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA | ED. 241 | MARÇO 2016

 

Resenha_Prof OliveirosQuando as ciências sociais se especializam ao extremo e se tornam mais “quantitativas” e “metodológicas”, os grandes pensadores ganham nova vida. Ainda que possam trabalhar concentrados em uma dada área do saber, eles se distanciam da busca por “provas” e por uma interdisciplinaridade difícil de ser definida e, sobretudo, praticada. Dedicam-se a fornecer parâmetros interpretativos que costuram conhecimentos vários, dialogam com diferentes escolas filosóficas e tradições intelectuais.

Oliveiros S. Ferreira (1929) é, com todos os méritos, um dos destacados representantes desta vertente. Formou-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) e se tornou professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) em 1953. Desde então tem se dedicado à docência nos cursos de graduação e pós-graduação. A esta longa e consagrada trajetória universitária aliou uma rica atividade jornalística como editorialista, redator-chefe e diretor de O Estado de S. Paulo. Fez assim da militância intelectual sua razão de ser. Em seu percurso, cruzaram-se investigações eruditas e análises pontuais sobre diferentes aspectos da vida política brasileira e as relações internacionais.

Pensando no lugar ocupado por Oliveiros Ferreira nas ciências sociais brasileiras, um expressivo grupo de cientistas sociais coordenado por Carlos Enrique Ruiz Ferreira organizou, na USP, em conjunto com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um minicurso dedicado a realizar um balanço crítico da produção intelectual do mestre. As exposições feitas na ocasião foram agora reunidas em livro, fornecendo ao leitor amplo e criterioso panorama da trajetória do importante professor.

O livro toma como base os cinco principais livros de Oliveiros, nos quais ele desenvolveu sua teorização. Debatem-se as ideias expostas em Nossa América: Indoamérica (1971), cujo objeto é o pensamento do político peruano Haya de la Torre, em Os 45 cavaleiros húngaros (1986), onde se faz uma leitura dos Cadernos do cárcere escritos pelo marxista italiano Antonio Gramsci, em Vida e morte do Partido Fardado (2000), A crise da política externa: Autonomia ou subordinação (2001) e Elos partidos: Uma nova visão do poder militar no Brasil (2007). No correr das discussões, salientam-se os núcleos constitutivos de um pensamento original: o Estado, a necessidade da ordem, o poder como dominação e posse de almas, mentes e recursos materiais, a dimensão psicossocial dos fatos políticos, o valor da ação organizada, o projeto nacional. Ao final, em um ensaio inédito, o próprio Oliveiros sintetiza suas proposições.

Duas vertentes se destacam em sua trajetória. A primeira alimenta uma teoria da política, dedicada a compreender as relações entre subordinados e dirigentes, os motivos que levam o “grande número” a aceitar a prevalência do “pequeno número”. No centro, portanto, está o problema da dominação, que somente se mantém, no longo prazo, pela organização e por uma ação que busque a hegemonia, ou seja, a afirmação de uma concepção do mundo, de uma cultura.
A segunda vertente compõe uma teoria do Brasil, país em que as classes sociais transferiram para o Estado as tarefas típicas que lhes deveriam caber – a organização dos consensos, a modelagem da administração pública, o desenvolvimento, a defesa da soberania. Com isso, uma parte da estrutura estatal – os “militares”, mais bem organizados – terminou por agir com maior desenvoltura política, reforçando as guinadas autoritárias, a democracia imperfeita, a hipertrofia dos vértices.

No ensaio de sua autoria, que fecha o livro, Oliveiros argumenta que o processo político-social que se seguiu à redemocratização fez com que se perdesse a “grande política” e as personalidades passassem a magnetizar as atenções. A solução do enigma fundacional do país – o da organização autônoma da sociedade e da articulação entre Estado e mundo da vida social – permaneceu em aberto, sem que surgissem sujeitos capazes de promover “políticas dirigidas para o futuro” e projetos nacionais.

O livro é uma bela homenagem a Oliveiros S. Ferreira. Mas não contém nenhuma hagiografia. Trata-o com o respeito que merecem os grandes intelectuais: criticamente, com isenção e objetividade. Ajuda-nos, assim, a ampliar nossa capacidade de explicar o mundo e o país em que vivemos.

Marco Aurélio Nogueira é professor de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (Neai) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Paulo.

 


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