ARTE

Print Friendly

Um cinema de fragmentos

Carlos Adriano mergulha em acervos de imagens do Brasil para encontrar a matéria-prima de seus filmes experimentais

ANA WEISS | ED. 241 | MARÇO 2016

 

Retrato de Santos Dumont em movimento gerado pelo mutoscópio encontrado no Museu Paulista

Retrato de Santos Dumont em movimento gerado pelo mutoscópio encontrado no Museu Paulista

Carlos Adriano costuma citar Pablo Picasso quando é questionado a respeito do papel histórico de sua produção experimental. “Eu não procuro, eu encontro”, diz a frase do pintor cubista espanhol que o cineasta paulistano usa para explicar o “quase acaso” dos achados que servem de matéria-prima para seus filmes, raridades desconhecidas ou esquecidas. Há quase 20 anos, o cineasta, doutor em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), mergulha em arquivos à procura de registros cinematográficos remotos.

Em algumas dessas investidas ele encontrou material que mostra, por exemplo, Alberto Santos Dumont interessado e envolvido, de certa forma, no nascimento do cinema (1895). Ou, ainda, fragmentos de filmes indicando que o médico José Roberto Cunha Salles pode ter sido o primeiro cineasta brasileiro. E também que o poeta e professor Décio Pignatari realizou algumas inacabadas experiências cinematográficas, filmes de ficção que abandonou no meio e permaneceram desconhecidos até Carlos Adriano descobri-los.

Os trabalhos de Carlos Adriano Jerônimo de Rosa são essencialmente experimentais, distantes do circuito comercial, admirados nos meios acadêmicos e em festivais internacionais. Hoje ele faz seu segundo estágio de pós-doutorado na ECA-USP com o projeto “Found footage: Reapropriação de arquivo como método para os estudos de cinema”. O termo found footage (em tradução livre, trecho de filme encontrado) é um procedimento que pode ser considerado como o gênero cinematográfico do qual Carlos Adriano é hoje o principal representante no Brasil. Ele define os elementos do gênero como “filmes que reciclam, reeditam e ressignificam imagens alheias”. Como parte do projeto, o cineasta assume este ano o primeiro curso de found footage da cadeira de cinema da ECA-USP como professor convidado na pós-graduação e orientará oficinas na graduação do curso de cinema. Também está prevista a realização de três filmes.

Foi o terceiro curta de Adriano, Remanescências, de 1997, que marcou sua entrada no gênero. A obra se desenvolve a partir de 11 fotogramas do que se acredita ser a primeira filmagem feita no Brasil, em 1897, por Cunha Salles. “Embora eu não tenha programado o filme como um manifesto, o formato de Remanescências configurou-se bastante radical e alegórico”, diz. “Mas, passados 19 anos, mesmo reconhecendo toda a radicalidade do filme, eu o faria diferente. Seria mais radical ainda.”

Das ruínas à rexistência, de 2007, como outros de seus filmes, registra, ao lado das imagens encontradas, as etapas de pesquisa e produção. Desta vez são os resquícios de filmes de Pignatari produzidos em 1961 e 1962. O cineasta reuniu os trechos de Ruínas para o futuro, sobre a greve dos vidreiros de Osasco (SP) em 1910, e Ponto de encontro, uma história de amor passada entre os trilhos dos trens que ligavam Osasco a São Paulo. “Provavelmente ninguém jamais tinha visto esse material”, diz o diretor. O filme foi selecionado para o Festival de Cinema de Locarno (Suíça) daquele ano.

Há também uma intenção de justiça histórica no cinema de Carlos Adriano. “Não me agradava ver a desqualificação que historiadores impingiam à figura de Cunha Salles e seu papel de fundador do nosso cinema”, diz o cineasta. “Por ser prestidigitador, médico e bicheiro, não se reconhecia nem se admitia que o fragmento que Salles havia depositado no Arquivo Nacional poderia ter sido filmado por ele”, diz o cineasta. Em sua tese de doutorado em 2008, que teve apoio da FAPESP, Carlos Adriano voltou ao assunto. Em um trecho, ele afirma: “Se a autoria do filme é questionável, é evidente a apropriação que Cunha Salles fez desses fotogramas”. Por esse raciocínio, se Salles pode não ser o primeiro captador de imagens do cinema brasileiro, ele estaria, como Carlos Adriano, retrabalhando imagens registradas por outros. “O tal nascimento do cinema brasileiro, então, talvez tenha ocorrido com um found footage”, escreve.

Cena de Das ruínas à rexistência, que recupera filmes inacabados do poeta Décio Pignatari

Cena de Das ruínas à rexistência, que recupera filmes inacabados do poeta Décio Pignatari

Santos Dumont: Pré-cineasta?, o filme sobre a máquina pré-cinematográfica do inventor, primeiro longa-metragem de Carlos Adriano originou-se de seu doutorado. A máquina é o mutoscópio, um aparelho encontrado pelo cineasta no Museu Paulista da USP que funciona nos moldes das primeiras experiências mundiais de imagens em movimento. Composto por cartões com imagens estáticas organizadas circularmente, como em um carretel, o mecanismo criava o movimento graças a uma manivela.

Para o professor da ECA-USP Ismail Xavier, que orientou Carlos Adriano na pesquisa, o cineasta “recupera procedimentos e a independência radical do cinema americano dos anos 1970, que chamamos de estrutural e que é pouquíssimo conhecido por aqui”. O diretor Cacá Diegues, que estava na primeira exibição de Santos Dumont: Pré-cineasta?, no Festival de Tiradentes (MG) em 2011, escreveu em um artigo para o jornal O Estado de S. Paulo que tinha a “incômoda sen-sação de estar testemunhando uma outra invenção do cinema, um cinema que estava perdido e foi recuperado pelas mãos mágicas” do autor.


Matérias relacionadas

LUIS FERLA
Paulicéia 2.0 reúne dados sobre a transformação da cidade de São Paulo
CLAUDIA BAUZER MEDEIROS
Professora da Unicamp fala sobre a origem das humanidades digitais
PESQUISA BRASIL
Humanidades digitais, Paulicéia 2.0, blecautes e Kepler-186