RESENHAS

Print Friendly

Um testemunho sobre Lasar Segall

Lasar Segall: Múltiplos olhares | Celso Lafer | Imprensa Oficial | 192 páginas | R$ 60

CLAUDIA MATTOS AVOLESE | ED. 241 | MARÇO 2016

 

Resenha_Lasar SegallNa história da arte brasileira, poucos artistas receberam tanta atenção dos estudiosos quanto Lasar Segall. Em grande parte, graças à presença ativa do Museu Lasar Segall em São Paulo, mas também pelo mérito de sua complexa e rica obra, nas últimas duas décadas a produção de Segall foi objeto de inúmeras exposições, debates e publicações acadêmicas, tanto no Brasil quanto no exterior. Portanto, parece legítimo nos perguntarmos qual seria a relevância da publicação de mais este livro sobre o artista.

Trata-se de uma coletânea de artigos produzidos por Celso Lafer ao longo de um período de 30 anos, durante os quais o autor esteve constantemente envolvido com a obra do artista e com o Museu Lasar Segall. Assim, a maior parte do material presente no livro já foi publicada, como afirma o próprio autor, desculpando-se pelas inúmeras repetições que de fato ocorrem nas 185 páginas da obra, em outros livros, catálogos de exposição, ou proferida em forma de palestra em ocasiões de abertura de eventos e homenagens. Desta forma, para os que procuram uma leitura renovada da produção de Segall ou buscam conhecer melhor os debates acadêmicos gerados em torno de sua obra, este livro não trará muitos benefícios. Ainda assim, a publicação tem sua importância e encontrará seu lugar nas estantes de livros produzidos sobre o artista.

Para bem compreender Lasar Segall: Múltiplos olhares não podemos nos aproximar dele esperando uma obra sobre Lasar Segall. O que temos em mãos na verdade é algo bem diferente: trata-se, de fato, de um testemunho. Do testemunho do encontro de Celso Lafer, também ele uma figura de interesse público, com o artista. O tom biográfico do livro permeia todos os textos. Ao aproximar-se da obra, Celso Lafer pensa sempre, e em primeiro lugar, na pessoa singular do artista que ele conheceu e com quem conviveu desde a infância. As obras retratando pogroms e as produzidas em função da expe-riência de duas Grandes Guerras são para o autor, acima de tudo, testemunhos da humanidade de Segall, de sua empatia e capacidade de comunicação desse sentimento na obra. Podemos afirmar, assim, que o conceito fundamental que rege a composição do livro de Lafer é o de zakhor – “lembrar” –, evocado pelo próprio autor como o fundamento da cultura judaica que compartilha com Lasar Segall. Tal perspectiva se confirma na segunda parte do livro. Esta é, em minha opinião, a mais instigante e inovadora da presente publicação. Nela encontramos uma descrição dos laços e da história de convivência íntima das famílias Lafer e Klabin que não achamos em outras publicações. O autor generosamente compartilha suas memórias, tecendo uma história que importa não apenas porque Celso Lafer é uma figura pública que sem dúvida terá seu lugar na história política e cultural do Brasil, ou porque, como diz Lafer, ela revela a “rede de proteção que criou um espaço de autonomia” para o processo criativo de Lasar Segall, mas acima de tudo porque ela nos ajuda a reconstruir toda uma época, todo um ambiente político-cultural e o modus vivendi de uma parcela importante da elite paulista de origem judaica, da qual os personagens citados foram peças fundamentais.

Como diz o autor, as famílias Klabin e Lafer são ligadas por laços de parentesco. Selman Lafer era tio do patriarca Mauricio Klabin, pai de Jenny Klabin, esposa de Lasar Segall. Mauricio foi o responsável por trazer Selman, bisavô de Celso Lafer, ao Brasil. Igualmente, a família de Lasar Segall já tinha vínculos com as famílias Klabin e Lafer antes de sua vinda ao Brasil, uma vez que um dos irmãos de Mauricio, Salomão Klabin, havia se casado com Luba, irmã de Lasar Segall. Celso Lafer conta como a família Klabin/Lafer se estabeleceu no Brasil, fala da criação e das atividades da Cia. Fabricadora de Papel, fundada por Mauricio e da qual seu pai foi diretor por muitos anos. Fala também de seu envolvimento com o projeto e com a criação do Museu Lasar Segall. Outro mérito do livro de Celso Lafer é o de resgatar a figura de Jenny como intelectual, mencionando sua importante atividade de tradutora.

De fato, a memória de pessoas e de toda uma época que nos ajuda hoje a entender, entre outros, a própria história do Museu Lasar Segall parece ser o verdadeiro legado deste precioso livro.

Claudia Mattos Avolese é professora do Instituto de Artes e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 


Matérias relacionadas

ARTE
Acompanhe, pelas fotos de Léo Ramos Chaves, o trabalho de restauração que...
ARTE
Trabalho de restauração amplia o conhecimento sobre o barroco
LUX BOELITZ VIDAL
Pioneira da etnoestética atuou na demarcação de terras indígenas