ARTE

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Uma especialista em voz

Regina Machado concilia pesquisa acadêmica e carreira de cantora

LAURO LISBOA GARCIA | ED. 243 | MAIO 2016

 

Regina e Tom Zé, parceria iniciada nos anos 1980, quando a cantora participava dos shows do compositor

Regina e Tom Zé, parceria iniciada nos anos 1980, quando a cantora participava dos shows do compositor

Multiplicar-se única, título de uma canção de Tom Zé que dá nome ao CD independente que a cantora, compositora, pesquisadora e professora Regina Machado lançou no final de 2015 só com canções do compositor, diz bastante sobre sua atuação na área artística e acadêmica. Regina se desdobra em diversas funções musicais, trilhando caminhos a partir de um trabalho centrado no estudo da voz.

Graduada em música popular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é professora no Instituto de Artes (IA), ela publicou em 2011 o livro A voz na canção popular brasileira – Um estudo sobre a Vanguarda Paulista (Ateliê Editorial). A obra, resultado de sua dissertação de mestrado apresentada em 2007 na Unicamp, investiga a abordagem vocal daquele movimento musical independente dos anos 1980. “Escolhi esse período porque revelou novas possibilidades de realização vocal em consequência da compreensão dos padrões entoativos da língua falada”, diz a cantora. O canto que incorpora o ritmo e os padrões de fala é um traço comum entre artistas da Vanguarda Paulista como Ná Ozzetti, Tetê Espíndola e Arrigo Barnabé.

Há uma conexão notável entre as porções artística e acadêmica de Regina, que se reflete em seus discos, da escolha do repertório até o elaborado trabalho de arranjos e interpretação. A cantora ingressou no ambiente universitário “tardiamente”, aos 27 anos. Na idade em que os jovens costumam sair do ensino médio direto para a faculdade, ela havia se dedicado a tocar e cantar na noite. Entre outras atividades, fez vocais de apoio para Tom Zé. “Aquele universo musical me surpreendeu”, relata Regina. “Não era só música, havia também a performance, e ele falava de coisas como filosofia oriental, semiótica e literatura. Algo me mostrou que ali estava um caminho que eu queria seguir.” Nos anos 1990 a cantora fundou uma escola própria, Canto do Brasil, que existe até hoje no bairro paulistano da Lapa, e teve entre suas alunas a cantora Mônica Salmaso.

Em seus quatro CDs, lançados desde 2000, entre autores menos conhecidos e composições próprias, ela também se dedicou a reinterpretar canções de Chico Buarque, Edu Lobo e Caetano Veloso, fugindo dos clássicos de cada um. “Minha carreira acadêmica foi se delinear de acordo com essas referências musicais. Acredito que tudo parte do ofício – fazer, ouvir, cantar.” Foi daí que veio a matéria-prima para o desenvolvimento acadêmico da cantora. “A música que sempre me encantou e foi o motivo do meu desejo de realização profissional me levou a estudar e entender os elos que me trouxeram até aqui.”

CD recém-lançado, o quarto da carreira da cantora, no qual ela se desdobra em diversas funções musicais

CD recém-lançado, o quarto da carreira da cantora, no qual ela se desdobra em diversas funções musicais

Dois dos marcos dessa trajetória são Luiz Tatit e Dante Ozzetti, artistas independentes ligados ao ambiente alternativo do mercado da música de entretenimento em que se consolidou o movimento Vanguarda Paulista. Ozzetti é o produtor do disco em que Regina canta Tom Zé. Tatit escreveu o prefácio de seu livro. Sob orientação dele, Regina defendeu doutorado em linguística e semiótica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) em 2012, com a tese Da intenção ao gesto interpretativo – Análise semiótica do canto popular brasileiro, ainda não publi-cada em livro.

“Regina é uma cantora que se interessou em entender como as canções são compostas e foi por isso que procurou pesquisa e orientação”, conta Tatit. “Ela queria ter alguns critérios de análise sobre como extrair interpretações específicas para determinadas canções. O que está por trás disso talvez seja o estudo da semiótica, que a instiga a uma visão mais ampla de construção do sentido, nas modalidades auditivas ou visuais. E ela mergulhou nisso.”

Além da satisfação que sente como pesquisadora, Regina valoriza em particular o trabalho de professora por causa do contato com os alunos. Entre eles cita destaques da nova geração, como os cantores Lineker e Lívia Nestrovski. “São artistas que ainda estão conquistando espaço”, observa. O contato entre gerações se dá também na pesquisa, como no projeto liderado por Regina no IA-Unicamp chamado “Vox Mundi – Grupo de estudos da voz popular midiatizada, erudita e dos povos tradicionais”. Ela se reúne semanalmente com nove alunos que orienta na pós-graduação, além da cantora Magda Pucci, diretora musical do grupo Mawaca, sua ex-aluna.

“Cada aluno tem seu trabalho em uma pesquisa própria, mas todos estão conectados à minha, ou seja, trabalham com a voz e a construção dos sentidos”, diz Regina. Em 2013 e 2015, o grupo organizou dois eventos acadêmico-artísticos na Unicamp, denominados Encontro de Estudos do Canto e da Canção Popular, com shows, palestras, aulas e mesas de debate. Entre os artistas que participaram estavam Tatit, o músico, compositor e ensaísta José Miguel Wisnik, o cantor, compositor e violonista Roberto Mendes e o cantor, compositor, violonista e poeta Tiganá Santana. “Foram experiências incríveis para todos, dentro e fora da universidade, pela possibilidade de diálogo e para entendermos que as artes estão dentro da universidade porque são parte fundamental da produção humana”, conta Regina.


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