ARTE

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Dança na rua

Companhia de coreógrafa da Unicamp usa jogos e improvisação nas apresentações em lugares públicos

FLÁVIA FONTES OLIVEIRA | ED. 244 | JUNHO 2016

 

Cenas do espetáculo Suportar...

Cenas do espetáculo Suportar

Quando a norte-americana Holly Cavrell chegou ao Brasil, em 1989, com uma bolsa Fulbright de pesquisador visitante, encontrou no Departamento de Artes Corporais do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (IA-Unicamp) um ambiente que hoje define como “bruto”. Ela vinha de uma experiência de oito anos na Suécia como bailarina e coreógrafa, depois de ter dançado em companhias estáveis nos Estados Unidos. Chamou a sua atenção a ausência no Brasil de continuidade entre as atividades didáticas e a prática fora da universidade. Em grande medida, sua atuação  procurou meios para desfazer essa barreira.

Holly nunca se desligou da Unicamp. Primeiramente foi professora visitante (de 1989 a 1998) e em seguida professora plena. Desde 2012 ela é chefe do Departamento de Artes Corporais. Já nos anos iniciais, percebeu que, nos encontros com alunos, poderia colocar em prática o processo que vinha desenvolvendo no exterior, valorizando a história e as referências técnicas de cada um, sem procurar homogeneidade, como elementos centrais na composição dos espetáculos.

“Nunca tive a intenção de ter uma companhia convencional”, diz Holly. “No início dos anos 1990, comecei a experimentar jogos e improvisações com um grupo de bailarinos e foi dando certo.” Antes desses exercícios, a coreógrafa costuma propor aos membros do grupo leituras e materiais visuais em torno de um tema. “Muitas vezes, nas conversas, surgem outros rumos, novas sugestões, que experimentamos nos encontros seguintes”, conta.

...bailarinos se baseiam na própria experiência

…bailarinos se baseiam na própria experiência

As experiências chegaram a um público externo à Unicamp, de maneira contínua, quando, em 1995, nasceu a Cia. Domínio Público, com alunos da graduação e da pós-graduação do Departamento de Artes Corporais, embora o grupo não estivesse vinculado formalmente à universidade. Há cerca de 10 anos, o elenco, de 11 pessoas, segue junto e colabora na criação e na execução dos projetos. Calcular orçamento, escrever e pensar no figurino, por exemplo, são tarefas divididas. “É um grupo muito heterogêneo”, conta Holly. “Em comum, cada um busca ferramentas próprias como bailarino e criador.”

Ao dirigir um espetáculo, Holly gosta de trabalhar com indicações de roteiro e não com sequências coreografadas movimento a movimento. “Isso permite intervenções e invenções em tempo real, incluindo acidentes bem-vindos, coisas que acontecem sem ser planejadas, mas acabam mostrando organicidade”, afirma. Espetáculos do grupo, entre eles Suportar (2013) e Posso dançar para você? (2012), acontecem em lugares abertos, como praças, ruas e rodoviárias, e usam na prática artística o aprendizado adquirido nas pesquisas.

Holly nasceu em Nova York, em 1955, e cresceu em um lar no qual se cultivava o gosto pela arte, incluindo a dança. Otis Cavrell, seu pai, era cineasta, frequentou o Black Mountain College – instituição que existiu entre 1933 e 1957, voltada principalmente ao ensino das artes –, e estudou com Alwin Nikolais (1910-1993), criador experimental cujos trabalhos são marcados pela interação da dança com elementos cênicos como iluminação intensa ou jogos de espelhos no palco. Otis foi do conselho da Companhia de Alwin Nikolais até sua morte, em 1982. A mãe de Holly, Jean Cavrell, foi atriz, formada pela Old Vic Theater School de Londres, e teve como uma de suas professoras Selma Jeanne Cohen, historiadora da dança responsável pela primeira enciclopédia dessa arte.

Posso dançar para você?: coreografia criada para apresentação em locais abertos

Posso dançar para você?: coreografia criada para apresentação em locais abertos

Foram os pais, em um esforço para tirá-la “de casa e da frente da TV nas manhãs de sábado”, que incentivaram Holly a começar a fazer aulas de dança, aos 8 anos. Ela foi matriculada no curso preparatório da Juilliard School, de Nova York, recebendo aulas de dança e música, e iniciou sua carreira profissional na companhia de Martha Graham (1894-1991) aos 17 anos. Depois dançou com o grupo de Paul Sanasardo, ex-aluno de Martha e parceiro da bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), nome de referência na dança contemporânea.

O doutorado de Holly, Dando corpo à história, defendido na própria Unicamp em 2012 e publicado em livro no fim do ano passado pela editora Prismas, traduz essa trajetória. O estudo não apenas revela as relações entre os artistas da dança e seus contextos ao longo da história como também fala da própria experiência de Holly como pesquisadora do corpo. “Mapear a grande história da qual deriva a minha própria história é uma forma de me situar no passado, e também uma forma de traçar esse passado em mim”, escreveu em sua tese.


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