CARREIRAS

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Pelos jardins do mundo

Após 23 anos entre Londres e Cingapura, a botânica Daniela Zappi volta ao Brasil para trabalhar no Jardim Botânico do Rio

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 244 | JUNHO 2016

 

Carreiras_PerfilEm 1986, pouco antes de começar o mestrado na Universidade de São Paulo (USP), a botânica Daniela Zappi ganhou de presente de sua orientadora um par de luvas de couro. “Fui estudar cactos”, lembra. Então com 21 anos de idade, ela embarcou para Minas Gerais para coletar e estudar espécies de cactáceas nos campos da cadeia do Espinhaço, região montanhosa que ocupa parte do Brasil central. Nesse período, conheceu o botânico inglês Nigel Taylor, com quem mais tarde se casou. As luvas foram úteis durante esse período, mas tiveram de ser aposentadas. Em 1992, após concluir o doutorado, também na USP, e trabalhar como professora no curso de graduação em biologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, Daniela mudou-se para a Inglaterra acompanhando o marido, à época pesquisador do Jardim Botânico Real de Kew, em Londres.

Não demorou muito para a botânica paulista ser contratada pelo Jardim Botânico Real, no qual ocupou cargos de pesquisa e de chefia nas áreas de taxonomia e sistemática neotropical. “Meu objetivo era desenvolver estratégias e metodologias para promover a conservação de espécies brasileiras por meio de informações taxonômicas”, diz. Daniela iniciou e supervisionou a digitalização de coleções do herbário da instituição, que conta com inúmeras plantas coletadas no Brasil e depositadas em seu acervo. No ano passado, esse programa de repatriamento de informações sobre plantas brasileiras liberou para acesso público on-line cerca de 100 mil imagens de espécies nativas que estão no jardim botânico inglês (ver Pesquisa FAPESP nº 229).

Enquanto esteve na Inglaterra, Daniela não deixou de trabalhar em projetos com pesquisadores brasileiros, entre eles botânicos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 2011, a pesquisadora mudou-se para a Ásia, novamente acompanhando o marido, que havia se tornado diretor do Jardim Botânico de Cingapura, um importante centro de investigação e conservação de plantas. Daniela passou três anos trabalhando nos Jardins da Baía, em Cingapura, onde foi responsável por projetos de educação, interpretação e pesquisa sobre plantas tropicais. Em 2014, ela voltou a Kew, agora como pesquisadora no Departamento de Conservação. No ano seguinte, mais de duas décadas após deixar o Brasil, Daniela foi nomeada diretora de pesquisa no Jardim Botânico do Rio.

Aos 51 anos, ela se diz motivada para voltar ao país. “Vamos planejar as estratégias de pesquisa científica para os próximos cinco anos”, explica. Os desafios vão além. Segundo ela, a parte educativa precisa ser afinada com o conhecimento gerado pela instituição e o corpo de pesquisadores precisa ser renovado. “Sinto-me mais segura e preparada para contribuir e desenvolver pesquisa no Brasil.” Desta vez, será seu marido que a acompanhará no retorno ao país.


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