HUMANIDADES

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O estrangeiro invisível

Brasileiros nos Estados Unidos evitam ser vistos como hispânicos, exceto quando conveniente

CARLOS FIORAVANTI | ED. 245 | JULHO 2016

 

Nova York, 1o de maio de 2010: centenas de latinos protestam contra uma lei que exigia documentos de residência de imigrantes suspeitos de serem ilegais

Nova York, 1o de maio de 2010: centenas de latinos protestam contra uma lei que exigia documentos de residência de imigrantes suspeitos de serem ilegais

Brasileiros que se instalam nos Estados Unidos, em geral com planos de voltar ao país de origem depois de alguns anos, tendem a manter a invisibilidade e a lutar para não serem confundidos com os hispânicos, a não ser em lugares e situações em que essa aproximação é benéfica. De modo oposto, os filhos de japoneses nascidos no Brasil, depois de serem rejeitados pela tradicional sociedade oriental, quando migram para o Japão assumem a identidade e os hábitos brasileiros, expondo-se em desfiles de Carnaval e exibindo comportamentos dissonantes, como falar português em voz alta em público, de acordo as análises de pesquisadores estrangeiros e brasileiros.

Nos Estados Unidos, o primeiro movimento é a recusa de uma identidade indesejada. “Ao chegar aos Estados Unidos, a primeira coisa que os brasileiros aprendem é dizer: ‘Não sou hispânico e não falo espanhol’, porque em geral os americanos acham que o português é falado somente em Portugal, não no Brasil”, conta a antropóloga Maxine Margolis, professora emérita da Universidade da Flórida, Estados Unidos. Autora de um livro de referência entre os estudiosos dessa área, Little Brazil: Imigrantes brasileiros em Nova York, de 1994, ela abriu no dia 16 de junho uma série de conferências sobre os movimentos migratórios de brasileiros no Museu da Imigração, em São Paulo, organizada pelo Observatório das Migrações, sediado no Núcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp). Segundo ela, a maioria dos norte-americanos não distingue as diferentes culturas latinas, mais de três décadas depois da famosa viagem de 1982 do presidente Ronald Reagan, que propôs um brinde “ao povo da Bolívia” em um jantar oficial em Brasília.

Os hispânicos representam hoje quase 50 milhões entre os 310 milhões de moradores dos Estados Unidos, enquanto os brasileiros devem formar um contingente entre 350 mil do Censo de 2010 dos Estados Unidos e 1,4 milhão estimado pelo Itamaraty. Não são, porém, mundos sempre à parte. Maxine observou que a afinidade com a comida e a música latina, raramente sentida no Brasil, emerge em cidades como Miami, cidade da Flórida com elevada proporção de sul-americanos, onde brasileiros se sentem à vontade e com relativa facilidade encontram restaurantes que servem arroz com feijão. “Brasileiros já me disseram: ‘Viemos à Florida e descobrimos que somos latinos!’”, relata a pesquisadora.

“Para o brasileiro que chega aos Estados Unidos, o reconhecimento como hispânico é quase um susto”, observa a socióloga Ana Cristina Braga Martes, professora da Fundação Getulio Vargas. Ela chegou a essa conclusão ao entrevistar seus conterrâneos na década de 1990 em Boston como parte de seu doutorado, sob a orientação da antropóloga Ruth Cardoso (1930-2008), e depois reiteirou essa visão por meio de outros estudos que fez sobre o tema. Segundo ela, bolivianos, colombianos e outros latinos também perdem a primazia da identidade nacional ao serem enquadrados no mesmo grupo étnico hispânico, como todos os que vêm da América Latina são chamados nos Estados Unidos. A classificação, ainda que indesejada, pode facilitar o acesso a benefícios e a políticas públicas. “Vários imigrantes brasileiros me contaram que se aproveitaram da cota para hispânicos para colocar os filhos nas escolas ou conseguir um emprego”, diz Ana Cristina. “Dependendo do contexto, a identidade nacional é flexível. Ser brasileiro deixa de ser tão importante quando a prioridade é assegurar uma melhor inserção econômica ou social em outro país.”

Em seu livro New immigrants, new land: A study of Brazilians in Massachusetts, a socióloga descreve as estratégias de construção da identidade e de sobrevivência no mercado de trabalho. Em geral os brasileiros aceitam trabalhos mais simples – as mulheres como faxineiras e os homens na construção civil ou em restaurantes –, mas a queda do status em parte é compensada pelos rendimentos maiores e pelas relações sociais mais formais, segundo a pesquisadora. “Os imigrantes que entrevistei dizem que se sentem bem tratados e que é possível ter dignidade e uma vida melhor sendo faxineiros.” Em um estudo realizado em 2012, ela verificou que os brasileiros em Boston preferiam a rede de assistência médica norte-americana, na qual eram atendidos por meio de programas para populações carentes, do que a brasileira.

Uma terra distante
“No Brasil a identidade é simplesmente presumida, algo abstrato, raramente expressa e reconhecida por meio da cidade ou estado de origem, da classe econômica e da profissão. Nos Estados Unidos – e também em Portugal –, os brasileiros são vistos essencialmente como estrangeiros de uma terra distante e exótica, sem diferenciação”, diz Maxine Margolis. “Notei esse fenômeno em Nova York e depois outros pesquisadores viram o mesmo em cidades da Flórida e da Califórnia. Consequentemente, muitos se perguntam: ‘Quem sou eu?’.” Em seu livro mais recente, Goodbye, Brazil: Emigrantes brasileiros no mundo, a antropóloga norte-americana comenta que os filhos dos brasileiros que emigraram talvez aceitem mais facilmente que os pais o fato de serem latinos, desse modo ingressando em grupos mais organizados.

No Japão, também examinado nesse livro, os brasileiros descendentes de japoneses, chamados de nikkeijins, também são recebidos com frieza pelos nativos. “O orgulho étnico decai quando, depois de serem vistos de forma positiva no Brasil por causa da herança japonesa, são tratados como inferiores no Japão por causa da herança brasileira”, diz ela. A reação dos migrantes brasileiros no Japão – estimados em cerca de 250 mil – é peculiar. “Em vez de se tornarem mais japoneses, como pretendiam, os nikkeijins se tornam mais brasileiros, usam roupas verde-amarelas, desfilam em Carnaval, muitos pela primeira vez, e falam português alto em público. Nos prédios de moradia, os japoneses reclamam que os nikkeijins tocam música alto, não sabem reciclar e, principalmente, namoram na rua.”

Livros
MARGOLIS, M. L. Little Brazil: Imigrantes brasileiros em Nova York. Papirus, 1994.
MARGOLIS, M. L. Goodbye, Brazil: Emigrantes brasileiros no mundo. Contexto, 2013.
MARTES, A. C. B. New immigrants, new land: A study of Brazilians in Massachusetts. Gainesville: University Press of Florida, 2011.


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