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Prêmio destaca produção científica na área de oncologia no Brasil

Estudos levaram à obtenção de uma molécula com atividade antitumoral e de marcadores biológicos da saliva para tipo comum de câncer de boca

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 14:55 9 de agosto de 2016

 

Carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) objeto de estudo da pesquisa

Proteína da glândula salivar do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) pode se tornar um medicamento antitumoral e anticoagulante

A criação de novas estratégias de combate ao câncer é a ganhadora da sétima edição do prêmio Octávio Frias de Oliveira, concedido em três categorias pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) em parceria com o Grupo Folha. A premiação oficial acorreu ontem (9/8), às 19h30, no teatro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e irá laurear pesquisadores cujos estudos levaram à obtenção de uma molécula com atividade antitumoral e anticoagulante e de marcadores biológicos da saliva que podem indicar a evolução de um tipo comum de câncer de boca.

Os vencedores na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia são pesquisadores do laboratório de Bioquímica do Instituto Butantan, coordenados pela bioquímica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi. Como resultado de uma pesquisa iniciada em 2006, eles obtiveram uma proteína a partir da glândula salivar do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) com potencial para se tornar um medicamento antitumoral e anticoagulante (ver Pesquisa FAPESP nº 201).

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Coordenados pela bioquímica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, pesquisadores do Instituto Butantan obtiveram uma proteína a partir da glândula salivar do carrapato-estrela com potencial para se tornar um medicamento antitumoral e anticoagulante

Em testes in vitro, a proteína, chamada Amblyomin-X, inibiu a proliferação de 23 linhagens de células tumorais humanas, sem, no entanto, agir sobre as células sadias. Os pesquisadores verificaram também que a Amblyomin-X, inicialmente caracterizada como anticoagulante, tem afinidade por células tumorais. Uma vez incorporado por elas, reduz a atividade do proteassoma, estrutura responsável pela eliminação de resíduos do metabolismo celular, e das mitocôndrias, responsáveis pela respiração celular. Com resultado, a célula entra em apoptose (morte celular programada) e a proliferação das células tumorais é interrompida.

Com seu mecanismo de ação esclarecido, a Amblyomin-X foi submetida a testes pré-clínicos em modelos animais (camundongos e coelhos), os quais indicaram uma toxicidade aceitável. Mais recentemente, foi iniciada a transferência da tecnologia de produção escalonada para uma empresa farmacêutica nacional, a União Química, com a qual trabalha em colaboração neste projeto. A parceria foi concebida no âmbito do Centro de Toxinologia Aplicada, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP. O projeto conta ainda com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Se tudo correr bem, os ensaios clínicos para avaliar a segurança do produto em seres humanos devem começar no primeiro semestre de 2017 envolvendo pacientes de diferentes hospitais”, conta Ana Marisa. A expectativa é que o possível medicamento se mostre eficaz contra o melanoma, o câncer de pâncreas e o renal.

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A equipe da pesquisadora Adriana Franco Paes Leme, do LNBio, verificou que proteínas da saliva podem indicar a evolução de um tipo bastante comum de câncer de boca

Marcadores para câncer de boca
Na categoria Pesquisa em Oncologia ganharam pesquisadores do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp) e do próprio Icesp. Eles verificaram que proteínas da saliva podem indicar a evolução do carcinoma oral de células escamosas (OSCC), um tipo bastante comum de câncer de boca.

Em um estudo publicado em 2015 na revista Scientific Reports, o grupo, coordenado pela pesquisadora Adriana Franco Paes Leme, do LNBio, comparou as proteínas de amostras de saliva e de vesículas extracelulares salivares de 10 indivíduos saudáveis e de 20 com OSCC, com e sem lesão ativa, por meio da técnica de proteômica baseada em espectrometria de massas. A análise mostrou diferenças significativas na composição de proteínas da saliva, permitindo uma classificação dos indivíduos saudáveis e com câncer oral com 90% de acurácia.

O estudo fortalece a possibilidade de uso de proteínas da saliva como marcador biológico complementar não invasivo da progressão de tumores de boca. O grupo de pesquisa pretende agora avaliar amostras de saliva, sangue e tecidos de um número maior de indivíduos saudáveis e com lesões orais, ativas ou não, para validar essa nova abordagem. “A saliva se mostrou uma potencial fonte de marcadores de prognóstico que podem ajudar na decisão do tratamento”, ela diz. “Isso é animador porque se trata de um fluido que pode ser obtido sem a necessidade de procedimentos invasivos.”

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Aristides Pereira Maltez Filho: responsável pela consolidação de uma das mais antigas instituições de combate ao câncer no país

Personalidade de destaque
O médico baiano Aristides Pereira Maltez Filho ganhou uma menção honrosa pela consolidação de uma das mais antigas instituições de combate ao câncer no país, o Hospital Aristides Maltez (HAM), em Salvador.

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1957, ele assumiu em 1992 a presidência da Liga Bahiana Contra o Câncer (LBCC), em Salvador, prosseguindo o trabalho do pai, Aristides Maltez, que idealizou um instituto para atender pessoas carentes com câncer. Inaugurado com apenas 15 leitos em 1952, nove anos depois da morte de seu criador, o HAM se tornou um dos principais centros de combate ao câncer no Nordeste.

Como presidente da LBCC, instituição mantenedora do HAM, Maltez Filho implantou centros de radioterapia, unidades de terapia intensiva, centros de imagem, cuidados paliativos e assistência domiciliar, além de aumentar a capacidade do hospital para 232 leitos, destacando-se na especialização e no aprimoramento de profissionais de saúde e na implantação de campanhas de prevenção de câncer na Bahia. “Atendemos em média 3.500 pessoas por dia, exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde, o SUS”, informa.

Projetos
1.
Centro de Toxinas, Imuno-Resposta e Sinalização Celular (nº 2013/07467-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Hugo Aguirre Armelin; Investimento R$ 15.415.700,0 (FAPESP)
2. Estudo da regulação de ADAMs em câncer oral (nº 2010/19278-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa — Apoio a Jovens Pesquisadores; Pesquisadora responsável Adriana Franco Paes Leme; Investimento R$ 1.142.370,0 (FAPESP)
3. EMU: aquisição de um espectrômetro de massas acoplado a cromatografia líquida para permitir ampliar a capacidade de atendimento de usuários e disponibilizar novas tecnologias no Laboratório de Espectrometria de Massas do Centro de Biologia Molecular Estrutural (ABTLUS) (nº 2009/54067-3); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Programa Equipamentos Multiusuários; Pesquisadora responsável Adriana Franco Paes Leme; Investimento R$ 1.364.190,0 (FAPESP)

Artigos científicos
MORAIS, K.L. et al. Amblyomin-X induces ER stress, mitochondrial dysfunction, and caspase activation in human melanoma and pancreatic tumor cell. Molecular and Cellular Biochemistry. v. 415, n. 1-2, p. 119-31. 2016.
PACHECO, M.T.F. et al. Specific Role of Cytoplasmic dynein in the mechanism of action. Experimental Cell Research. v. 340, n. 2, p. 248-258. jan. 2016.
WINCK, F.V. et al. Insights into immune responses in oral cancer through proteomic analysis of saliva and salivary extracellular vesicles. Scientific Reports. v. 5, n. 16305, 2015.


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