EDITORIAL

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Debate sem fim

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 246 | AGOSTO 2016

 

Em 1945 foi divulgado nos Estados Unidos o documento “Ciência: a fronteira sem fim”, possivelmente a publicação oficial mais importante para definir o papel do país como líder mundial em ciência, tecnologia e inovação. Preparado por Vannevar Bush, que chefiara o órgão coordenador dos esforços de pesquisa e desenvolvimento norte-americanos durante a guerra, um de seus desdobramentos foi a criação da National Science Foundation, agência pública de financiamento à pesquisa, que inspirou a fundação de diversos congêneres, inclusive a FAPESP.

Bem recebido, o relatório Bush também foi objeto de críticas: por um lado, foi visto como pouco propositivo em termos de envolvimento governamental na pesquisa; por outro, argumentou-se que o setor empresarial poderia assumir as atividades propostas, mediante redução de impostos. O diretor do Escritório de Orçamento do governo brincou com o título do documento, sugerindo que fosse alterado para “Ciência: a despesa sem fim”.

O caso, narrado na apresentação do diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, à reprodução do relatório Bush na Revista Brasileira de Inovação, mostra que a crítica ao financiamento público de pesquisa não é recente, tampouco exclusividade brasileira. É comum que em épocas de escassez orçamentária dispêndios governamentais sejam objeto de escrutínio mais severo – atenção desejável também na bonança. O problema está em análises superficiais de questões complexas.

Uma política que privilegie o retorno imediato do investimento em ciência tende a sacrificar a chamada pesquisa básica, que é realizada sem considerações quanto à finalidade prática, na definição de Bush. Ao ampliar o entendimento da natureza e de suas leis, pode resultar em conhecimento aplicado e em soluções inovadoras, mas não tem esse objetivo de partida. A reportagem de capa discute o mal-entendido tão comum da oposição entre pesquisa básica e aplicada e se desdobra na análise do papel do Estado no financiamento do sistema de C&T, apresentando dados pouco conhecidos.

É comum ouvir que os Estados Unidos são o modelo de participação empresarial no financiamento à pesquisa realizada em universidades; entretanto, nos últimos anos, essa porcentagem variou de 5% a 7% do total investido. O argumento de que nos EUA são as empresas as responsáveis pelos investimentos geradores de inovações e prosperidade econômica é confrontado, entre outros, pelos estudos da economista ítalo-americana Mariana Mazzucato, que mostra que o setor privado só se interessou por áreas como a internet e a biotecnologia depois de o sistema público de pesquisa arcar com investimentos vultosos nas fases de maior risco. Recursos públicos financiaram a maioria das grandes descobertas científicas e muitos desenvolvimentos tecnológicos que estão na base dos avanços nas comunicações e na saúde, apenas em alguns casos com objetivos de aplicação imediata.

Investir com objetivos imediatistas traz retornos mais minguados – em conhecimento e em inovação. O desafio é como distribuir os recursos para atender as expectativas da sociedade a curto prazo e, ao mesmo tempo, respeitar o tempo de cada tipo de pesquisa científica, de forma que seus resultados beneficiem também gerações futuras.

Nem só das engrenagens da ciência trata esta edição. Ilustrando os benefícios da pesquisa básica para a economia, reportagem na página 50 mostra o impacto do projeto de sequenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, causadora do “amarelinho”, na produtividade dos laranjais. Já a reportagem sobre chikungunya é quase um chamado à pesquisa, ao mostrar quão pouco se sabe sobre essa doença debilitante cuja incidência cresce de forma inquietante. O novo recorde de distância e taxa de transmissão de dados por fibra óptica é descrito em reportagem na página 70, enquanto a página 80 mostra o benefício do uso de recursos tecnológicos em sala de aula, principalmente para alunos com dificuldades de aprendizagem.


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