HUMANIDADES

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Dedicação integral ao teatro

Professor e escritor, o crítico Sábato Magaldi era tido como um dos três principais nomes em sua área no Brasil

MÁRCIO FERRARI | ED. 246 | AGOSTO 2016

 

Sábato Magaldi: reconhecimento à importância de Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade

Sábato Magaldi: reconhecimento à importância de Nelson Rodrigues e Oswald de Andrade

Em seus 89 anos, Sábato Magaldi correspondeu integralmente à expressão “homem de teatro”. Crítico, historiador e professor, foi também um intelectual que interagia diretamente com o que era produzido nos palcos. Magaldi morreu no dia 17 de julho em São Paulo, em decorrência de infecção generalizada. Suas cinzas foram depositadas no mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.

“Diferentemente da crítica atual, sua geração foi muito atuante na prática teatral, ensinando aos estudantes, profissionais e amantes das artes cênicas as tendências, movimentos e procedimentos de criação, integrando o teatro brasileiro ao internacional”, afirma a diretora teatral Cibele Forjaz, professora do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), que foi aluna de Magaldi.

Considerado um dos três principais críticos da área no Brasil, ao lado de Décio de Almeida Prado (1917-2000) e Bárbara Heliodora (1923-2015), Magaldi nasceu em 1927 na cidade de Belo Horizonte, onde se formou em direito. Aos 21 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a publicar críticas de teatro no Diário Carioca. Em 1953, transferiu-se para São Paulo para lecionar na Escola de Arte Dramática (EAD), a convite de seu fundador, Alfredo Mesquita. Três anos depois, tornou-se redator do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, então muito influente culturalmente, no qual escreviam intelectuais como Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes e Antonio Candido. Magaldi trabalhou no suplemento até 1969, já acumulando a função de crítico de teatro do Jornal da Tarde, que ocupou desde sua fundação, em 1966, até 1988.

Na EAD, Magaldi foi contratado para a cadeira de História do Teatro e, em 1962, criou a de Teatro Brasileiro. Entre suas obras em livro, o crítico escreveu Panorama do teatro brasileiro (1962), até hoje uma referência na área, e organizou as peças de Nelson Rodrigues por temas em quatro volumes. Magaldi era amigo do dramaturgo e foi um dos responsáveis por destacá-lo como o fundador do teatro moderno no Brasil. Em Panorama também reafirmou e fundamentou a importância do teatro de Oswald de Andrade. Em 1988, publicou Moderna dramaturgia brasileira, no qual deu continuidade ao trabalho histórico, tratando então de dramaturgos e espetáculos mais recentes, com destaque para o autor Plínio Marcos.

“Sábato Magaldi foi um pioneiro nos estudos teatrais brasileiros, tanto na constituição de um corpus crítico sobre nossa produção dramática moderna como no exercício do pensamento crítico”, opina Luiz Fernando Ramos, também professor da ECA-USP. “Exerceu a militância cotidiana nos jornais e publicou ensaios e análises de largo fôlego, alguns inclusive voltados para a própria crítica.” Uma das polêmicas das quais participou via páginas de jornais foi com o encenador José Celso Martinez Correa por causa de sua crítica ao espetáculo Gracias, señor, em 1972.

Magaldi doutorou-se na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP em 1972, com tese sobre Oswald de Andrade, e fez livre-docência em 1983 na ECA-USP, sobre o teatro de Nelson Rodrigues. De 1985 a 1987, lecionou na Universidade de Paris III (Nouvelle Sorbonne). Em 1988, tornou-se professor titular de Teatro Brasileiro no Departamento de Artes Cênicas. De 1989 a 1991, deu aulas na Universidade de Aix-en-Provence, França. Entre 1975 e 1979, foi o primeiro secretário municipal da Cultura da cidade de São Paulo, na gestão do prefeito nomeado Olavo Setúbal.

O crítico ocupava desde 1995 a cadeira 24 da ABL. Deixa cerca de 50 cadernos escritos à mão, com anotações sobre o teatro brasileiro que conheceu durante a trajetória de crítico. Sua recomendação à mulher, a escritora Edla van Steen, teria sido que a publicação ocorra apenas 30 anos depois de sua morte


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