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Sons inovativos

Pioneirismo e alta tecnologia fazem parte da história do departamento fundador do Instituto de Artes

RICARDO CALIL | Unicamp 50 anos | SETEMBRO 2016

 

Formas geradas pela interação de música com tecnologia digital no trabalho do compositor Jônatas Manzolli

Formas geradas pela interação de música com tecnologia digital no trabalho do compositor Jônatas Manzolli

Uma bailarina pode dançar e fazer música ao mesmo tempo? Graças à tecnologia, sim. Um programa desenvolvido por pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (Nics) da Unicamp capta os movimentos da bailarina e os transforma em sons que dialogam com outros, criados por músicos. É uma interface para ser usada além da arte porque pode unir performance, neurociência e musicoterapia ao sonorizar o gestual de crianças com paralisia cerebral, de modo a expandir seu universo interior por meio da música e a ajudar na recuperação de movimentos. Outro exemplo do trabalho desenvolvido no Nics poderá ser conferido na estreia da ópera Descobertas, de autoria do matemático e compositor Jônatas Manzolli para orquestra, dança, coro cênico e cenário interativo –  40 intérpretes em cena, todos do Instituto de  Artes (IA) da Unicamp – no Teatro Iguatemi, em Campinas, nos dias 27 e 28 de setembro, como parte das comemorações dos 50 anos da universidade.

O Nics desenvolve projetos que congregam pesquisadores de diversas áreas de conhecimento e trabalham na interface entre música e tecnologia. “Esse conceito de interdisciplinaridade desenvolvido nos núcleos da Unicamp continua sendo pioneiro”, conta Manzolli, coordenador adjunto do Nics. A diversidade de disciplinas está visível na origem do núcleo, em 1983, que teve a participação de professores como Raul do Valle, do Departamento de Música do IA, Carlos Arguello, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), Jacques Vielliard, do Instituto de Biologia (IB), e Furio Damiani (1943-2016), da Faculdade de Engenharia Elétrica (FEEC). “Como sou músico e matemático, é um sonho encontrar a pluralidade que temos.”

Além do Nics, as pesquisas de música têm forte presença em outro núcleo interdisciplinar, o Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural (Ciddic) – ambos ligados administrativamente à Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), mas com um diálogo intenso com o IA. O objetivo do Ciddic é intensificar a pesquisa, a execução e a circulação da música contemporânea, com ênfase em compositores brasileiros. Para tanto, promove a interação entre dois de seus órgãos: o Centro de Documentação de Música Contemporânea (CDMC), que tem 6 mil partituras de música contemporânea internacional e 3.500 de compositores brasileiros, e a Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), que difunde esse acervo em concertos, gravações, registros audiovisuais e transmissões públicas pela televisão ou pela internet.

Midialogia
A produção de centros como Nics e Ciddic se liga às pesquisas realizadas no Departamento de Música, inaugurado em 1971 como núcleo fundador do IA, em torno do qual se formaram os demais. O primeiro  diretor do IA foi  o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite. O Departamento de Música tem hoje 700 dos 1.600 alunos do  instituto. Os 150 alunos do programa de pós-graduação, o primeiro no estado a criar doutorado nessa área, desenvolvem pesquisas em música de concerto, popular, contemporânea e experimental. Entre os pesquisadores com estudos que repercutiram além das fronteiras do instituto estão, além de Manzolli, especialista em música eletroacústica, o compositor e pianista José Antônio Rezende de Almeida Prado (1943-2010) e Rafael dos Santos, pesquisador, entre outros temas, da influência do jazz na música popular brasileira.

Em 1989, foi criado no IA o primeiro curso de graduação em música popular do país. “Foi um reconhecimento a uma das mais ricas e prolíficas tradições culturais brasileiras, que permaneceu muito tempo à margem da universidade”, afirma José Roberto Zan, professor do departamento.

Além do trabalho de pesquisa em musicologia, há toda uma parte de pesquisas práticas no IA das quais saíram músicos populares, como o violonista Chico Saraiva, grupos, como o Barbatuques, e professores para outras instituições, caso de Ivan Vilela, hoje na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), violeiro e autor da ópera caipira Cheiro de mato e de chão.

“Inovação é uma marca da graduação e da pós-graduação do IA”, afirma Gilberto Sobrinho, coordenador-geral da pós-graduação do instituto. A graduação compreende os cursos de bacharelado e licenciatura em artes visuais, dança e música e os bacharelados em artes cênicas e midialogia. Este foi criado em 2004 com a proposta de estudar convergências e especificidades de mídias como fotografia, cinema, televisão, vídeo, rádio e as digitais – o que reflete o empenho do instituto em atender novas demandas trazidas pelos avanços tecnológicos. Como a graduação em cinema do IA é reconhecida sobretudo pela excelência teórica, a área de midialogia tornou-se um polo de produção audiovisual e um dos cursos mais concorridos da Unicamp, com 50 candidatos por vaga,  atrás apenas de medicina e arquitetura e urbanismo.

Fernando Hashimoto, diretor do IA, antecipa outra inovação: a criação, em 2018, de uma graduação em gestão cultural – segundo ele, “um conhecimento que se tornou fundamental para a produção artística no Brasil do século XXI”. Na pós-graduação, os programas são música, artes da cena, artes visuais e multimeios, que engloba cinema e fotografia. As atividades de pesquisa do IA são incentivadas desde a graduação. “Priorizamos as propostas em que as pesquisas acadêmicas e os processos de criação se alimentem mutuamente”, conclui Hashimoto.


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