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Uma ponte entre as ciências

Interdisciplinaridade caracteriza o Instituto de Estudos da Linguagem

DIEGO VIANA | Unicamp 50 anos | SETEMBRO 2016

 

Carlos Vogt, José Aristodemo Pinotti, Antonio Candido e Paulo Renato Souza (da esquerda para a direita) na inauguração da Biblioteca Central da Unicamp, em 1989

Carlos Vogt, José Aristodemo Pinotti, Antonio Candido e Paulo Renato Souza (da esquerda para a direita) na inauguração da Biblioteca Central da Unicamp, em 1989

Forjado no período áureo do estruturalismo, quando pensadores como o linguista Ferdinand de Saussure e o antropólogo Claude Lévi-Strauss influenciavam todas as ciências humanas, o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) nasceu com o propósito ambicioso de firmar pontes entre as humanidades e as exatas. Na concepção do filósofo Fausto Castilho (1929-2015), que integrou a comissão de planejamento da implantação do campus da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no final dos anos 1960, o IEL não deveria ser uma faculdade de letras, no formato tradicional, mas a primeira faculdade de linguística do Brasil. “O projeto era não só novo, mas muito inovador, num contexto cultural em que qualquer faculdade de letras se inspirava automaticamente na USP [Universidade de São Paulo]”, afirma o linguista Rodolfo Ilari, professor emérito do IEL, um dos fundadores e ex-diretor do instituto (1991-1995).

Flávio Ribeiro de Oliveira, atual diretor do instituto e professor de grego antigo, conta que Castilho fez “questão absoluta de que o instituto não se chamasse Faculdade de Letras da Unicamp”. Mesmo com a ausência do filósofo, que ficou afastado da Unicamp entre 1972 e 1986, a recomendação pesou quando o IEL foi fundado, em 1977. Da decisão decorreram características que fazem do IEL uma escola com perfil único no país. “As mais importantes são a ênfase na pesquisa, desde a graduação, e a interdisciplinaridade, que é nossa vocação”, afirma o diretor. Segundo membros veteranos do instituto, sua fundação se deu em um momento em que a linguística era vista como uma ciência que tinha relações com a área de exatas.

O IEL foi gestado no final da década de 1960 na unidade que hoje é sua vizinha no campus, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), então chamado Departamento de Planejamento Econômico e Social (Depes). Em 1969, já funcionavam separadamente os departamentos de Economia e Planejamento Econômico (em substituição ao Depes), Linguística e Ciências Sociais. O decreto estadual que criou o IEL é de 21 de março de 1977, mas dois de seus departamentos o precederam: o de Linguística (1968) e o de Teoria Literária (1975).

Quatro estudantes de letras da USP, ligados ao professor Antonio Candido de Mello e Souza, da mesma universidade, cujas contratações foram pedidas por Castilho a Zeferino Vaz, são considerados os fundadores do IEL: Carlos Vogt (reitor da Unicamp entre 1990 e 1994), Haquira Osakabe, Rodolfo Ilari e Carlos Franchi. Todos foram enviados para fazer mestrado em linguística em Besançon, na França, entre 1969 e 1971. O objetivo era que, na volta, estabelecessem o instituto de linguística concebido por Castilho, primeiro como parte do IFCH, mais tarde como entidade separada.

Vogt, de perfil conciliador, era escalado para conversar com Zeferino de modo a tentar convencê-lo que deveria criar um modelo diferente dos tradicionais institutos de letras. “Em uma dessas conversas, ele me disse ‘Se você trouxer o Candido, nós fazemos’”, conta. “Fui ao Antonio Candido e disse que se aceitasse ir para a Unicamp seria a nossa chance de fazer um instituto realmente novo, do jeito que ele queria.” O pesquisador da USP topou e foi o primeiro diretor do IEL, até 1981, quando voltou a dedicar-se exclusivamente à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Como Candido dividia as atenções entre Unicamp e USP, era Carlos Franchi quem despachava, no cargo de diretor-associado.

Professor do IEL desde a criação formal do instituto, Alcir Pécora enfatiza o engajamento do corpo docente no período. “O compromisso pessoal era imenso”, conta o pesquisador, que foi monitor de Haquira Osakabe, já em 1975, no IFCH. “A correção das provas tinha a participação de todos os professores, porque todos interagiam, conheciam os alunos.” Segundo Oliveira, esse foi “o período heroico do IEL, que coincide com o tempo de formação da Unicamp, com Zeferino Vaz”. Nessa época, conta o diretor, as regras de contratação eram mais flexíveis e os fundadores podiam convidar os professores que quisessem para áreas específicas. “Zeferino perguntava quem era necessário, fazia-se um convite e um contrato, e a pessoa vinha.” Desses convites resultaram as chegadas de professores como Aryon Rodrigues, Cláudia Lemos e Roberto Schwarz.

o filósofo Fausto Castilho, que defendeu a criação do Instituto de Estudos da Linguagem

o filósofo Fausto Castilho, que defendeu a criação do Instituto de Estudos da Linguagem

Apoio em três cursos
A atuação do IEL está apoiada sobre um tripé composto pelos cursos de letras, linguística e estudos literários. “Este último é uma graduação única no Brasil”, diz Oliveira. “Nas outras faculdades, só há a opção de prestar letras.” Enquanto as demais escolas vinculam o ensino e a pesquisa das línguas às literaturas nacionais, no curso de letras da Unicamp a divisão por país e a ligação com idiomas específicos não são centrais. Os eixos principais são as diferentes abordagens teóricas da literatura. É por isso que, na Unicamp, os docentes são frequentemente reconhecidos como especialistas em uma abordagem ou em um pensador específico. É o caso, por exemplo, do alemão Walter Benjamin, estudado no IEL pelos professores Márcio Seligmann-Silva e Jeanne-Marie Gagnebin.

A ênfase na pesquisa se traduz no fato de que há tantos pós-graduandos quanto graduandos atualmente matriculados no instituto: cerca de 500 de cada. São 100 ingressantes por ano na pós e outros 100 na graduação. A diversidade também está presente na composição do corpo docente. “Hoje exatamente metade dos professores do Departamento de Teoria Literária vem de formações em outras áreas de humanidades”, conta Jefferson Cano, docente do departamento e graduado em história. Isabella Tardin Cardoso, professora de letras clássicas e pesquisadora das obras teatrais de autores da Antiguidade, como Plauto e Terêncio, chama atenção para a carga de disciplinas voltadas para a formação em pesquisa. “Ao longo do curso, o aluno vai sendo encaminhado para sua monografia final ao longo de três ou quatro matérias”, diz. “Ele sai da graduação com monografias que muitas vezes têm a qualidade de um mestrado.”

A vocação interdisciplinar aparece tanto na pesquisa quanto na docência. Os fonoaudiólogos da Unicamp, por exemplo, são formados pela Faculdade de Ciências Médicas e pelo IEL simultaneamente. Desde 2007, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), vinculado ao IEL, oferece um mestrado em divulgação científica e cultural, que forma pesquisadores capazes de atuar tanto na pesquisa quanto na imprensa (ver reportagem). Já a área de letras clássicas recebeu um impulso importante graças a um pedido do IFCH, cujo curso de filosofia tem quatro semestres obrigatórios de latim ou grego antigo. “O curso de filosofia colaborou para que os cursos de latim e grego se estruturassem de maneira mais científica no IEL”, afirma Isabella. “Na área dos estudos clássicos, o desafio é não só a interação com outros campos de estudos da linguagem, mas ir além do IEL e dialogar com a história, a filosofia e a arqueologia”, comenta o linguista Paulo Sérgio de Vasconcellos, especializado em latim. “É um sonho da área ter uma formação interdisciplinar no sentido amplo.” Vasconcellos é também curador do Centro Cultural do IEL, que oferece palestras, concertos e sessões de cinema abertos para a comunidade universitária e os moradores da região.

Um campo de pesquisa em que o IEL se destaca é o das línguas indígenas. Para a pesquisadora Maria Filomena Sândalo, cujos estudos envolvem tanto os idiomas indígenas quanto o português, uma das melhores estratégias contra a extinção das línguas dos povos autóctones é o ensino bilíngue. “Em uma boa educação bilíngue, as línguas precisam ser detalhadamente estudadas. É importante garantir materiais didáticos de qualidade, que mostrem as diferenças e similaridades dessas línguas com o português, a língua dominante do país”, diz. “Nesse sentido, os trabalhos em descrição e teoria podem ajudar as comunidades.”

Um exemplo concreto da ponte imaginada por Fausto Castilho entre humanidades e ciências exatas é o do Grupo de Estudos de Prosódia da Fala, coordenado por Plínio Barbosa, que é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). “Como o IEL é aberto para a pesquisa interdisciplinar, o fato de eu ser engenheiro chamou atenção na hora de ser contratado”, relata o pesquisador. “Logo no começo trabalhei em um projeto com colegas da engenharia elétrica.” Usando equipamentos semelhantes aos de um bom estúdio de gravação, o trabalho de Barbosa inclui o uso de algoritmos e modelos computacionais que permitem simular os ritmos e a entonação da fala. “Passamos a maior parte do nosso tempo medindo esses ritmos”, diz. “Mesmo sem conteúdo nenhum, só de ouvir uma fala as pessoas conseguem identificar se parece um discurso político, uma reportagem ou uma pregação religiosa.” Com esse trabalho, o grupo de Barbosa contribui para a formação de peritos da Polícia Federal, na área de “reconhecimento de locutores”, ou seja, a identificação de vozes em gravações.

Outra parceria do IEL com a Faculdade de Engenharia Elétrica (hoje Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, FEEC) da Unicamp resultou na criação e no desenvolvimento, ao longo da década de 1990, com apoio da FAPESP, do programa de computador de conversão texto-fala Aiuruetê, que significa em tupi “papagaio verdadeiro”. A pesquisa foi coordenada por Eleonora Albano, professora de fonética e fonologia do Departamento de Linguística e coordenadora do Laboratório de Fonética e Psicolinguística (Lafape) do IEL, e por Fábio Violaro, do Laboratório de Processamento Digital da Fala da FEEC. A equipe da engenharia forneceu a tecnologia de conversão digital de texto para fala, mas o som era metálico e sem inflexões. O Lafape deu um timbre humano à voz eletrônica e refinou a pronúncia para que o discurso fosse inteligível e ficasse de acordo com o português falado no Brasil. Isso tornou a fala do equipamento apropriada para ensino a distância e educação de deficientes visuais. Segundo Eleonora, que foi visitante residente do Departamento de Linguística e Análise do Discurso dos Bell Labs, nos Estados Unidos, o programa “era representativo do estado da arte de então”.


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