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Novas estratégias contra a Aids

Em macacos, anticorpos detiveram a replicação do HIV

CARLOS FIORAVANTI | Edição Online 16:06 20 de outubro de 2016

 

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Anthony Fauci apresentou os resultados de experimentos que podem levar a uma nova estratégia de tratamento e prevenção da AIDS

de Chicago

No final da tarde de segunda-feira, dia 17, diante de uma plateia de quase 2 mil pessoas, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), apresentou os resultados de experimentos realizados por sua equipe, em colaboração com outros centros de pesquisa dos Estados Unidos, que podem levar a uma nova estratégia de tratamento e prevenção da AIDS. É o uso de anticorpos que bloqueiam a ação da integrina α4β7, uma proteína que controla a ação de células do sangue conhecidas como CD4, importante no combate ao vírus HIV.

“Ainda não é a cura, mas conseguimos deter a replicação do vírus”, disse ele em sua apresentação na primeira sessão plenária do Congresso HIV Research for Prevention (HIVR4P), que seguirá até sexta, dia 21, em Chicago, nos Estados Unidos. Se avançar como esperado, essa estratégia poderia resolver ou amenizar um problema do tratamento de pessoas com HIV/AIDS: os medicamentos antivirais eliminam com eficácia a replicação do HIV, mas o vírus volta a se replicar logo depois de a medicação ser interrompida.

As conclusões que ele apresentou baseiam-se em um estudo realizado com 15 macacos e publicado em 14 de outubro na Science. Durante 90 dias, contados a partir da quinta semana após a infecção, sete animais receberam uma medicação antiviral (imunoglobuina G) e oito, o anticorpo. Depois desse período, o HIV voltou a se multiplicar nos animais que receberam antiviral, enquanto os do grupo não apresentaram sinais de aumento da carga viral mesmo depois de nove meses depois da interrupção do tratamento.

“É uma prova de conceito em modelos animais, e estamos planejando agora uma prova de conceito em seres humanos”, disse ele a Pesquisa FAPESP, após a apresentação. Por ser a avaliação de uma hipótese – uma prova de conceito –, em geral não se sabe se a proposta é factível, mas neste caso os pesquisadores tiveram sorte. O anticorpo foi aprovado pela Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos em 2014 com o nome de vedolizumab, para tratamento de doenças inflamatórias intestinais.

“Temos de avaliar a segurança e a eficácia da droga com muito cuidado, porque foi aprovada contra colite, não contra Aids”, disse Fauci. O NIAID está planejando um teste clínico com 17 a 27 pessoas com HIV para verificar se seria possível obter os mesmos resultados obtidos em macacos. Se der certo, segundo Fauci, a etapa seguinte seria um teste em escala maior, com centenas de participantes.

Em 30 anos, a Aids deixou de ser uma doença fatal e se tornou tratável, mas a transmissão do vírus continua crescendo. Os 28 países da Comunidade Europeia registraram quase 30 mil novos casos por ano, com crescimento da transmissão entre homens (+44% de 2005 a 2014) e redução da transmissão heterossexual (-33%, no mesmo período), segundo Ruxandra Draghia-Akli, diretora geral de Pesquisa e Inovação da Comissão Europeia. “Um programa de prevenção com o grupo de homens que fazem sexo com homens deveria ser prioridade na Europa”, disse ela.

Nos Estados Unidos, registram-se cerca de 50 mil novos casos por ano e no Brasil, cerca de 40 mil. No mundo todo, 28 milhões de pessoas recebem o diagnóstico positivo para HIV a cada ano.

“Os medicamentos de ação prolongada serão muito importantes para tratar e prevenir a Aids”, disse Myron Cohen, diretor do Institute for Global Health and Infectious Diseases. Até o momento, nenhuma das vacinas previstas funcionou de modo satisfatório, embora outras estratégias, como os medicamentos profiláticos e dispositivos como os aneis vaginais com microbicina, estejam sendo avaliados e debatidos no congresso de Chicago.

Artigo científico
Siddappa N. Byrareddy, S.N. et al. Sustained virologic control in SIV+ macaques after antiretroviral and α4β7 antibody therapy. Science , v. 354, n. 6309, p. 197-202, 2016.


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