EDITORIAL

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Computadores e dados

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 249 | NOVEMBRO 2016

 

O processamento de dados em larga escala, que se tornou possível com a disseminação de computadores muito potentes, é um poderoso instrumento para muitas áreas de pesquisa. Supercomputadores com capacidade de processar milhões de linhas de código por segundo são utilizados nas mais diversas áreas do conhecimento para solucionar problemas ou fazer projeções.

A situação do Brasil no ranking mundial dos 500 computadores de mais alto desempenho é tema de reportagem à página 37. Três dos quatro equipamentos brasileiros que constam da lista compõem um cluster localizado em um simpático prédio inspirado no chapéu de Santos Dumont nas instalações do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, no Rio de Janeiro; o quarto fica no Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Cimatec), em Salvador, na Bahia.

O retrato atual da supercomputação no país não é animador. Em 2004, o Brasil chegou a ocupar a 9ª posição, com nove equipamentos em funcionamento, e hoje está em 17º lugar. Além do retrocesso em termos comparativos internacionais, outra fonte de preocupação sinalizada pela reportagem é a subutilização de supercomputadores em operação no país, em parte devido aos altos custos de manutenção e operação dos equipamentos. Importantes para o avanço da ciência e o desenvolvimento tecnológico, essas máquinas requerem uma cuidadosa política nacional de aquisição e uso.

Os supercomputadores são usados nas mais variadas áreas, como defesa e saúde, e na análise do clima – desde a previsão de chuva diária até a possibilidade de alteração da temperatura do planeta no futuro próximo. A reportagem de capa desta edição discute os resultados de simulações feitas com dois modelos climáticos processados em computadores de alto desempenho.

Os primeiros modelos computacionais criados para simular o ambiente do planeta utilizavam apenas dados sobre elementos físicos do clima, como água, ar e  luz do sol. Com o avanço da capacidade de processamento de dados e programação dos modelos, tornou-se possível aumentar o grau de detalhe, estimando, por exemplo, como mudanças na acidez dos oceanos causadas pelo aumento do dióxido de carbono no ambiente afetam cadeias alimentares marinhas.

Uma das dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores que trabalham com modelagem climática é um aparente paradoxo: como cada vez mais variáveis são consideradas nas simulações, e cada elemento está sujeito a variação, o resultado pode ser uma variação maior nos resultados das simulações. Uma previsão diferente da variação de temperatura ou do regime de chuvas pode resultar de simulações em modelos diferentes que privilegiem elementos diversos.

As simulações apresentadas na reportagem de capa utilizaram dois modelos climáticos para prever, basicamente, aumento ou queda de temperatura e de volume de chuva. A esses modelos globais foi acoplado um modelo de escala regional, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O objetivo foi além de projetar aumento ou redução de chuvas e temperatura no país: procurou-se prever o impacto dessas mudanças. Uma maior precipitação no meio da floresta pode ter um efeito pequeno, enquanto em uma região metropolitana pode ser devastador. Para tanto, foram inseridos dados sobre as condições econômicas, sociais e ambientais de todos os municípios brasileiros. As projeções resultantes das duas simulações são semelhantes para cerca de 80% do território nacional, o que dá robustez aos resultados.

Uma aplicação interessante e útil da capacidade de processar uma grande quantidade de dados é retratada na reportagem sobre a genealogia acadêmica brasileira feita a partir das informações constantes na Plataforma Lattes, do CNPq. Os dados extraídos da base federal de 4,5 milhões de currículos foram complementados por informações do Banco de Teses da Capes e da Academia Brasileira de Ciências. Além do interesse histórico e sociológico, metodologias baseadas na genealogia acadêmica poderão, futuramente, ser utilizadas no campo da avaliação, medindo o impacto que um pesquisador teve na formação de novas gerações.

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A revista apresenta, a partir desta edição, uma pequena mudança: a seção Dados e Projetos passará a ser ocupada exclusivamente por Dados. Os auxílios à pesquisa recém-aprovados nas modalidades Projeto Temático e Jovens Pesquisadores estarão destacados na página da Biblioteca Virtual do Centro de Documentação e Informação da FAPESP. A BV, como é conhecida, é fonte referencial de informação para a pesquisa apoiada pela Fundação: em 5/11/2016, trazia informações sobre 89.841 auxílios à pesquisa e 126.804 bolsas no país e no exterior concedidos pela FAPESP.


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