MEMÓRIA

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Escavações orientais

Vindo do Japão em 1934, arqueólogo Kiju Sakai produziu rica coleção a partir de expedições científicas no interior do Brasil

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 249 | NOVEMBRO 2016

 

Aquarelas feitas por Sakai para retratar fragmentos de cerâmica coletados durante trabalho de campo

Aquarelas feitas por Sakai para retratar fragmentos de cerâmica coletados durante trabalho de campo

O antropólogo e arqueólogo japonês Kiju Sakai desembarcou no Brasil em maio de 1934, em meio a um intenso fluxo migratório, iniciado três décadas antes, em junho de 1908, com a chegada de dezenas de famílias japonesas ao porto de Santos. No entanto, diferentemente da maioria dos imigrantes japoneses, em geral camponeses vindos para trabalhar em fazendas de café no interior de São Paulo, Sakai se envolveu em diversas expedições científicas pelo interior do país. As atividades faziam parte de um projeto mais amplo de pesquisa no âmbito do Instituto Kurihara de Ciências Naturais, fundado em 1931 na Fazenda Primeira Aliança, núcleo de colonização japonesa na região de Mirandópolis, interior paulista. Até então pouco conhecidos, os trabalhos de Sakai começam agora a ser mais bem estudados, evidenciando suas contribuições para a história da arqueologia no Brasil no início do século XX.

Kiju Sakai (1910-1986) nasceu em Tomakomai, no Japão, mas passou a infância em Sapporo. Após concluir os estudos, mudou-se para Tóquio, onde iniciou o curso de etnologia na Universidade Meiji Gakuin. Seu interesse científico manifestou-se cedo. Ainda criança Sakai se interessava pelas ligações fonéticas entre as palavras do japonês moderno e as dos antigos habitantes da província de Hokkaido, no norte do Japão. A vocação pela etnografia não raro o levava a passar horas em aldeias do interior do país observando o estilo de vida dos habitantes locais.

Sakai (centro) durante escavações de esqueletos humanos no noroeste de São Paulo

Sakai (centro) durante escavações de esqueletos humanos no noroeste de São Paulo

Assim que chegou ao Brasil, Sakai se juntou a outros imigrantes japoneses assentados na Fazenda Primeira Aliança. Logo se envolveu com as atividades de pesquisa desenvolvidas pelo Instituto Kurihara. Chefiado pelo lavrador Shinishi Kamiya (1893-1960), mentor das atividades científicas, o instituto investia em estudos sobre áreas como astronomia, meteorologia, zoologia, botânica, arqueologia, antropologia, história, entre outras. Sakai se tornou responsável por arqueologia e antropologia, passando a documentar o modo de vida dos habitantes do Vale do Ribeira e a empreender expedições científicas aos sambaquis no sul do estado de São Paulo. Ele coordenou pesquisas de campo em ao menos seis municípios do estado e escavações em sete sítios arqueológicos, além de descrições etnográficas dos índios guaranis e kadiweus.

As expedições resultaram na coleta de dezenas de artefatos de pedra e de cerâmica e também na descoberta de antigas estruturas indígenas e sambaquis, conforme verificou a historiadora Marcia Lika Hattori, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). Ao lado do arqueólogo André Strauss, professor visitante na Universidade de Tübingen, na Alemanha, ela analisou documentos produzidos por Sakai, fotos de campanhas arqueológicas da década de 1930 e aquarelas feitas pelo antropólogo japonês para retratar a cultura material e a coleção arqueológica resultante dos trabalhos de campo, composta por esqueletos humanos pré-históricos, instrumentos de pedra lascada, machados polidos, pontas de flechas, lanças e cerâmicas indígenas.

Capa da revista Natura, publicação científica do Instituto Kurihara para divulgação dos trabalhos de seus pesquisadores

Capa da revista Natura, publicação científica do Instituto Kurihara para divulgação dos trabalhos de seus pesquisadores

As atividades de pesquisa de Sakai prosseguiram intensamente até o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Em 1941 ele viajou ao Japão para levantar fundos para ampliar as atividades do instituto. No entanto, com o ataque da Marinha japonesa à base americana de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e a intensificação da guerra, foi proibido de voltar ao Brasil. Seu acervo encontrava-se exposto no Instituto Kurihara, cuja sede à época havia sido transferida para o bairro da Liberdade, em São Paulo. “Com a entrada do país na guerra, a situação dos imigrantes japoneses no Brasil se deteriorou”, explica Strauss. “Muitos passaram a se sentir intimidados por atos do governo, como o decreto que congelava seus bens.”

Preocupados com o destino do acervo, sobretudo dos esqueletos humanos exumados durante pesquisas arqueológicas empreendidas por Sakai, os membros do instituto no Brasil decidiram dividir a coleção para evitar que ela fosse confiscada. Uma parte ficou com um dos pesquisadores, Hidefumi Okubo. A outra foi guardada dentro de caixas com plantas e transportada até o Paraná em meio a outras caixas, despistando as autoridades.

Sakai voltou ao Brasil em 1967, mas somente em 1978 se encontrou com suas coleções arqueológicas e diários de campo. Preocupado em divulgar seus trabalhos, publicou em 1979 a versão em japonês de Notas arqueológicas do estado de São Paulo. Em 1981 lançou o livro em português, editado pelo Instituto Paulista de Arqueologia. Sakai viveu os últimos anos de vida em um asilo em Ferraz de Vasconcelos, na periferia de São Paulo. Em 2002, sua coleção foi doada à USP. Durante quase uma década a equipe do Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos, coordenado pelo bioantropólogo Walter Neves, dedicou-se à higienização, curadoria e organização desse material. A coleção arqueológica de Sakai está hoje exposta no Museu Histórico e Arqueológico de Lins, interior paulista.


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