RESENHAS

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O mundo misterioso do sadomasoquismo

Prazeres proibidos: Erotismo, gênero e limites da sexualidade | Maria Filomena Gregori | Companhia das Letras | 288 páginas | R$ 69,90

MÁRCIO FERRARI | ED. 249 | NOVEMBRO 2016

 

094_290_Resenha_EDU_249Na primeira das duas partes deste livro, a antropóloga Maria Filomena Gregori, professora da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp), apresenta uma face do erotismo contemporâneo que ganhou força e visibilidade nas últimas décadas. É o “erotismo politicamente correto”, na designação um tanto irônica da autora: aquele que enfatiza nas práticas sexuais a segurança e os benefícios à saúde e à autoestima. Esse território hoje iluminado e aberto a quem quiser ver leva Maria Filomena a estudar, na segunda parte, “um mundo misterioso”, nas palavras do prefácio escrito por Eliane Robert de Moraes, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e organizadora da Antologia de poesia erótica brasileira (editora Ateliê, 2015). Trata-se do universo do sadomasoquismo, que permitiu a Maria Filomena encarar o principal desafio a que se propôs ao editar em livro os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de 13 anos: “discutir as articulações entre prazer e perigo” em atividades cercadas de tabus que se desenrolam em “masmorras” (dungeons), nas quais jogos (plays) com chicotes, acessórios de couro, cordas atadas em nós e com a suspensão de corpos humanos tiram seus adeptos por algumas horas daquilo que chamam de vida “baunilha” – a rotina comum.

A fase exploratória da pesquisa consistiu em visitas a sex shops em São Francisco e Berkeley (EUA) e, algum tempo depois, São Paulo. São Francisco foi escolhida por ser considerada um “lugar de maior tolerância para o exercício de escolhas sexuais alternativas”. Ao contrário das lojas de cidades mais conservadoras, em que a imagem do corpo feminino era o atrativo mais visível e os brinquedos eróticos se apresentavam como destinados primordialmente a casais heterossexuais, em São Francisco esse padrão era quebrado nas lojas para gays e na Good Vibrations, criada em 1977 por Joani Blank, “especialista em saúde pública sintonizada com o feminismo”. Nesses sex shops, o sadomasoquismo era tratado como qualquer outra modalidade de sexo e, além dos artefatos destinados aos plays, eram oferecidos também manuais com regras de conduta para minimizar os riscos das práticas sadomasoquistas, em que são tênues os limites entre encenação, dor consentida e violência. O princípio que orientou a criação da Good Vibrations, contudo, é o oposto de uma normatização “politicamente correta”. Em um texto citado e endossado por Maria Filomena, Joani Blank afirma que “a ideia de que o prazer pelo simples prazer é motivação suficiente para a atividade sexual e que nenhuma forma de experiência sexual é moral, estética ou romanticamente superior a outra, é a filosofia subversiva por trás dos brinquedos sexuais”.

Quando a pesquisa chega a São Paulo, Filomena e sua equipe de pesquisadores recolhem informações em sex shops de várias regiões, com diferentes tipos de público, e encontram na área de comércio mais luxuoso da cidade o exemplo principal de “erotismo politicamente correto”, uma loja voltada quase exclusivamente ao público feminino, estimulado a “apimentar” suas relações estáveis. Ao contrário do que aconteceu em São Francisco, no Brasil essas lojas não surgiram por ativismo feminista, mas por demanda de mercado. Entretanto, abordar o fenômeno – assim como a emergência mais recente de produtos e serviços para as práticas sadomasoquistas – sob um ponto de vista exclusivamente econômico elimina indagações mais complexas sobre as transgressões às normas geradas por essas práticas.

Para a autora – que descreveu no livro mais de uma visita a clubes de sadomasoquismo, fez entrevistas e manteve contatos com redes de praticantes –, o interesse em investigar os rituais desse “mundo misterioso” reside “no fato de mobilizarem e mostrarem com força dramática […] as materializações e corporificações de normas de gênero e de sexualidade”. Sem subestimar a satisfação propriamente corporal que a confluência de dor e prazer traz aos praticantes do sadomasoquismo, Maria Filomena Gregori defende que suas representações têm um valor e uma função em si mesmas: “As paródias, os arremedos e as simulações produzidas mobilizam um jogo que põe em cena as posições de poder, as figuras que as ocupam e as marcas de diferenciação social, colocando-as em risco”.


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