HUMANIDADES

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As flutuações de Dostoievski

Segundo estudo, prestígio dos escritores russos na primeira era Vargas oscilou ao sabor da política

MÁRCIO FERRARI | ED. 250 | DEZEMBRO 2016

 

Xilogravura de Axl Leskoschek ilustra passagem de Os demônios, publicado no anos 1940

Xilogravura de Axl Leskoschek ilustra passagem de Os demônios, publicado no anos 1940

Em 1943, o jurista e jornalista Clovis Ramalhete, em artigo na revista Diretrizes intitulado “Dostoievski na rua do Ouvidor”, dizia que nos anos anteriores “sucessivamente foi Dostoievski no Brasil um romancista de morro, um novelista de beira-rio, um trocadilhista notívago e outros tipos frequentes no registro civil da literatura brasileira”. Não é possível saber ao certo a quem Ramalhete se referia cifradamente, mas a ironia é clara: o romancista russo Fiódor Dostoievski (1821-1881) havia se tornado uma referência literária onipresente no país, ainda que pudesse ser adaptado a contextos muito diferentes entre si.

O pesquisador Bruno Barretto Gomide, professor de língua e literatura russa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), tomou emprestado o título do artigo para sua tese de livre-docência, aprovada em agosto deste ano, que trata das relações entre a recepção da literatura russa nos meios políticos e culturais brasileiros e as “flutuações políticas da era Vargas” – referindo-se ao período de 1930 a 1945, em especial o regime ditatorial instaurado depois de 1937. Uma das conclusões da pesquisa é que, no fim dessa época (1944-1945), com a publicação de uma coleção de obras do autor pela editora José Olympio – que ficava na rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro –, Dostoievski “ganhou um caráter ecumênico” no Brasil.

Gomide, que havia estudado a recepção a Dostoievski no país entre 1888 e 1937 em seu doutorado, origem do livro Da estepe à caatinga (Edusp, 2011), dedicou-se durante oito anos à pesquisa da era Vargas, trabalhando em quatro eixos inter-relacionados: a crítica literária brasileira; o mercado editorial destinado aos russos, com destaque para a coleção da José Olympio; a atuação dos órgãos de censura estadonovistas em relação à literatura russa e a política cultural soviética para difusão internacional de seus escritores. Além do levantamento e da análise de textos de imprensa e livros publicados no Brasil, Gomide realizou, com apoio da FAPESP, viagens à Rússia (Moscou e São Petersburgo) e aos Estados Unidos (para consultas ao sistema de bibliotecas da Universidade Harvard), nas quais estudou, entre outros tópicos, a recepção à literatura russa em vários países “para detectar aproximações e diferenças em relação ao caso brasileiro”. Já com o objetivo de aferir os efeitos da censura estatal a Dostoievski no Brasil, Gomide verificou o aparecimento e desaparecimento do autor na coleção de livros didáticos da Faculdade de Educação da USP.

085-087_Dostoievski_2Xilogravura de Axl Leskoschek, austríaco radicado no Brasil, para a edição brasileira de Os irmãos Karamazov

Xilogravura de Axl Leskoschek, austríaco radicado no Brasil, para a edição brasileira de Os irmãos Karamazov

Queda abrupta
“A forma como os atores políticos e culturais se relacionaram com a literatura russa, mobilizando paixões pró e contra, permite traçar um bloco significativo da história cultural brasileira”, defende Gomide. Houve, segundo ele, entre o início e meados dos anos 1930, aquilo que o crítico Brito Broca qualificou de “febre de eslavismo”: várias editoras, muitas associadas a intelectuais e gráficas de esquerda, publicavam livros de escritores russos, coincidindo com as políticas de divulgação literária da União Soviética (URSS) e a formação, no plano internacional, de redes de apoio ao regime e ao povo do país.

Com o levante comunista liderado por Luiz Carlos Prestes em 1935 e a instauração do Estado Novo em 1937, a publicação de obras russas sofreu uma queda abrupta, só voltando a ganhar força no final de 1942. Gomide observa que, mesmo com essa oscilação, a literatura russa nunca esteve totalmente ausente do cenário brasileiro, mas os autores publicados eram os do século XIX, não os posteriores à revolução comunista de 1917. Seja na alta ou na baixa, a recepção brasileira durante o período sempre esteve referenciada por matizes políticos.

Durante a era Vargas, o pesquisador identifica três grupos de leitores críticos. Um deles defendia que a literatura russa do século XIX nada tinha a ver com o bolchevismo. Faziam parte desse grupo intelectuais católicos como Alceu Amoroso Lima e Tasso da Silveira, alguns deles vinculados ao integralismo (o movimento político brasileiro aparentado com o fascismo). “Para eles, a revolução havia enterrado a literatura russa”, afirma Gomide. Havia um segundo grupo que, apesar da dimensão antirrevolucionária de autores como o próprio Dostoievski, via uma relação direta entre suas obras e a revolução. “Eles consideravam que todos os escritores do período eram de esquerda e usavam como argumento o confronto de alguns, como Dostoievski e Leon Tolstoi (1828-1910), com o Estado”, diz Gomide. O terceiro grupo tinha uma visão intermediária: seus integrantes acreditavam que as obras desse conjunto de escritores “profetizava” o futuro próximo, mas não podia ser responsabilizada pela revolução. Uma figura de proa dessa tendência – que via Dostoievski “com um misto de fascínio e terror”— foi Gustavo Barroso, teórico do integralismo.

“A queda na publicação dos russos ocorrida com o Estado Novo coincide com a repressão policial violenta aos intelectuais de esquerda”, observa o pesquisador. “Os editores se assustaram e se viram dissuadidos de publicar os russos.” Um caso emblemático da mudança de cenário foi o do intelectual modernista Jaime Adour da Câmara, que, no final dos anos 1920, havia viajado para a URSS por interesse na literatura do país. Mas uma notícia na revista Dom Casmurro, em 1937, deu conta de que Adour havia abandonado um estudo sobre Tolstoi porque viajara “para o mato”. Gomide ressalta que vários outros intelectuais da época foram igualmente “para o mato”. “Os intelectuais de esquerda se calaram, e muitos vieram a trabalhar nas esferas do Estado Novo.”

Um momento-chave nessa fase foi a convocação policial do único tradutor direto do russo na época, Georges Selzoff. “A polícia o aconselhou a parar”, conta Gomide. Prontuários encontrados pelo pesquisador nos arquivos do Departamento de Ordem Pública (Deops) registram ações diretas de apreensão de materiais relacionados a assuntos russos. Em 1945, uma crônica do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Livros assassinados, lembrava a então recente perseguição a livros de todos os autores cujos sobrenomes terminassem em “ov” e “inski”.

Mesmo o regime soviético, segundo Gomide, nunca viu com bons olhos a literatura de Dostoievski. Seu material de difusão cultural para o exterior não incluía livros nem textos do autor. “Dostoievski era visto como um gênio cruel, um talento usado para o mal”, afirma o pesquisador. “Para o regime, as obras do autor eram pautadas por patologias e estados perversos que não correspondiam ao que uma sociedade do futuro desejava.” Gomide lembra que Dostoievski era, também do ponto de vista diretamente político, um personagem que o governo comunista preferia deixar de lado: todos os romances da fase final do escritor – os mais conhecidos, como Crime e castigo e Os irmãos Karamazov, e principalmente Os demônios – continham polêmicas com a esquerda russa.

Xilogravura de Axl Leskoschek, austríaco radicado no Brasil, para a edição brasileira de Os irmãos Karamazov

Xilogravura de Axl Leskoschek, austríaco radicado no Brasil, para a edição brasileira de Os irmãos Karamazov

Alma russa
As coisas começaram a mudar no Brasil conforme, no fim da ditadura Vargas, o governo se aproximou dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, em especial depois da batalha de Stalingrado, entre 1942 e 1943, na qual o Exército russo derrotou as tropas nazistas, marcando a virada do conflito. O mercado editorial brasileiro rapidamente reagiu aos novos tempos. A José Olympio lançou a coleção Dostoievski, a primeira no Brasil dedicada a um único escritor estrangeiro (simultaneamente a editora Globo publicava as obras do francês Honoré de Balzac). Nesse período de fim de ditadura, Gomide detecta uma conciliação entre as tendências de esquerda e direita. Nunca se publicou tanta literatura russa no Brasil como nessa época, embora na maioria das vezes por meio de traduções feitas do francês ou do inglês. O pesquisador contabilizou 83 títulos entre 1943 e 1945 – volume maior do que o da voga atual, iniciada em fins dos anos 1990, em que se destacam as traduções diretas consideradas de excelente qualidade feitas por nomes como Paulo Bezerra e Boris Schnaiderman (1917-2016). Este último, a rigor, já traduzia do russo desde a década de 1940.

Para Bezerra, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, que traduziu, entre outros, Crime e castigo, com mais de 120 mil exemplares vendidos desde 2002, “a tradução direta faz o leitor sentir a autenticidade das personagens e o ritmo da narrativa”. Na atual “febre de eslavismo”, a avaliação da popularidade de Dostoievski, para Bezerra, se deve “à atualidade dos problemas não resolvidos pela sociedade moderna e à forma revolucionária de seus romances, em que os representantes dos vários segmentos da sociedade se manifestam com a mesma importância”. Andrea de Barros, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que estudou a recepção de Dostoievski no Brasil, afirma que o início da boa acolhida internacional ao escritor, no século XIX, se deveu a uma ideia de que “havia naquela literatura uma espécie de redenção do positivismo europeu”. Segundo ela, “ainda hoje a ideia de uma ‘alma russa’, uma visão romântica da Rússia e dos russos, permeia o imaginário dos leitores brasileiros”.


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