EDITORIAL

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Tratando de temas difíceis

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 250 | DEZEMBRO 2016

 

Na reunião de pauta realizada pela equipe da Pesquisa FAPESP para definir as reportagens que compõem esta edição, uma das discussões foi sobre o equilíbrio dos principais temas abordados: capa sobre Aids, tratamentos para  dependentes de crack, acompanhamento do trabalho de identificação das ossadas desenterradas no cemitério de Perus em 1990, na capital paulista. A última edição do ano ficaria pesada demais?

Pelos temas, a resposta é afirmativa. Cogitou-se adiar alguma das pautas, mas todas tinham justificativa para permanecer: 1º de dezembro é o dia internacional de luta contra a Aids, momento adequado para uma discussão sobre os rumos do combate à epidemia. As reportagens sobre crack e Perus tratam de programas em parte dependentes de recursos municipais; a mudança de gestão que ocorrerá em janeiro torna oportuno apresentar os resultados alcançados até aqui.

A existência do chamado “gancho”, no jargão jornalístico, não é o único motivo de termos mantido as três no menu desta edição: apesar de tratarem de assuntos que podem ser considerados difíceis, as reportagens contribuem para a compreensão desses temas pelo público leitor e apresentam perspectivas e resultados animadores. A reportagem de capa mostra que a epidemia de Aids continua se alastrando. Enormes avanços permitiram o aumento da longevidade e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes HIV positivos nas últimas décadas. As pesquisas continuam, com destaque para a prevenção da transmissão entre grupos mais vulneráveis, inclusive por meio do uso de medicamentos. Estudos mostram que prevenir a infecção poderia reduzir em 30% os gastos com o atendimento de pessoas com Aids. Ao mesmo tempo, atenção especial tem sido dedicada a combater a discriminação desses grupos.

A reportagem sobre os esforços municipal e estadual de São Paulo para o atendimento a dependentes de crack mostra que, apesar das diferenças de posicionamento entre as esferas de governo, a abordagem é semelhante. Oferecer espaços onde os dependentes possam receber cuidados básicos, como um banho ou corte de cabelo, permitindo que se sintam confortáveis para, com o tempo, procurar ali atendimento para tratar a dependência, é um traço comum dos programas. O foco da reportagem é uma estratégia inovadora, mal compreendida e (talvez por isso) polêmica chamada manejo de contingências, que consiste em recompensar financeiramente, por meio de vale-compras, a abstinência. A experiência de aplicar pela primeira vez esse princípio ao tratamento da dependência do crack foi bem-sucedida: 21% dos que foram submetidos à estratégia ficaram abstinentes durante todo o período do estudo, de três meses. Em comparação, nenhum dos integrantes do grupo de controle permaneceu em abstinência durante todo esse tempo. Os números podem parecer pouco significativos, mas, nesse campo, outra posição compartilhada é que não há um único caminho: o tratamento que vale para um pode não ter efeito para outro.

As ossadas desenterradas de uma vala no cemitério de Perus são um difícil capítulo – em aberto – da história recente do país. Mais de mil caixas, hoje sob a custódia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), são analisadas por uma equipe multidisciplinar de arqueólogos, médicos legistas, bioantropólogos e odontolegistas que cuidadosamente limpa, organiza e classifica as peças para tentar identificá-las, casando as informações reveladas pelos ossos com os dados obtidos com os familiares dos desaparecidos. Resultado de uma parceria da Unifesp com a prefeitura de São Paulo e o governo federal, o Grupo de Trabalho Perus deve concluir até o final de 2017 essa história, que já dura décadas, contribuindo também para o avanço das ciências forenses no país.

Pouco depois da reunião de pauta, recebemos uma ligação de um observador atento das discussões sobre política científica: “Vocês precisam entrevistar uma pessoa”. Tratava-se do físico sul-africano Neil Turok, diretor do Instituto Perimeter, no Canadá. Turok esteve no Brasil para o simpósio comemorativo dos cinco anos do Instituto Sul-americano para Pesquisa Fundamental (SAIFR), sediado em São Paulo, que conta com apoio da FAPESP.

Segundo Turok, para serem criativos, é preciso que os jovens estudantes sejam colocados diretamente em contato com a fronteira do conhecimento – quando necessário, podem aprender pontualmente o que precisam para avançar. O Perimeter não procura pesquisadores que tenham trabalhos com alto índice de impacto, mas sim os que são pouco convencionais, de origens diferentes, e com diversidade de gênero. Em entrevista, Turok contou também sua experiência ao criar um instituto interdisciplinar na África voltado para a análise matemática de dados científicos em qualquer área. Essa instigante entrevista ganhou seu lugar na edição, junto com a da também física Gabriela González, argentina que é porta-voz do Ligo, experimento responsável pela detecção de ondas gravitacionais. Ela contou como foi o processo do acontecimento científico mais fascinante de 2016.


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