RESENHAS

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O corpo como centro das atenções sociais

Gordos, magros e obesos: Uma história de peso no Brasil | Denise Bernuzzi de Sant’Anna | Estação Liberdade | 184 páginas | R$ 39,00

POLLYANNA FERNANDES PATRIOTA e ANA LYDIA SAWAYA | ED. 251 | JANEIRO 2017

 

290_096_Resenha_GordosDenise Bernuzzi de Sant’Anna retrata em sua obra Gordos, magros e obesos: Uma história de peso no Brasil como, no decorrer da história brasileira, os indivíduos foram categorizados socialmente através de seus pesos e corpos, relacionando-os ao sucesso ou fracasso, saúde ou doença, beleza ou feiura, amor ou desamor, felicidade ou tristeza. A publicação é dividida em quatro capítulos que percorrem desde as épocas de penúria a orgias alimentares, da fome à fartura, da desnutrição à obesidade e consequentemente o surgimento e o crescimento de um mercado que ofertaria um largo leque de tratamentos para ambas as situações.

A linha do tempo de nossa cultura alimentar é descrita no livro desde os banquetes e exageros alimentares dos Orleans, Bourbons e Braganças, no final do século XIX, onde ser corpulento ou bem pesado refletia em prestígio social e poder. Percorre meados do século XX, período no qual o desejo de obter uma aparência física leve e longilínea se propaga, segue até o desvelar-se de transtornos, tais como anorexia e bulimia, e, por fim, chega até os atos de resistência mais recentes contra a supervalorização do corpo.

A autora detalha mudanças nos padrões alimentares em nosso país, desde a chegada dos primeiros supermercados até a explosão de fast-foods, favorecendo sobremaneira a disponibilidade e o acesso a alimentos com alto teor calórico (ultraprocessados), de fácil preparo, com escassez de fibras e concentrações extremamente elevadas de açúcar e gordura, sempre anunciados de forma entusiasta, alegre e amigável e associados a um conceito de ascensão social para seus consumidores.

No livro, encontramos desde o percurso das descobertas científicas, que já alertavam para os riscos do excesso de peso, até a apropriação pela indústria farmacêutica, alimentar e pelos fornecedores de bens e serviços relacionados à estética de suas respectivas fatias do mercado consumidor. Estas últimas, por sua vez, oferecem cada vez mais tratamentos “milagrosos”, rápidos e sem esforços, para uma questão com múltiplos fatores determinantes, como é a obesidade. Não dá para culpar o indivíduo ou seu fraco ânimo para mudar o cenário.

Além disso, o livro destaca que a preocupação com a saúde, difundida entre os profissionais da área, foi abraçada pela mídia por meio de propagandas ostensivas com foco no peso como determinante de prestígio social, autoestima elevada, sucesso e credibilidade. Essas propagandas geraram novos padrões de beleza, contribuindo para atribuir características pejorativas à pessoa obesa, como preguiçosa, deprimida, malsucedida, mal-amada, feia, amargurada, gulosa, sem força de vontade. Os novos padrões de beleza influenciaram, sobremaneira, o inconsciente coletivo para que uma doença com determinantes multifatoriais fosse vista como questão de estética, na qual a culpa reside somente no indivíduo, afastando os olhares dos aspectos socioambientais, políticos e, sobretudo, econômicos do crescimento da obesidade em nosso meio.

Um dos pontos altos da publicação nos chama a atenção sobre o fardo que recai sobre os indivíduos (gordos ou magros), mas, sobretudo, os com excesso de peso, e as constantes exigências sociais cada vez mais rígidas sobre a silhueta perfeita, forma física e ideal de beleza que têm alimentado um frequente medo por um ato que deveria ser natural e feliz: o de comer. Tais exigências têm favorecido a destruição do ato de alimentar-se como algo cultural, belo e prazeroso, e como ato social, considerando os terrorismos alimentares acolhidos por nossa sociedade atual e tão massivamente divulgados pela mídia.

Por fim, a autora nos recorda que o livro tem por finalidade relatar como as atenções têm sido direcionadas para o peso e o volume dos corpos no decorrer da história e como o corpo tem sido usado como alvo de ataques e defesas, tornando-se o centro das preocupações sociais. As exigências não ocorrem em nome da saúde, mas de uma aparência cada vez mais rigorosa em busca de um padrão de beleza que tem levado ao adoecimento pessoas de todas as classes sociais e idades. O ato de se alimentar torna-se, assim, um sofrimento psíquico, uma transgressão, associada a um receio de engordar e ter que lidar com as consequências desse peso diante das imposições da sociedade.

Pollyanna Fernandes Patriota é professora de nutrição da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Ana Lydia Sawaya é pesquisadora da área de nutrição e professora titular livre-docente da Universidade Federal de São Paulo.


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