RESENHAS

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A universidade e a interpretação do Brasil

As edições do cânone – Da fase buarqueana na coleção História Geral da Civilização Brasileira (1960-1972) | André Carlos Furtado | Eduff | 262 páginas | R$ 52

THIAGO LIMA NICODEMO | ED. 252 | FEVEREIRO 2017

 

290_092_Resenha_01_252Poucos autores brasileiros receberam tanta atenção nos últimos anos como Sérgio Buarque de Holanda, considerando não apenas a quantidade de livros publicados, de reedições, de homenagens, mas sobretudo de trabalhos acadêmicos dedicados a esmiuçar aspectos da sua obra. Assim como ocorreu com Machado de Assis ou Guimarães Rosa, o acúmulo de fortuna crítica permitiu um investimento para além da exegese textual, direcionando investigações às reverberações e reapropriações das suas obras ao longo do tempo, assumindo o desafio de avaliar o peso desses autores na cultura brasileira.

As edições do cânone: Da fase buarqueana na coleção História Geral da Civilização Brasileira (1960-1972), de André Carlos Furtado, contribui para sedimentar esta fase na interpretação de Buarque de Holanda e pode ser equiparado a outras iniciativas recentes, tais como os livros Signo e desterro, de Pedro M. Monteiro (2014), A morte do homem cordial, de Rafael P. da Silva (2015), a até então inédita edição crítica de Raízes do Brasil (2016), ou o recente dossiê sobre os 80 anos de Raízes do Brasil da Revista Brasileira de História (2016). O ímpeto em comum é o de escovar a memória disciplinar a contrapelo, retrospectivamente, mostrando como e por que algumas interpretações atribuídas a Buarque de Holanda tornaram-se predominantes em detrimento de outras, ajudando a condicionar nosso olhar sobre o Brasil.

O livro se lança ao desafio de integrar dois movimentos. O primeiro é o papel de Buarque de Holanda no processo de disciplinarização da história na universidade brasileira; o segundo, o legado do autor na constituição de uma cultura de resistência à ditadura militar e, posteriormente, no imaginário do período da abertura política. De modo retrospectivo, a obra começa a partir do segundo movimento com uma análise instigante sobre a ressignificação do pensamento de Buarque de Holanda na década de 1970, em compasso com o debate público em torno da democracia e da garantia de direitos sociais. Sérgio Buarque de Holanda conjugava ação política, por meio do Centro Brasil Democrático, com a escrita de textos como Da Monarquia à República (1972); enquanto, quase simultaneamente, o filho Chico Buarque fazia sucesso com canções de protesto e a peça Calabar (1973). O livro de Furtado mostra as nuances e contradições do campo de forças que converge para essas construções sociais.

O papel da coleção História Geral da Civilização Brasileira (HGCB) como um vetor da disciplinarização da história na universidade, que corresponde ao outro eixo, é tratado em dois capítulos. Amparado solidamente por estudos em história cultural e editorial, Furtado avança muito na compreensão das circunstâncias de edição e circulação da obra. A Difel, editora da obra, entendeu a universidade enquanto um mercado a ser explorado e assim a coleção segue linhas semelhantes a manuais, como o História Geral das Civilizações, traduzido e publicado pouco antes.

A pesquisa avança menos do que poderia na compreensão da restruturação do campo dos estudos históricos diante do advento da universidade. Já se sabia que a HGCB, enquanto obra coletiva, ocupou posição estratégica, pois se aproveitou das primeiras levas de estudos monográficos produzidos no contexto universitário, majoritariamente na Universidade de São Paulo (USP). Também era conhecida a prevalência do século XIX na fase buarqueana, já que cinco tomos tratam do período (apenas dois tratam da fase colonial). A pergunta essencial é como a história do Brasil deveria ser escrita a partir desse novo lugar de social que é a universidade, especialmente a USP. Para respondê-la, conviria uma leitura mais atenta da tradição de escrita da história do Brasil, não só a que vem desde Francisco A. de Varnhagen, mas a que se colocava naquele momento com outras sínteses, representadas por obras tão díspares quanto as de Pedro Calmon ou de Nelson Werneck Sodré. A resposta de Furtado é simplista ao apontar um “desejo de ver superada a tradição histórica precedente” por parte de um certo “paradigma uspiano”, encarado com homogeneidade excessiva.

Isso não compromete um valioso esforço de pesquisa exaustiva e original que foi muito além das exigências do mestrado e sobre o qual se espera que rendam bons frutos.

Thiago Lima Nicodemo é pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e professor adjunto do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


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