NOTAS

Print Friendly

Peixe-boi-da-amazônia “sabe” a hora certa de migrar

ED. 252 | FEVEREIRO 2017

 

Na época de seca, o mamífero deixa o lago Mamirauá e vai para o Amanã

Na época de seca, o mamífero deixa o lago Mamirauá e vai para o Amanã

Entre outubro e dezembro ocorre a época de seca na região do médio rio Solimões, cerca de 600 quilômetros a oeste de Manaus, e as águas do vizinho lago Mamirauá baixam tanto que um de seus habitantes mais famosos, o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis), migra para outro lago, o Amanã, para garantir sua sobrevivência. Embora exista mais alimento disponível para esse mamífero aquático no primeiro do que no segundo lago, a arriscada viagem, que pode durar três dias e envolver uma travessia de até 115 quilômetros, é plenamente justificada. Mamirauá está em uma área de várzea, sujeita a cheias e vazantes. Amanã se situa em uma região perenemente alagada. Um estudo recente sugere que o peixe-boi tem mecanismos biológicos de localização espacial que o fazem iniciar no momento ideal a migração forçada (Acta Amazonica, janeiro-março de 2017). “Ele parece ter um mapa cognitivo da região que é atualizado conforme o nível da água baixa”, comenta o ecólogo Eduardo Moraes Arraut, especialista em sensoriamento remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), autor do trabalho. Segundo Arraut, o peixe-boi adia ao máximo sua partida de Mamirauá, quando as águas do lago começam a baixar, a fim de se alimentar por mais tempo das plantas aquáticas locais, que não são encontradas em Amanã. Ainda assim, o animal normalmente consegue fazer a viagem sem ficar preso nos trechos mais rasos de seu percurso, os chamados gargalos migratórios. “Talvez ele tenha algum sensor para acompanhar as mudanças químicas que ocorrem na água na época da seca”, aventa a oceanógrafa Miriam Marmontel, do Instituto Mamirauá. O estudo rastreou por até quatro anos os movimentos de 10 peixes-boi, compilou 30 anos de imagens de satélite da região e 14 anos de informações sobre a vazão dos rios e lagoas locais. Um dado preocupante foi a localização de um novo gargalo migratório, formado nos últimos 15 anos, em um trecho do percurso entre Mamirauá e Amanã. Na estiagem, o trecho quase seca por completo e dificulta a passagem dos animais.


Matérias relacionadas

ECOLOGIA
Peixes-limpadores conseguem alimento ao remover parasitas de peixes maiores
EDUARDO S. BRONDIZIO
Antropólogo fala sobre a vulnerabilidade das cidades da Amazônia
BIODIVERSIDADE
Tamanho e captura do tambaqui foram reduzidos pela metade