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Placenta é mais sensível ao ataque do zika no primeiro trimestre da gestação

Estudo indica que no início da gravidez esse órgão não dispõe das defesas imunológicas totalmente constituídas para barrar a entrada do vírus

MARCOS PIVETTA | Edição Online 18:53 13 de fevereiro de 2017

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Vírus Zika (foto) enfrenta menos resistência para penetrar nas células da placenta no primeiro trimestre da gravidez

Vírus zika (foto) enfrenta menos resistência para penetrar nas células da placenta no primeiro trimestre da gravidez

Os fetos de mulheres infectadas pelo vírus zika durante os três meses iniciais de gestação apresentam risco maior de nascer com problemas de saúde, como a microcefalia, do que os bebês de mães que entraram em contato com o patógeno em fases posteriores da gravidez. Um grupo internacional de pesquisadores, com a participação do bioquímico brasileiro Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto Butantan e do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), encontrou uma possível explicação para esse fato: a placenta durante o primeiro trimestre da gestação é mais sensível à infecção pelo zika.

Segundo estudo publicado hoje (13/02) pelos pesquisadores na revista científica PNAS, o vírus encontra um ambiente biológico duplamente favorável para atravessar o órgão entre a mãe e o feto no período inicial da gestação. Nessa fase, a placenta produz proteínas que estimulam a adesão e a entrada do agente infeccioso nas células do bebê em formação (os chamados receptores de ligação), que ainda não dispõe de defesas imunológicas totalmente constituídas para barrar a penetração do zika.

Com o passar do tempo, a placenta mais madura cria um cenário totalmente diferente e adverso ao avanço do vírus materno rumo ao feto. “As células da placenta no final da gravidez são resistentes à infecção pelo vírus, pois não expressam os genes que codificam as proteínas responsáveis por promover a ligação e a entrada do vírus no tecido do feto e, ao mesmo tempo, ativam vários genes associados à defesa antiviral”, explica Verjovski-Almeida, cujos estudos são financiados pela FAPESP.

Um então aluno de doutorado do bioquímico do Butantan, o biólogo russo Dinar Yunusov, fez no ano passado as análises de expressão gênica em células de placentas maduras, obtidas ao final da gravidez, e em um modelo experimental, composto de células-tronco embrionárias reprogramadas, que mimetiza a placenta do primeiro trimestre da gestação. “O zika parece realmente precisar da presença desses receptores de ligação para atacar as células do feto”, comenta Yunusov, hoje fazendo um estágio de pós-doutorado nos Estados Unidos.

Diante desse indício de que a placenta seria mais vulnerável ao zika no primeiro trimestre da gravidez, Verjovski-Almeida diz que poderia ser útil desenvolver alguma forma de reforçar as defesas biológicas desse órgão, como a criação de um soro para ser administrado em mulheres infectadas pelo vírus no início da gestação. “Mas precisamos pesquisar isso com cautela porque é muito delicado prescrever algo para as mulheres nos primeiros meses de gestação”, pondera o bioquímico. Em paralelo a essa linha de estudo, Verjovski pretende averiguar se o padrão de ativação dos genes que controlam a produção de receptores virais na placenta imatura pode variar entre os indivíduos de uma população e ser utilizado como um teste sinalizador da maior ou menor vulnerabilidade do órgão ao ataque do zika.

Um estudo publicado no final do ano passado no Journal of the American Medical Association indicou que a ocorrência de microcefalia e outras anormalidades cerebrais em bebês nascidos de 442 mulheres norte-americanas infectadas pelo zika foi de 5,9%, mas nenhuma anomalia se manifestou entre os filhos de gestantes que tiveram contato com o vírus a partir do segundo trimestre de gestação. “Há evidências científicas mostrando que a placenta imatura é mais permissível a outros vírus, como o da rubéola”, comenta o pesquisador R. Michael Roberts, da Universidade de Missouri, coordenador da equipe que fez os experimentos com placentas maduras e imaturas e o zika, publicado na PNAS.

Um dado interessante que também aparece nesse artigo aborda uma questão evolutiva do patógeno. Em experimentos feitos em laboratório, a cepa original do zika, oriunda de Uganda, na África, infectou mais rapidamente e de forma mais danosa o modelo de placenta imatura do que a variedade da Ásia, que chegou às Américas e é semelhante à que circula no Brasil e causa microcefalia. Os pesquisadores concluíram que a variedade africana é tão agressiva que pode destruir a placenta durante o primeiro semestre da gestação. Nesse caso, uma infecção pelo zika africano no início da gravidez poderia levar à não implantação do feto no útero. Em outras palavras, ao aborto. “Essa agressividade do zika africano poderia ser a explicação para não existir o registro de casos de microcefalia na África”, conjectura Verjovski-Almeida. “Os fetos infectados nem chegariam a nascer. Seriam abortados antes.”

Projetos
1. Caracterização dos mecanismos de ação de RNAs longos não codificadores envolvidos nos programas de ativação gênica em células humanas (nº 14/03620-2); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Sergio Verjovski de Almeida (USP); Investimento R$ 2.149.830,50
2. Functional characterization of long non-coding RNA transcribed from the antisense strand in the VEGFA gene locus (nº 10/51152-7); Modalidade Bolsa de Doutorado direto; Pesquisador responsável Sergio Verjovski de Almeida (USP); Bolsista Dinar Iunusov; Investimento  R$ 212, 228, 31

Artigo científico
SHERIDAN, M. A. et al. Vulnerability of primitive human placental trophoblast to Zika vírus. PNAS. 13 fev. 2016

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