NOTÍCIAS

Print Friendly

Zika no início da gravidez é mais perigosa

Estudo com camundongos indica que vírus provoca malformações se a infecção ocorre entre cinco e doze dias após a fecundação

MARCOS PIVETTA | Edição Online 12:02 24 de fevereiro de 2017

 

Infecção por zika no início da gravidez pode desencadear anormalidades congênitas como cérebros com microcefalia

Infecção por zika no início da gravidez pode desencadear anormalidades congênitas como cérebros com microcefalia

Estudo coordenado pelo médico José Xavier-Neto, do Laboratório Nacional de Biologia (LNBio), de Campinas, indica que a infecção pelo vírus zika só produz anormalidades congênitas graves em filhotes de camundongos quando suas mães são expostas ao patógeno entre o quinto e o 12º dia depois da fecundação. Em seres humanos, esse intervalo de tempo equivale à segunda e à quinta semana de gestação. Nos roedores, a infecção por zika após o 12º dia do ato sexual não levou a malformações significativas nos filhotes. O trabalho foi publicado na quinta-feira (23/02) na revista eletrônica PLOS Neglected Tropical Diseases.

O artigo da equipe do LNBio, que contou com financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), envolveu a criação de um modelo animal da infecção por zika que fosse similar ao que ocorre em humanos. Em duas linhagens selvagens de camundongos, com um sistema imunológico apto a combater infecções, os pesquisadores injetaram o vírus na veia jugular de fêmeas grávidas em diferentes momentos da gestação, entre 5,5 e 19,5 dias após a fecundação. Dessa forma, puderam ver a sequência de problemas que o vírus causa nos filhotes de roedores em função do estágio da gravidez em que houve o contato com zika. “Queríamos mapear a janela crítica em que a infecção na gravidez produz malformações congênitas”, explica Xavier.

Filhotes de fêmeas que foram contaminadas cinco dias após a fecundação apresentaram uma série de problemas de desenvolvimento: fechamento incompleto do tubo neural (disrafia), hidrocefalia (acumulação de líquido cefalorraquidiano no cérebro, levando ao aumento de tamanho e inchaço do crânio), atraso no crescimento do embrião, além de outras severas malformações. “Em seres humanos, a hidrocefalia é um prenúncio de que vai haver microcefalia”, comenta Xavier.

Quando a infecção ocorria entre 7,5 e 9,5 dias depois da fecundação, os filhotes exibiam um quadro clínico que não se limitava à microcefalia. Eles também tinham hemorragia no interior da bolsa amniótica, edema generalizado e pouca vascularização, sobretudo na região cerebral. Alguns embriões chegaram mesmo a morrer no útero depois da infecção. Segundo o pesquisador, o modelo animal de zika desenvolvido no LNBio é o único a mostrar disrafia, hidrocefalia e artrogripose (contração congênita das articulações, que leva à formação de mãos e pés tortos ou curvados)

Infecções induzidas após o 12º dia de fecundação não provocaram danos maiores nos fetos de roedores. Embora ausente dos tecidos cerebrais dos embriões que se encontravam nessa fase da gestação, o genoma do zika foi detectado em células do baço, do fígado e dos rins dos camundongos em formação. “Não podemos dizer que há um período seguro da gravidez para a ocorrência de uma infecção por zika”, explica o cardiologista Kleber Franchini, do LNBio, outro autor do estudo.

Projeto
Origem evolutiva das redes regulatórias da segmentação cardíaca em câmaras de influxo e efluxo (nº 13/22695-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável José Xavier-Neto (LNBio); Investimento R$ 690.098,30 (FAPESP)

Artigo científico
XAVIER-NETO, J. et al. Hydrocephalus and arthrogryposis in an immunocompetent mouse model of ZIKA teratogeny: A developmental study. PLOS Neglected Tropical Diseases. 23 fev. 2017


Matérias relacionadas

CARREIRAS
Engenheiro desenvolve projetos de saneamento básico em regiões pobres
ZIKA
Vacina contra o vírus deverá ser testada no Brasil
PEDRO VASCONCELOS
Virologista fala sobre os riscos do aumento de casos de febre amarela no Brasil