CARREIRAS

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Mãos sujas de óleo

Veterinária Valeria Ruoppolo abre empresa especializada em resgate e reabilitação de fauna afetada por vazamentos de petróleo

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 253 | MARÇO 2017

 

095-098_Carreiras_253-5Em 1994, após concluir a graduação em medicina veterinária na Universidade Paulista (Unip), em São Paulo, Valeria Ruoppolo se mudou para a Argentina, onde trabalhou com reabilitação de aves e mamíferos marinhos em uma organização não governamental chamada Fundación Mundo Marino. A experiência foi de grande ajuda quando ela voltou para o Brasil. Em 2000, Valeria iniciou seu mestrado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) para estudar as principais causas de morte de mamíferos aquáticos, como baleias.

Entre janeiro e março de 2000, mesmo ano em que ingressou no mestrado, Valeria participou do resgate de centenas de aves na Baía de Guanabara, em decorrência do rompimento de um oleoduto que liga a refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, ao terminal da Ilha D’Água. O vazamento de mais de 1 milhão de litros de óleo se espalhou por cerca de 40 quilômetros quadrados (km²). “Foi minha primeira grande emergência ambiental”, lembra.

Logo em seguida, ela foi convidada para ir aos Estados Unidos apresentar o trabalho de resgate desenvolvido na Baía de Guanabara. Lá, conheceu outros pesquisadores, que a convidaram para participar de operações de resgate de animais em várias regiões do mundo.

Valeria tornou-se uma profissional no resgate de animais marinhos atingidos por derramamento de óleo, atuando em países como Espanha, Noruega e África do Sul, onde, em junho de 2000, um vazamento afetou milhares de pinguins-africanos (Spheniscus demersus) na Cidade do Cabo. Todas essas atividades a fizeram terminar o mestrado em 2003. Depois, ela continuou a trabalhar em áreas acometidas por desastres ambientais.

Em 2008, uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) passou a exigir das empresas responsáveis por instalações portuárias, plataformas, dutos e refinarias um planejamento preventivo para o resgate de animais em caso de acidente. A veterinária viu na decisão uma oportunidade de negócio e, em 2010, com mais três sócios, fundou a Aiuká, empresa de consultoria especializada na elaboração de estratégias de contingenciamento para acidentes ambientais.

“Fazemos levantamentos das espécies que podem ser afetadas por derrames e planos com as primeiras providências em caso de emergência”, explica. Esse planejamento faz parte do processo de licenciamento de empresas no Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “Sem esse plano preventivo elas não podem seguir em frente com suas atividades.”

A Aiuká tem sede em Praia Grande, litoral paulista, e uma filial em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro. Conta hoje com 20 profissionais, entre eles biólogos, veterinários e oceanógrafos. A partir de 2012, ela teve de conciliar os trabalhos na empresa com o doutorado, também na FMVZ-USP, concluído no ano passado. A ideia era estudar os efeitos do óleo nos pinguins-de-magalhães (Spheniscus Magellanicus) na reabilitação, “mas não houve registros de pinguins atingidos por óleo no período”, conta. Ela mudou o projeto e pesquisou os efeitos da troca de penas no sistema imunológico dessa espécie.


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