PESQUISADORES EM EMPRESAS

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Softwares em transformação

A Dextra evoluiu acompanhando o mercado e hoje busca a internacionalização

MARCOS DE OLIVEIRA | ED. 254 | ABRIL 2017

 

A empresa usa o sistema de trabalho Agile, que ajuda a desenvolver software mais rápido e com maior interação entre os profissionais

A empresa usa o sistema de trabalho Agile, que ajuda a desenvolver software mais rápido e com maior interação entre os profissionais

Adaptação rápida às novas tendências tecnológicas da computação e um trabalho cooperativo intenso são as principais características da Dextra, empresa de desenvolvimento de softwares sob medida para o mundo empresarial. Recentemente, a empresa se internacionalizou, abrindo uma filial nos Estados Unidos, onde oferece softwares de gerenciamento, de vendas pela internet e aplicativos para celulares. A própria história dessa empresa de Campinas (SP) mostra sua capacidade de adaptação. Criada em 1995, por um cientista e um engenheiro da computação, ambos formados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Dextra começou como uma consultoria em tecnologia da informação (TI) quando a internet ainda engatinhava. Nos últimos três anos cresceu a uma taxa de 10% ao ano e em 2015 atingiu o faturamento de R$ 20 milhões.

“Conheci o Eduardo Coppo no laboratório do professor Rogério Drummond, no Instituto de Computação da Unicamp, quando fui trabalhar lá no desenvolvimento de softwares. Antes, eu havia trabalhado na empresa Digirede”, conta o cientista da computação Bill Coutinho, diretor de tecnologia da Dextra. “Coppo e eu montamos a empresa para trabalhar com redes computacionais, gerenciar estruturas de internet, que começavam a se expandir. Em 2000, decidimos mudar e partimos para a consultoria sobre o uso de internet e websites.” Nessa época eles estavam instalados na incubadora de empresas da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec). Desde 2009, a Dextra está no Complexo Pólis de Tecnologia, ao lado de empresas tecnológicas como a Fundação CPqD, CI&T e Padtec.

Empresa
Dextra
Local
Campinas (SP)
Nº de pesquisadores
150
Principais produtos
Softwares e aplicativos sob demanda

Antes, em 2002, já com o terceiro sócio, Luis Dosso, também formado em engenharia da computação na Unicamp, a empresa mudou o foco novamente. “Percebemos que havia um mercado promissor para desenvolvimento de software”, conta Coutinho. Eles começaram a trabalhar com programas opensource, ou código aberto. “Decidimos ser desenvolvedores de software sob medida, o que nos obriga a procurar antecipar qual será a próxima tendência. Fazemos software para seguradoras, bancos, empresas de serviços, indústrias, entre outros.” Um dos últimos sistemas desenvolvidos pela empresa foi um algoritmo para uma loja virtual da Globosat, que faz recomendações para o cliente baseadas no perfil do consumidor. O diferencial em relação a outros sistemas de lojas virtuais, segundo Everton Gago, um dos desenvolvedores do sistema, é o suporte que a Dextra fornece, por meio de sistemas computacionais, na orientação para a Globosat em como trabalhar com os resultados de perfis de usuários do site para oferecer outros produtos, por exemplo.

“Trabalhamos há oito anos para a Globosat e também desenvolvemos outros aplicativos, como um para crianças escolherem filmes do canal infantil Gloob”, conta Coutinho. Além de grandes empresas como Sul América, Nextel e Confidence Câmbio, hoje do grupo Travelex, a Dextra desenvolveu o sistema Livelo, formado por uma joint venture entre o Banco do Brasil e Bradesco, de contagem de pontos para troca por produtos conforme a compra em cartões de crédito.

O ambiente é descontraído, com vários lugares para reuniões e lousas espalhadas pela empresa

O ambiente é descontraído, com vários lugares para reuniões e lousas espalhadas pela empresa

Metodologia ágil
Na linha do tempo da Dextra, a mudança seguinte ocorreu em 2007 com uma inovação na metodologia de trabalho. “Tradicionalmente, desenvolvimento de softwares é um processo fabril, quase uma linha de montagem com a fase de especificação, requisitos, modelagem e finalização. As equipes são separadas e a comunicação entre elas é por documentos. Pode até funcionar bem, mas a entrega do trabalho para o cliente é lenta. Desde 2007, adotamos o método Agile, criado nos Estados Unidos, em 2001, por um grupo de desenvolvedores independentes [a Agile Alliance], que prevê formas rápidas de produção de softwares e prevalece a interação entre os profissionais em todas as fases do desenvolvimento”, conta Coutinho. “Adaptamos esse método para a cultura brasileira.” Nele, é mostrado para o cliente, em até duas semanas, um esboço do programa ou aplicativo.

A exemplo de outras empresas em que impera o ambiente descontraído, como no Google, a Dextra tem salas especiais, com almofadas e paredes coloridas ou que servem de lousa, ou ainda mesas altas, próximas ao café, onde reuniões podem ser feitas em pé, de forma rápida, e também com um painel para escrever. “É um ambiente no qual aprender faz parte do trabalho”, diz Coutinho. “Temos momentos conjuntos como o ‘café com código’, quando alguém que está estudando um assunto ligado à confecção de um software explica para outros profissionais da empresa como encontrou aquilo, como o usou e eventualmente a influência que pode ter no desenvolvimento de outros programas.”

O diretor de tecnologia Bill Coutinho: incentivo à internacionalização da Dextra

O diretor de tecnologia Bill Coutinho: incentivo à internacionalização da Dextra

Outro encontro é no chamado Dojo, palavra japonesa que indica o local de treino. Alguns desenvolvedores se espalham por uma das salas de reunião, onde um deles fica com um teclado em frente a um telão para aprender uma nova linguagem de computação. Cada um fica 10 minutos com o teclado. Com isso trocam-se experiências e o momento torna-se um modo de adaptar uma nova linguagem computacional ao estilo e à realidade da empresa. “Isso é importante porque estamos sempre nos atualizando.”

Embora a Dextra tenha os sócios e muitos dos funcionários formados na Unicamp, a empresa não tem parceria na área de pesquisa com a universidade. “Temos parceria na área de empreendedorismo: sou conselheiro de startups da Inova [Agência de Inovação] da Unicamp e dou mentoria para novos empresários”, explica Coutinho. Everton Gago, desenvolvedor de software pleno da empresa, formado em ciência da computação, também tem ligação com a Unicamp. Ele faz o doutorado na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) da universidade. Gago entrou na Dextra no início de seu curso de pós-graduação em 2012. “Eu queria ter experiência em empresa e meu orientador concordou.”

Gago (ao lado) trabalha com sistemas de inteligência artificial

Gago trabalha com sistemas de inteligência artificial

Gago trabalha com técnicas computacionais que facilitam o reconhecimento de padrões. “Um dos projetos que desenvolvemos para um cliente foi a previsão de preços de petróleo de acordo com o histórico desse produto”, explica. Com esse sistema, o cliente pode relacionar, por exemplo, o aumento do petróleo na Europa e a alta de um derivado, o butanol, no Brasil ou nos Estados Unidos. “Também fizemos, em 2014, um canal no site das faculdades Anhanguera, do grupo Kroton, para conectar alunos e seus currículos com as empresas parceiras.” Usando sistemas de inteligência artificial, o programa indica automaticamente os candidatos mais aptos à vaga, diferenciando, por exemplo, um programador sênior com inglês incompleto de um programador pleno com inglês fluente.

As equipes da Dextra trabalham em um produto com normalmente oito pessoas entre desenvolvedores, analistas e um gerente de produto. “Todas as manhãs temos 15 minutos de reunião para sabermos o que foi feito no dia anterior e planejamos o que deve acontecer naquele dia. É uma forma de tentar antecipar riscos e problemas.” Reunião similar acontece toda semana durante uma hora com pessoas de vários grupos para saber o que os outros grupos estão fazendo e identificar dificuldades.

Häger (à dir.) está sempre conectado em sites de software livre

Häger  está sempre conectado em sites de software livre

O desenvolvedor Oliver Häger atua principalmente em uma face importante da empresa, que é o visual dos softwares. “Tenho que saber das tendências mais avançadas e pesquisar o que melhor se adapta ao negócio do cliente”, diz Häger, alemão formado em ciência da computação na Universidade Ostfalia de Ciências Aplicadas. Depois de um intercâmbio em computação gráfica na Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e mestrado na mesma universidade alemã, voltou ao Brasil, mais precisamente para Valinhos (SP), onde sua mulher passou a dar aulas em uma escola alemã bilíngue. Ele está na Dextra desde 2013, permanentemente conectado aos sites em que desenvolvedores do mundo apresentam softwares com códigos abertos. “Fazemos pesquisa nesses sites e se algo tem valor trazemos para dentro da Dextra”, diz Häger. Atualmente ele trabalha no grupo que está produzindo um software para gerenciamento de pacientes em uma clínica de saúde nos Estados Unidos, cujo nome não pode ser revelado.

Atendimento remoto
“Vamos a eventos nos Estados Unidos a cada dois meses, onde conseguimos clientes e mostramos nosso trabalho”, explica Coutinho. Nos Estados Unidos, a empresa, desde 2015, chama-se Dexence e já é responsável por 10% do faturamento bruto da empresa. “Fazemos todo o trabalho em Campinas, inclusive reuniões virtuais, e o atendimento é remoto.” A Dextra faz um serviço semelhante ao que é comum na Índia em relação aos Estados Unidos, em que a prestação de serviço é quase sempre a distância. “Mas temos um diferencial, que é o fuso horário não ultrapassar quatro horas. Conseguimos tirar as dúvidas mais rápido. É uma vantagem competitiva importante”, explica Coutinho. Entre os clientes da empresa está a WaterBit, de irrigação de precisão, que opera com sensores espalhados pelo campo, que se comunicam por rádio e levam os dados para sistemas de computação em nuvem. “Desenvolvemos uma plataforma que coleta dados dos sensores, como umidade do ar, do solo, e informações meteorológicas, que são processados e interpretados para o cliente final, por exemplo, se é hora de irrigar ou não.”

076_Dextra_05_254A internacionalização da empresa conta com o apoio da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), que promove a indústria brasileira de software e a sua competitividade no exterior. “O mercado de desenvolvimento de softwares e serviços brasileiros no exterior é de R$ 2,1 bilhões, sendo 50% nos Estados Unidos, e o crescimento é de 10% ao ano nos últimos cinco anos”, diz Guilherme Amorim, diretor do Softex. “A Dextra é uma das mais ativas entre as 285 empresas que aderiram ao programa e está entre as 10 melhores. Ela tem flexibilidade e massa crítica para entregar um produto que o cliente norte-americano quer”, comenta.

Com um quarto sócio desde 2010, o engenheiro da computação também formado na Unicamp José Fernando Guedes, a empresa cresce num ritmo de 10% ao ano em relação a faturamento. Mas no número de funcionários o aumento é maior, subiu de 115 em 2015 para 150 no final de 2016. Sobre o futuro, Bill Coutinho diz que a empresa quer investir em tecnologias para sistemas de inteligência artificial, além de Internet das Coisas, redes neurais e aprendizado de máquina.

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