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Antonio Candido morre aos 98 anos

Sociólogo, escritor e professor emérito da Universidade de São Paulo, o intelectual fundou uma das vertentes da crítica literária no Brasil

CHRISTINA QUEIROZ | Edição Online 18:06 13 de maio de 2017

 

Antonio Candido fotografado em 2004, na sede da FAPESP

Antonio Candido fotografado em 2004, na sede da FAPESP

Intelectual que fundou uma das vertentes da crítica literária no Brasil, o sociólogo, escritor e professor Antonio Candido de Mello e Souza morreu na madrugada desta sexta-feira (12), aos 98 anos, no hospital Albert Einstein, em São Paulo, em decorrência de uma crise gástrica. Candido deixa três filhas, Ana Luisa, Laura e Marina, fruto de seu casamento com a ensaísta Gilda de Mello e Souza (1919-2005).

Professor emérito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Antonio Candido nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918. Durante a infância, não frequentou a escola primária, sendo educado pela mãe. “Aprendi a ler tarde. A minha mãe tinha ideia que não se podia cansar a cabeça das crianças. Então, comecei a ler sozinho”, contou Candido à revista Investigações – Linguística e Teoria Literária, da Universidade Federal de Pernambuco, em 1995.

Ainda criança, mudou-se para Poços de Caldas (MG), cidade de origem de sua família. Terminou os estudos secundários em 1935, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Realizou o curso complementar no extinto Colégio Universitário da USP, entre 1937 e 1938. Em 1939, entrou na Faculdade de Direito da instituição, curso que abandonou antes de concluir, no quinto ano. Também em 1939, ingressou na graduação em Ciências Sociais na antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da mesma universidade (atual FFLCH). Em 1942, tornou-se professor assistente de sociologia, cargo que ocupou até 1958.

Com apenas 27 anos, em 1945 passou no concurso para lecionar literatura brasileira na USP, obtendo o título de livre-docente com a tese “Introdução ao método crítico de Sílvio Romero”. Em 1954, recebeu o título de doutor em Ciências Sociais com a tese “Os parceiros do Rio Bonito”, que resultou em livro que se tornou clássico. Passou a dar aulas de literatura, quatro anos mais tarde, na Faculdade de Filosofia de Assis, posteriormente incorporada à Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em 1961, regressou à USP para criar a área de Teoria Literária e Literatura Comparada, da qual se tornou professor titular em 1974.

De 1976 a 1978, ele coordenou a criação do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Candido também deu aulas na Universidade de Paris, entre 1964 e 1966, e na Universidade Yale, nos Estados Unidos, em 1968. A aposentaria da USP ocorreu em 1978, mas seguiu orientando dissertações e teses na pós-graduação.

Antonio Candido era chamado por seus alunos de “mestre” e o empenho e paixão para ensinar foram lembrados por discípulos como Walnice Nogueira Galvão, Celso Lafer e Maria Augusta Bernardes Fonseca. Sua insistência e prestígio motivaram a FAPESP a conceder os primeiros financiamentos para projetos na área de Humanidades. Em entrevista à edição especial de Pesquisa FAPESP sobre os 40 anos da Fundação, publicada em junho de 2002, Candido contou: Se me lembro bem, solicitei a primeira bolsa ali por 1963, para a licenciada em Letras Pérola de Carvalho, que seguia o meu curso de especialização (não se falava ainda em pós-graduação), a fim de realizar no Rio de Janeiro pesquisas sobre as fontes inglesas de Machado de Assis”.

Publicado pela primeira vez em 1959, o livro Formação da literatura brasileira é, até hoje, bibliografia fundamental para os estudiosos da cultura do país. Ganhadora do Prêmio Jabuti na categoria “História literária” em 1961, a obra defende que a literatura brasileira começou, de fato, após 1850, quando escritores e poetas do Romantismo passaram a refletir sobre a identidade nacional. Essa linha de pensamento formou a tradição de crítica literária brasileira, que tomava a realidade social como eixo interpretativo das obras analisadas. Defensor da literatura como um bem inalienável da sociedade, Candido escreveu no texto “Direitos humanos e literatura” (1988): “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante”.

Além de colaborador habitual na grande imprensa, o pesquisador foi um dos fundadores da célebre revista cultural Clima (1941-44), em torno da qual se reuniam intelectuais como Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Ruy Coelho, Paulo Emilio Salles Gomes e Gilda de Moraes Rocha (com quem se casaria), entre outros. Escreveu crítica literária para o jornal Folha da Manhã (1943-45), atual Folha de S.Paulo, e Diário de São Paulo (1945-47). Foi o autor do projeto do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, em 1956. Entre 1973 e 74 foi um dos dirigentes da revista Argumento, proibida pelo regime militar.

Avesso a entrevistas e aparições públicas, Candido abriu uma exceção em 2011 e participou da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), quando proferiu a conferência de abertura. O evento homenageou o escritor Oswald de Andrade, de quem foi amigo. Na Flip, o intelectual declarou que era “provavelmente o último amigo ainda vivo do escritor”. Na ocasião, também valorizou o fato de ter vivido em uma época de esplendor da literatura brasileira. Candido produziu os primeiros ensaios críticos sobre escritores como João Cabral de Melo Neto. Ganhou diversos prêmios, entre eles quatro Jabutis e um Camões.

A trajetória de Candido também ficou marcada por sua atuação política. Ele militou contra o Estado Novo de Getúlio Vargas e se envolveu com grupos clandestinos de esquerda. Em 1945, participou da fundação da Esquerda Democrática, que em 1947 originou o Partido Socialista Brasileiro. Em 1980, também participou da criação do Partido dos Trabalhadores.

Álcir Pécora, professor titular no Departamento de Teoria Literária da Unicamp, foi contratado por Candido no curso que este fundou sobre teoria literária, em 1977. Pécora lembra que o crítico sempre colocou a literatura no centro da reflexão sobre a cultura. “Esse gesto de intelecção tendo como cerne a literatura foi inspirador para muitos jovens que achavam que falar sobre ela era importante e decisivo às suas vidas. Também foi especialmente importante para mim, no contato com o seu pensamento crítico, a forma de entender a literatura como leitura e análise alentada de obras particulares e não apenas por meio de um esforço de encaixe em teorias genéricas sobre a sociedade ou o mundo”, contou.

No site da FFLCH, a diretora Maria Arminda do Nascimento Arruda declarou: “(…) O professor inovou nos estudos sobre a formação do Brasil, inaugurando toda uma vertente na crítica literária no país, com desdobramentos no exterior também. A FFLCH perdeu, hoje, uma de suas referências centrais”.


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